segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Desencontro - Toquinho e Osias Canuto



Na gravação do disco "Chico Buarque de Hollanda Volume 3" a música Desencontro é interpretada por Chico Buarque e Toquinho. Agora, com muita satisfação, chegou a minha vez de cantar Desencontro na ilustre e agradável companhia da voz e violão de Toquinho.
Osias Canuto e Toquinho




terça-feira, 2 de outubro de 2018

Tony Bennett e Amy Winehouse




Um senhor americano, de 85 anos, que canta "Bori" and Soul; uma menina inglesa, de 27 anos, que canta "Bodi" and Soul; e um vídeo de imagens maravilhosas.
"Esse encontro com Tony foi perfeito, nossa sintonia é incrível, eu acho que não poderia ter sido melhor". Amy Winehouse
"Ela foi a melhor de todos os jovens artistas que eu conheci nos últimos 10 ou 15 anos" Tony Bennett
Body and Soul é uma canção dos anos 30 que já foi gravada por Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e outros tantos gênios do Jazz. A despeito de eu conhecer e adorar várias dessas gravações, acabo de eleger essa como a minha versão preferida. É a última aparição musical de Amy Winehouse. Se ela tinha alguma desconfiança que a vida lhe seria breve, não poderia ter escolhido companhia melhor para um adeus.
Ao lado do gênio Tony Bennett, imagens de uma Amy Winehouse tranquila, graciosa e musicalmente perfeita, pairando leve sobre todo sensacionalismo barato que se costuma ler e ouvir sobre ela.
A vida é realmente bela!

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

The Cruel Logic of Secrets


The secret is the embryonic stage of a gossip. It's the day before the scandal became public.
- Can I tell you a secret?
- No..
- What?
- No. You can't. I don't like it when you tell me secrets, 'cause I can't tell them to anyone.
- Ok. But.... how do you think it should be? If it's a secret, it shouldn't be said.
- If so, why are you telling me the secret? Do not tell it to me and it will indeed be a secret. You see, no one tells a secret about unimportant things. A good secret is always about interesting things, which could be on the cover of a gossip magazine. And you want me to keep it to myself? It's very annoying to know something scandalous, or very serious, and keep quiet. And... if you can't keep a secret for yourself, why do you ask me to do it?
- You're right. So let's do it like this: I'll tell you and you'll only tell one person, right?
- Right!
- I'll tell you, then. But remember: it's a sercret!
- Tell me quickly!!!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Alper Yesiltas Windows

. Alper Yesiltas passou 12 anos em Istambul fotografando a mesma janela. Inclusive sua demolição.
. Alper Yesiltas spent 12 years in Istambul shooting the same window. Even his demolition.
. Alper Yesiltas a passé 12 ans à Istanbul en train de photographier la même fenêtre. Jusqu'à sa démolition.












terça-feira, 17 de julho de 2018

Flamengo até Morrer! Será?


Charles Darwin empregou o termo "Sobrevivência do Mais Apto" como sinônimo de "Seleção Natural". O organismo que se adapta mais facilmente ao meio aumenta suas chances de sobrevivência num mundo hostil e adverso.
E lá ia a moça caminhando vestida no manto sagrado do Flamengo. Era linda. O verdadeiro canalha deve pensar rápido. Tirei a camisa na qual estava equivocadamente trajado e parei o carro. Ofereci carona e fomos comemorar o título de campeão brasileiro. Éramos uma emoção só. Um só coração rubro-negro. Cantamos o hino, pulamos, gritamos como ensandecidos na geral do Maracanã:  Meeenngoooo!!!
Em pouco tempo ela já se considerava minha namorada, noiva, esposa e já estávamos fazendo planos. Nos casaríamos numa igreja enfeitada com bandeiras do nosso time, passaríamos a lua de mel no Rio de Janeiro, iríamos juntos ao estádio torcer pelo nosso time. O terno e o vestido de noiva fariam lembrar as cores do Mengão, um espetáculo só possível quando paixões tão intensas se misturam!!! Incrível como a emoção do futebol decide destinos. 
Assim prosseguimos sonhando e, principalmente, comemorando. Ela me apresentou outras tantas lindas flamenguistas e a todas beijei e abracei com rubros sentimentos e negras intenções, afinal, o nosso Flamengo era campeão brasileiro. Mas o local estava demasiado cheio, e acabamos nos perdendo um do outro. Procurei-a por alguns instantes e, como não encontrei, meu amor por ela foi declinando a cada passo e renascendo em outras faces. Eram tantas rubro-negras, e estavam todas tão felizes e acessíveis. Terminei a noite nos braços de outra linda torcedora cujo nome também não me lembro. 
Quando entrou no meu carro, ao ver a camisa que eu tinha tirado no começo da história perguntou: - O que é isso? Respondi com toda naturalidade possível: – É minha camisa do Botafogo! – Mas você não estava lá cantando o hino do flamengo? – Estava. Mas não vamos nos apegar aos detalhes. – Então, você é Botafoguense? – Sim, Botafoguense. Mas não sou cego nem burro! 
A vida é realmente bela!

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O Inimigo de Shopping


Num passado recente tinha eu por hábito almoçar pelos shoppings de Brasília na companhia do meu amigo Newton Guimarães. Aprendi com ele que shopping é um lugar onde você sempre encontra um inimigo. E a característica mais desagradável do inimigo de shopping é que ele sempre vem cumprimentá-lo.
Lá estava eu tomando meu café quando o inimigo tocou minhas costas. Trajava terno, mochila nas costas e o maldito crachá pendurado no pescoço. Se já não fosse meu inimigo, eu certamente teria problemas com ele somente por conta desse atentado estético. Mas a desgraça ia além. Uma das coisas que mais me deixa agitado é ver um homem tomando sorvete de casquinha sem usar a colherzinha, ou seja, lambendo o sorvete. E era exatamente o que o inimigo fazia. Um espetáculo depressivo. Deveria ser proibido tal gesto. Sorvete de casquinha é um objeto fálico. Não deveria ser permitido aos homens sem o acompanhamento de uma colherzinha. Tentei me desvencilhar, mas inimigos de shopping são astutos e pegajosos. Põem a mão sobre seu ombro e estabelecem conversas insuportáveis que amarram uma a outra sem chance de fuga. 
O inimigo em questão era um sujeito com a asquerosa arrogância dos nascidos em berço esplêndido. Iniciou sua fala já na agressiva, desfiando um rosário sem fim de preconceitos e outras idiotices em referência a suposta falta de instrução de determinado político nordestino. Um espetáculo deplorável de arrogância, pretensão e outras falhas morais. Enquanto falava lembrei-me de uma frase de Millôr Fernandes: “Minha ignorância não é especializada, atinge várias áreas do conhecimento”. Traduzindo: somos todos burros! Uns mais outros menos, considerada a vastidão do conhecimento humano, não temos qualquer motivo para nos acharmos grande coisa. E, infelizmente para meu adversário, percebi que arrotava iguarias que não tinha por hábito comer. Não resisti.
Conta a história que no ano de 1965, antes de lutar contra Muhammad Ali, Floyd Patterson insistia em chamá-lo Cassius Clay. Ali tinha acabado de trocar o nome e não aceitava mais ser chamado Cassius Clay. Em virtude dessa teimosia de Patterson, durante a luta Ali o massacrou muito mais do que o necessário, enquanto perguntava: Qual é o meu nome? 
Inspirado nessa lendária perversidade parti para o ataque. Deixei que o inimigo de shopping prosseguisse com sua ladainha e lentamente fui conduzindo a conversa para o lado da literatura, terreno que eu sabia estranho a ele. Um pequeno comentário sobre Dom Quixote, outro sobre Crime e Castigo e um último sobre Grande Sertões Veredas. Como eu imaginava, não tinha lido nenhum. Saber relacionar o autor à obra, como fez na tentativa de esquivar-se dos meus golpes, não é nada. Era preciso que tivesse lido. Era preciso conhecer os detalhes da batalha entre Don Quixote e o Cavaleiro da Lua Branca, saber das dores morais de Raskolnikov, de Lisavieta, era preciso saber quem é quem ao ouvir falar de Riobaldo, Diadorim, Tatarana ou Reinaldo. O veneno escorria de minha boca enquanto a doutorência engravatada ficava sem palavra ou resposta a cada comentário “despretensioso” de minha parte. 
Como Muhammad Ali torturei meu Floyd Patterson sem nenhuma piedade. Esmurrei-lhe várias vezes o crânio, o estômago e as costelas, enquanto o sangue lhe escorria pela face frouxa de susto. Percebeu minha maldade. Despediu-se derrotado e mal humorado. Certamente não me dirigirá a palavra até que se refaça do golpe e arme nova emboscada para mim num outro shopping. Estarei pronto.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Anjo Exterminado

Quando ouvi Anjo Exterminado pela primeira vez, na voz de Jards Macalé, na hora senti vontade de dar um outro arranjo, que eu achava mais apropriado à leveza da letra. Acabei gravando no Rio de Janeiro, o que foi fundamental por conta da referência na música.


sexta-feira, 29 de junho de 2018

O Amigo do Traficante


Não gostava, o rapaz, de andar com o amigo traficante quando este estava traficando. Era demasiado arriscado, e já tinha avisado ao amigo que não misturasse amizade e trabalho. Mas nenhuma amizade está baseada em critérios tão claros e fáceis de serem controlados. 
Você me leva ao Setor Hoteleiro Sul? 
– Levo. 
– É coisa rápida. Só vou deixar lá um negócio.
– O quê? 
Fica tranqüilo! 
– Ainda me meto numa roubada por andar com você. 
– Fica tranqüilo! Não tem erro. Já fiz isso muitas vezes.
O rapaz não quis aguardar no carro e desceram juntos para a tal entrega. Na portaria do hotel o traficante cumprimentou a todos como quem cumprimenta parentes ao entrar em casa. O rapaz esboçou um sorriso sem graça e também cumprimentou a todos. No fundo, movido por perigosa curiosidade, achava aquilo tudo estranhamente divertido, apesar do óbvio risco de ser preso como traficante sem jamais ter traficado coisa alguma. 
No apartamento, nos últimos andares, doze meninas esperavam pelo senador. Era dia de uma votação importante no senado e ele tinha que estar presente até o fim da sessão. Por falta do que dizer, o rapaz perguntou:
– Ele é casado, não é? 
– É, e bem casado. Conheço a esposa dele. Uma senhora muito educada.
– Doze garotas de programa?
É. Ficam aí comendo e bebendo enquanto não acaba a sessão no senado. Quando chegar, ele vai selecionar umas cinco e as outras vão ter que ir embora.
– E aí? Elas perderam a tarde?
– Não. Vão receber uma boa grana só porque esperaram até agora. 
Mas se elas cheirarem esse pó todo a coisa vai desandar até a noite!
Elas não cheiram sozinhas. O pó fica com o assessor dele até a noite. Literalmente, elas comem na mão dele.
Mas o senador também cheira? 
Acho que não. Só um pouco. Sei lá. Deve cheirar alguma coisa, só para não ficar totalmente limpo e fora da energia da balada. O que eu sei é que toma um uísque violento. 
No entreabrir da porta, para que a entrega fosse feita, o rapaz conseguiu olhar as acompanhantes. Algumas eram realmente bonitas, outras, nem tanto. Havia também comida e bebida em grande quantidade. 
Para o bem ou para o mal, o velho parlamentar era um profissional competente na arte de aproveitar a vida. Já está longe do senado, mas deixou enormes rastros de diversão espalhados pelos hotéis da capital federal e, com certeza, vários admiradores e continuadores de sua alcoviteira obra.
A vida é realmente bela!

terça-feira, 26 de junho de 2018

Muhammad Ali X "Big Cat" Williams

Uma das belas imagens do Boxe. Em 14 de novembro de 1966, Muhammad Ali nocauteia "Big Cat" Williams no 3º round.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Out Of Control



I'M OUT OF CONTROL, I'M DRUNK AT A BAR
UNTIL I GO CRAZY, I NEED MY GUITAR
I WANNA PLAY SMOKE ON THE WATER
I WANNA PLAY THAT'S THE WAY
I WANNA PLAY HEAVEN AND HELL
I WANNA PLAY FINDING MY WAY

I'M OUT OF CONTROL, I'M DRUNK AT A BAR
UNTIL I GO CRAZY, I NEED MY GUITAR
I WANNA PLAY ACES HIGH
I WANNA PLAY HEY JOE, LITTLE WING
I WANNA PLAY INTO THE LENS
I WANNA PLAY A FAREWELL TO KINGS

I'M OUT OF CONTROL, I'M DRUNK AT A BAR
UNTIL I GO CRAZY, I NEED MY GUITAR
I WANNA PLAY SUBDVISIONS, THE TREES
I WANNA PLAY THE ENEMY WHITHIN
I WANNA PLAY CLOSER TO THE HEART
I WANNA PLAY YYZ

Osias Canuto: Guitarra, Música e Letra
Cesar Miranda: Vocal
Bruno Wambier: Teclado
Caco Gonçalves: Bateria
Giovanni Sena: Contrabaixo
Marcelo Sá: Produção Musical
Caio Cortonesi: Produção de Vídeo
Ricarto Ponte: Masterização e Mixagem


segunda-feira, 18 de junho de 2018

Fila Night Run


Conta a lenda, que no ano de 490 a.C., soldados gregos deixaram Atenas rumo à planície de Marathónas a fim travar guerra contra os persas. Estes últimos haviam jurado que, vencida a batalha, iriam até a capital grega para violar as mulheres e matar as crianças. Assustados, os atenienses ordenaram a suas esposas que se no espaço de um dia não chegasse notícia de sua vitória, matassem seus filhos e, em seguida, se suicidassem. Os gregos conseguiram a vitória, mas a luta durou mais tempo que o previsto e eles ficaram com medo que elas dessem conta do combinado. Preocupado, o general Milcíades ordenou ao soldado Filípides que corresse os 42 km até Atenas para dar a boa notícia. Filípides cumpriu a ordem, mas ao chegar disse apenas "vencemos", e caiu morto.
A corrida Fila Night Run é realmente um espetáculo. Minha esposa, com sua profunda sabedoria e desconfiança, não permite que eu compareça sozinho ao local. Moças e senhoras muito bonitas e distintas, todas devidamente maquiadas, completam a prova de 5 Km no assombroso tempo de 50 e muitos minutos, ou seja, tempo suficiente para dar duas voltas ao mundo. Fico me perguntando o que estas elegantes criaturas fazem durante o percurso? Quem saberá?
Vamos aos fatos. Chegando lá já encontro um amigo de infância.
– Ainda não parei de fumar. Tá complicado. Hoje só vim para passear e ver as mulheres. Será que você não pode me conduzir para que eu faça os 5 km em 30 minutos?
Considerando o número enorme de atletas que tem a prova decido que não é uma má idéia ajudá-lo em tal propósito.
– Ok. Eu dito o ritmo.
E lá vamos nós. Tudo muito lento. É uma quantidade infinita de gente que pretende largar e chegar sem estragar o cabelo ou a pintura. Não posso atrapalhá-los. Ninguém tem obrigação de se inscrever numa corrida para correr.
Meu colega parece satisfeito com o ritmo. Olha para um lado e para o outro resfolegando e admirando a paisagem. Na altura do segundo quilômetro o primeiro posto de água. Meu amigo está muito cansado. Arrastando-se no deserto clama por água. Digo-lhe que continue correndo, andando, sei lá, e pego um copo para ele. Antes que eu possa alertar que deve apenas molhar a boca ele toma tudo e vejo que seus olhos pedem mais. Porém, diante do posto de água travava-se uma verdadeira batalha. Todos avançam como se fora um oásis no Saara. Corpos se movem em flagelo implorando o líquido precioso que irá salvá-los. A maioria pega mais de um copo. Vendo aquela luta desesperada após apenas dois quilômetros de corrida lembro-me da história das maratonas. Naquele instante, dezenas de Filípides já ameaçavam cair mortos em pleno deserto da Esplanada. Apesar dos tênis de alta performance e dos modelos adequados de shorts e blusas, se dependesse destes guerreiros e guerreiras teria ocorrido uma tragédia em Atenas. Felizmente tratava-se apenas de uma corrida de final de semana, e todos estávamos ali somente por diversão.
Prosseguindo, nos deparamos com novo obstáculo. Lá vinha uma senhora correndo com seu cachorrinho. Corretíssimo. Uma corrida de rua é perfeita para que você leve seu cachorro. Ainda mais se ele for minúsculo. A madame estava desesperada tentando que ninguém pisasse o animal. Não sei se conseguiu o feito, pois me deparei com ela no quilômetro três. Um encontro nada agradável. A coleira do ultrajado cão enganchou-se nas pernas do meu amigo, não o levou ao chão, mas o derrubou. Tentou usar o acontecido como um pretexto para desistir. Não permiti. Enfim, entre trancos e barrancos apontei a ele as luzes da reta final. Terminamos o desfile dentro do tempo planejado.
Superado o estranhamento e já imbuído do espírito da prova planejo para o próximo ano executar a corrida de uma forma mais apropriada. Talvez eu corra de costas ou num pé só.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O Quarto em Arles

O Quarto em Arles - Van Gogh
Van Gogh olha mais uma vez o quarto. O dia é infinitamente azul, de uma melancolia doce que poderia até ser confundida com felicidade. O pintor não está em casa, está no hospício de Saint-Rémy-de-Provence. Pinta a lembrança de um lugar. A tela ainda repousa completamente limpa sobre o cavalete. A pintura vai surgindo em lascas de cores atormentadas. O azul inunda paredes, portas, camisas e os jarros sobre a mesa. Dentro do quadro, um, dois, três, quatro, cinco quadros. Dois, estranhamente claros, dois retratos, uma paisagem com algo que parece uma árvore em destaque. O holandês ainda o pintaria mais duas vezes numa inexplicável insatisfação. O Quarto em Arles se joga para frente escorrendo sobre o observador.
No Van Gogh Museum, em Amsterdam, fico parado diante do quadro por um tempo que não sei descrever. O filho pequeno me puxa pelo braço e interrompe a viagem pelo tempo. Naquele quarto, sem que Van Gogh soubesse, dormi infinitas vezes nos meus tormentos de adolescente e nas minhas bebedeiras de adulto.

Osias Canuto e João




terça-feira, 12 de junho de 2018

Dia dos Namorados e Fondue?

João Ubalde Ribeiro
JOÃO UBALDE RIBEIRO
Preste atenção! Você tem cara de quem está tramando comemorar o dia dos namorados com um fondue. Pode ser que dê certo, pode ser que não! Não se arrisque sem antes ler essa esclarecedora advertência! 
Mesmo sendo um profundo conhecedor das partes íntimas da humanidade, ainda estou por entender a estrambótica relação que fez unir o tal do fondue ao dia dos namorados. Imagino a bizarra sintonia como prova indefecável do controle das agências de marketing sobre a mente dos deslumbrados pré-nupciais e dos já sacramentados marido e mulher. Duvidas? Vejamos: o lugar te deixa completamente impregnado de um cheiro infernal de óleo queimado e gordura. Camisa, casaco, vestido, calça, cabelo, cueca, calcinha... nada escapa. Além disso, você enche o pânceps de carne, frango, pão, queijo, vinho, chocolate, banana, uva, morango... e por aí vai. Mas, eis que, vencida a verdadeira batalha gastronômica, estranhamente chamada de jantar romântico, flutuando entre arrotos e gases estomacais, o malcheiroso e estufado casal parte para uma noite inesquecível no motel mais próximo! Que maravilha! Pode ser que dê certo, pode ser que não! 

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Macbeth

Quando compus Macbeth eu sabia que tinha me metido numa encrenca. Macbeth é uma tragédia de Shakespeare. Traduzir isso em música não era fácil. Precisava ser grandioso. Mas com o trabalho de tanta gente brilhante, só podia dar certo.
Arranjos de base do Marcelo Sá, a quem confio minhas músicas. Os teclados incríveis do Bruno Wambier, que deixei livre para criar e colar na minha guitarra. A sustentanção de todo o peso da música nas mãos dos competentíssimos Giovanni Sena (Baixo) e Caco Gonçalves (Bateria). E, por fim, o vocal do Alirio Netto. Uma voz linda numa interpretação impecável.
Abaixo o vídeo no youtube e o link para baixar o MP3: Versão MP3 para baixar



terça-feira, 29 de maio de 2018

A Assassina No Cartaz de Shopping


Apaixonou-se pela moça do cartaz. Encontravam-se sempre das 10 da manhã às 10 da noite, ou seja, no período de funcionamento do shopping. Viviam um amor calmo, sem cobranças. Ela, estampada na enorme parede da entrada principal, estava sempre escandalosamente linda. Ele, por vezes alegre, por vezes tristes, mas sempre apaixonado. Os espasmos de tristeza vinham por conta de uma ponta de ciúmes, quando via que alguns homens paravam diante dela e teciam comentários. 
Como trabalhava numa loja bem em frente ao cartaz, passava longas horas trocando olhares com ela e comentando com um amigo: 
- Viu como ela me olha? É sempre assim. 
- Você está louco? Ela não está te olhando. Olha para qualquer um que esteja olhando para ela. É uma questão de ângulo. Isso é apenas um cartaz! 
- Não. Não é. Compreendo sua inveja por ela não olhar para você. Que acha de eu chamá-la para jantar hoje?
- Isso. Perfeito. Se ela for, eu te dou todo meu salário deste mês.
- Mas não sei se devo.
- Deve. Pelo amor de Deus, faça isso! Chame-a para ir até sua casa, para jantar, para beber e depois ir para a cama com você. Vai ser incrível!
 - Não. Não chamarei. Você está sendo grosseiro. Sinto que ainda não é o momento. 
Assim se passavam os românticos dias do lunático, até que o cartaz sumiu. O amigo, que sempre chegava mais cedo para o trabalho, aguardou o apaixonado, feliz por poder lhe dar a péssima notícia. Ele chegou, cumprimentou a todos sem olhar para a loja do cartaz. O amigo não podia esperar pelo momento da decepção. Mas antes que pudesse dizer algo o outro falou:
- Estive pensando e decidi terminar o namoro. Acho que já não somos tão felizes como no início. Vou dizer isso a ela hoje.
- Não, você não vai dizer. A fotografia não está mais aí. Vê? Era somente uma fotografia e foi retirada. 
Sem ouvir o que o outro tinha dito, falou: 
- Pobre moça, deve ter percebido o que aconteceria e partiu. Melhor assim. Poupa-nos do desgaste de uma despedida. 
Pouco tempo depois surgiu novo banner com a mesma modelo. O amigo temeu pelo pior. E o pior sempre vem. - Você viu como ela me olha?
- Que história é essa? Isso é um banner! Um banner! Ela não está te olhando! Ela não está olhando para coisa nenhuma! É apenas uma foto! 
- É por isso que as mulheres te desprezam. Você vê nelas apenas uma imagem. Eu identifico nelas o perfume, a poesia, o desejo, a vida.
- Ora, você é um maluco! Que vida? Que poesia? Isso é uma imagem. Uma imagem!
Após uma semana, chega o chefe da loja e dá a notícia da morte por suicídio. O amigo, arrasado, pergunta:
- Mas por que ele fez isso?
- Dizem que deixou um bilhete relatando uma desilusão amorosa. A polícia esteve aqui fazendo perguntas e está procurando alguma mulher com quem ele tenha se relacionado recentemente. Você sabe de alguma coisa?
O amigo olha para o cartaz diante da loja e diz:
- Não, não sei de nada. Mas creio que não vão encontrá-la.
- Por que você diz isso? 
- Sei lá, apenas uma suspeita. 
Olha novamente o cartaz e pensa: Muito estranho esse jeito que ela me olha.
A partir de então, seguindo os passos do morto, começou a namorar a moça do cartaz. Mas tomava muito cuidado, pois, além de linda, ela lhe parecia fria e calculista. Talvez fosse uma assassina profissional.
Um mês se passou antes que fosse encontrado morto. A polícia não encontrou motivo aparente para o suicídio. Mas o chefe alertou para a possibilidade de algum amor não correspondido.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Destruição Crepuscular


Velho Crepuscular - Salvador Dalí


Na tarde empoeirada
vago antialérgico pela cidade asfaltada.

Nada se move.
Nenhum sinal de embrutecimento.
Nenhum espasmo de poesia.

Só a tua lembrança,
já a caminho do esquecimento,
me doe nessa analgesia.

Derradeira gota de ilusão
nas veias mornas do fim do dia.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Trapacista Degolante



Durante boa parte de minha vida me diverti cortando cabeças. Cortava com uma precisão milimétrica. Desenvolvi técnicas sutis que não permitiam qualquer reação da vítima. Chegava por vezes a eliminá-las por inteiro da paisagem, mas elas só se davam conta que estavam sem cabeça, ou sem corpo, tempos depois. Certamente me odiavam por isso. Era linda a minha arte.
As máquinas digitais vieram para destruir meu trabalho. Tornaram as recordações de viagem muito chatas. Era bem mais divertido quando o indivíduo, ao revelar a foto, percebia que tinha sido degolado ou, simplesmente, não existia. O sucesso da foto podia ser medido pelo ódio do fotografado ao ver a revelação.
Chega ao trabalho todo satisfeito com o pacote de fotografias nas mãos, louco para mostrar a todos sua superioridade viajante e eis que, bem diante do Coliseu, do Pathernon, do Metropolitan ou do Opera House, nada. Nada. O colega, com toda maldade, mesmo reconhecendo aquela camisa laranja com listras verdes, sentencia:
- Esse não é você, é?
– Sou eu sim. Olha a camisa!
– Não me lembro dela.
- Então olhe o sapato!
– Ei!!! Não ouse tirar este sapato!! Você veio com ele a semana toda.
– Não sabia que você reparava no meu sapato.
– O que você está insinuando?
– Não estou insinuando nada.
E lá vinha eu caminhando calmamente quando vi a máquina fotográfica nas mãos de um deles, e outros cinco ou seis prontos para a foto histórica diante da enorme placa de cimento da Advocacia-Geral da União. Lembrei-me de todas as minhas aventuras e odiei as máquinas digitais, mas ao me aproximar percebi que havia uma chance de tratar-se de máquina analógica.
O sujeito me pediu para fotografá-los. Não queria ficar de fora do registro histórico. Recém aprovados no concurso de Advogado da União queriam uma imagem diante da placa. Quando peguei a máquina em minhas mãos, não acreditei: era analógica. O passado correu filme veloz em minha mente. Ouvi com bastante atenção as recomendações:
- Você enquadra de forma que apareçamos todos nós e também o nome na placa.
– Claro. Fique tranquilo!
Posicionaram-se fingindo que eram bonitos, ricos e inteligentes. CLIC!!!
Entreguei-lhe o registro ainda secreto da placa e de algumas pernas. Do alto de sua burrice, não me agradeceu. Não me importei. Como diria o ditado popular: Vingança é um prato que se "fotografa" frio!

terça-feira, 15 de maio de 2018

A Dama do Lotação - Pecado Original


Quando a gente volta o rosto para o céu 
e diz olhos nos olhos da imensidão:
- Eu não sou cachorro não!

“Você há de brilhar como o Sol, até o fim dos tempos” – Essa foi a frase dita por Nelson Rodrigues para Caetano Veloso. O autor fazia o elogio após ouvir a canção Pecado Original, composta por Caetano para o filme “A Dama do Lotação”, de Neville de Almeida, e baseado na obra de Nelson Rodrigues.  Considerando a belíssima melodia e a letra irretocável, eu diria que o escritor não cometeu nenhum exagero. 
Quando ouvi pela primeira vez essa canção já corri para o violão e tratei de tocá-la. De lá para cá, tornou-se uma das minhas canções preferidas. Daquelas que nunca deixo de tocar. 
A vida é realmente bela!


segunda-feira, 7 de maio de 2018

Carlinha Seis Ursinhos


Do narrador aos seus leitores: Na qualidade de sobrevivente aos fatos eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, narro a vocês, curta, a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Quem poesia espera, não leia.
Nascida Carla das Luzes Albuquerque Vieira, Carlinha Seis Ursinhos nunca deu muita conversa às companheiras de prisão. Silêncio quase de uma morta. Olhos de camaleão que todos os ângulos observam. Sobre a prateleira improvisada da cela, o retrato da irmã morta é quase a imagem de uma santa para todas as presas. Todas conhecem a história do crime e da vingança. Acendem vela, rezam, pedem perdão, proteção e tudo o mais que se costuma pedir aos santos.
A irmã de Carlinha foi morta aos dezesseis anos por dois promotores. Morreu com um tiro na cabeça após sofrer tortura e estupro. Impunes, sorridentes, durante todo o processo foram menos culpados que estrelas. A justiça é diferente aos julgados pelos iguais. E os iguais deram um jeito de tornar a pena o mais branda possível. A morta foi encontrada com uma arma na mão. Mas, para todo mal, duas justiças possíveis. E a melhor é a que é feita com muita dor. Os assassinos esqueceram já na primeira noite o corpo da morta. A irmã lembrou sempre e cresceu com o gosto do sangue enchendo a boca todos os dias. Uma, interrompida, e a outra, crescendo, o tempo cuidou de fazer da mesma idade existente e existida. Dezesseis anos. A morta nada mais podia. A viva decidiu vingança.
Uma menina não deve planejar morte sozinha. O mendigo Apocalipse já tinha perdido há muito o sentido do certo e do errado, do possível e do impossível, do real e do imaginário. Esta última característica era a que o tornava útil a Carlinha. Morava num ponto de ônibus e a menina o conhecia desde pequena. Crescera ouvindo falar de suas loucuras e alertada de que deveria manter distância dele. Muitos vizinhos afirmavam que já o tinham visto transformado num cachorro. Grande e forte, seguidas vezes se metia em confusão com outros mendigos. Carlinha, sem nenhum medo aproximou-se, explicou e pediu ajuda. Apocalipse sorriu e aceitou. Mas deixou claro que no retorno de Jesus eles teriam que prestar contas.
Carlinha Seis Ursinhos e o desajustado tornaram-se inseparáveis e infindáveis nas conversas. Ele sabia exorcizar por métodos dolorosos e contou a ela histórias sem fim de suas vidas passadas. Apocalipse, entre outros conhecimentos como alquimia, magia e astronomia, era também dotado da visão do fogo e do enxofre. Contou a Carlinha sobre a Santa Caverna, na igreja de Agia Anna, na Ilha de Patmos, onde São João ditou a seu discípulo Prochoros o Apocalipse. As imagens muito impressionaram a menina. Sua mãe ficava desesperada com aquela amizade, e de tudo fez para encerrá-la. Contra todas as investidas da mãe, cada vez mais se tornavam amigos. E assim se passaram dois anos, até que a mãe desistiu e ninguém mais na vizinhança se importou com aqueles dois lunáticos que viravam dia e noite em diálogo sem fim.
Durante esse tempo os dois seguiram de perto os promotores assassinos. Ela, vestida de mendiga e ele, dizem, no formato de um cão. Casa, trabalho, bar, boate, tudo o que era possível a uma menor e um mendigo conhecer sobre a vida de dois homens de classe abastada eles conheceram.
Chegado o momento e a idade certa, dezoito anos, Carlinha Seis Ursinhos, linda como sua irmã fora um dia, deu um jeito de aproximar-se dos Promotores. Um pouco mais de três encontros e logo eles levaram a conversa para onde ela queria. Ela, fria matemática e lógica deixou-se seduzir. Os dois mergulharam em encanto e desejo. A menina abriu as portas para o encontro a três, no apartamento de um deles. No grande dia trazia seis ursinhos coloridos, de plástico duro e cores variadas, pouco menos de dez centímetros cada. Brinquedos de infância da irmã morta.
Carlinha era uma graça. Os olhos verdes cravados na pele morena. Procurou não criar muitos empecilhos. Com todo nojo, que soube disfarçar, deixou-se beijar e acariciar por ambos. Tudo tinha que dar certo e, para isso, ela já estava preparada para o que teria que agüentar. Sentiu medo ao propor amarrá-los. Pela primeira vez se dava conta do absurdo que estava propondo. Era muito primário. Nenhum homem cometeria tamanha estupidez. Cometeram. Os dois deixaram-se atar à cama, que de burrice nunca é plena a cabeça de homem apaixonado. Era só uma menina franzina de dezoito anos. O que poderia acontecer demais? Aconteceu.
A menina saiu do quarto prometendo uma surpresa ao retornar. Abriu a porta do apartamento e fez entrar Apocalipse. Quase não o reconheceu. Estava belo e medonho como a própria imagem do demônio, que ela um dia ouviu descrita pela boca do mendigo. Trazia no rosto a seriedade e gravidade que o momento exigia. O carrasco adentrou a sala de torturas e abriu uma pasta de onde retirou alguns recortes de jornal com o rosto da irmã de Carlinha. Aproximou cada um deles do rosto dos magistrados de forma que pudessem reconhecer e lembrar. Os promotores sentiram um estranho frio que só se deve sentir na hora da morte. Apocalipse foi tomado por um misto de nojo e decepção ao ver o pavor estampado na cara dos dois merdas. Por um instante descontrolou-se e desferiu vários socos em seus rostos. Foi preciso que Carlinha interviesse para que ele não acabasse com tudo ali mesmo. Ela pediu paciência. A morte deveria ser sofrida como a de sua irmã. Era isso que tinham combinado tantas vezes.
Todo o processo se daria tendo como referência as imagens narradas por São João.
“E foi assim que eu vi os cavalos e os que os montavam: estes últimos eram couraçados de uma chama sulfurosa azul. Os cavalos tinham crina como uma juba de leão e de suas narinas saíam fogo, fumaça e enxofre.” (São João, Apocalipse 9,17)

Em alusão aos cascos dos cavalos apocalípticos pegaram dois pedaços de pau e bateram o quanto puderam no corpo dos advogados. Após a surra, fizeram queimaduras em suas narinas com pontas de cigarro. Apocalipse também derramou em seus olhos um liquido que tinha preparado especialmente para aquele momento. Queimava como ácido. E não faltou repertório de maldades vinculadas ao texto bíblico, até que Carlinha saiu do quarto e retornou logo após com os seis ursinhos. Apocalipse não gostou. Seis ursinhos? O que era aquilo? O carrasco argumentou que aqueles ursinhos poderiam desmoralizar todo o processo. Não havia qualquer referência de São João a imagem de ursinhos apocalípticos. Carlinha falou que não abria mão dos bonequinhos. Tinha sonhado com eles e, no mais, pertenciam à infância de sua irmã, portanto, estavam plenamente inseridos no contexto. A menina fez uma pequena demonstração do poder dos ursinhos. Pegou dois deles, passou um pouco de vaselina e bastante vidro moído quase como sal. Introduziu vagarosamente na “rede de esgoto” dos advogados que, a esta altura das perversidades, eram dois farrapos de gente. A cada gemido Apocalipse socava os merdas com desprezo. Estava decepcionado com a frouxidão dos Data Venia. Não combinava com a grande luta entre Deus e o Diabo por ele imaginada.
Plenamente introduzidos os dois primeiros ursinhos, Carlinha pegou mais dois e, desta vez, foi Apocalipse quem fez o serviço. Os dois ursinhos que restaram foram para a testa, para marcar o lugar do tiro que viria. Apocalipse fez então a grande fala que finalizaria com a sentença. Foi um discurso longo, de quase vinte minutos, acompanhado com bastante atenção e seriedade pela menina. Os promotores nada ouviram, pois a dor provocada pelos ursinhos introduzidos no ânus era insuportável. Remexiam-se o quanto era possível fazendo escorrer o sangue no lençol branco. Apocalipse explicou que nem ele, nem Carlinha, nem ninguém podia contra aquele tipo de justiça, portanto não cabia ali nenhuma espécie de recurso. A sentença seria cumprida imediatamente. Carlinha Seis Ursinhos pegou o revólver e meteu uma bala na cabeça de cabeça de cada um dos Promotores. Simples assim. Como jamais tinha atirado em sua vida, para não correr risco de errar, atirou com a arma colada a testa dos advogados. Isso fez um estrago sem tamanho, e o sangue, juntamente com pedaços de crânio e miolos, voou em todas as direções. A menina descobriu tardiamente que o louco não era assim chamado ao acaso. O louco é louco mesmo. Apocalipse, possuído subitamente por visões de cavalos e cavaleiros em chamas, derramou gasolina em todo o quarto e ateou fogo. A menina, assustada e impressionada com o que via, desmaiou. Apocalipse ergueu-a em seus braços com o carinho e cuidado de um pai. Se alguém pode conceber um cenário pavoroso para o fim dos tempos, este estava naquele quarto. O que os dois cúmplices fizeram era de dar medo ao próprio demônio.
Carlinha e o mendigo deixaram o apartamento e caminharam em silêncio. Não tinham receio de polícia, cadeia ou justiça dos homens. Isso tudo era bobagem. O certo era irreversível e estava feito.
A menina foi presa dois dias depois enquanto jantava com a mãe. A prisão de Apocalipse não ocorreu e tornou-se envolta em mistério. Os policiais encarregados de prendê-lo, para evitar a humilhação, informaram que ele não fora encontrado. Porém, a história real, narrada por várias testemunhas, dá conta de que o mendigo, ao ser cercado no ponto de ônibus onde morava, desapareceu numa nuvem de fumaça e enxofre.
Do narrador aos seus leitores: Eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, encerro aqui a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Nem santa, nem monstro, apenas uma menina.
“Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte.” (São João, Apocalipse 21,8)

terça-feira, 3 de abril de 2018

Receituário Para a Salvação das Almas

Entre tantos textos lidos que povoam minha cabeça desde a mais tenra idade existem alguns que me perseguem diariamente, e que eu os carrego tatuados em minha mente. Fazem parte do meu receituário para a salvação das almas.

Os Ombros Suportam o Mundo - Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sinuca Com Walter Brasília e Toquinho


Walter Silva, também conhecido como Walter Brasília, é um sujeito incrível. Sinuca, violão e nos tornamos amigos. Em pouco menos de um mês fizemos uma amizade de mais de trinta anos. Como é possível? Simples. Walter é uma pessoa tão agradável, que em duas horas de conversa, você já se sente amigo de dois anos e, após alguns dias, você já é amigo de décadas. E assim tem sido. Duas vezes por semana nos encontramos para jogar, conversar e, como não poderia deixar de ser, tocar violão. 
Walter é um exímio jogador cercado por outros tantos grandes jogadores e, principalmente, grandes seres humanos. O que ele faz numa mesa de sinuca não se escreve, é preciso ver. É possível passar horas e horas admirando seu show. E tudo feito com uma humildade sem tamanho. Como se fossem óbvias as jogadas mais mirabolantes e inimagináveis.
Na última sexta feira, lá estava o Walter com um de seus inúmeros violões. Um violão espanhol de 1985. Maravilhoso. Uma sonoridade agradabilíssima. Toquei, toquei, toquei.... e aí ele me avisou: "Hoje o Toquinho vem aqui e eu vou dar esse violão de presente a ele." E assim foi. Toquinho tinha show marcado para as 11 da noite, mas como é um apaixonado pela sinuca, resolveu dar umas tacadas antes. É a simplicidade em pessoa. Chegou, dedilhou um pouco o violão que acabara de receber de presente e, emocionado, pediu que o amigo Walter autografasse o instrumento. As fotos estão aí. A vida é realmente bela!
Osias Canuto e Toquinho











segunda-feira, 26 de março de 2018

Kaori Muraji


That´s the girl! Agora estamos falando de gênio. Kaori Muraji é uma violonista japonesa que, além de grande instrumentista, é também uma excelente arranjadora. O violão do vídeo é um José Romanillos.




sexta-feira, 23 de março de 2018

Hellen

Foram vários dias de estúdio entre gravações e filmagens na companhia de grandes músicos. E o resultado desse meu primeiro trabalho como guitarrista não poderia ficar melhor. Música e letra de minha autoria.

Osias Canuto - Vocal e Guitarra
Bruno Wambier - Teclados e Piano
Marcelo Sá - Guitarra
Macarra - Baixo
Daniel Oliveira - Bateria

Marcelo Sá - Produção Musical
Ricardo Ponte - Mixagem e Masterização
Caio Cortonesi - Produção de Vídeo
Agradecimentos - Igos Sant'Anna, Adolfo Alvarenga, Chris Zwart e Jim Cipolla



quinta-feira, 22 de março de 2018

A Morte do Motoboy





O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
um verso vermelho e veloz;
um verso branco e triste.

O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
agudo como os seios de fulana,
vivo como a hóstia consagrada.

O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
e por mais que sangre o sangue,
não paralisa o trânsito, não eterniza o morto,
não interrompe a vida na cidade acelerada.

quarta-feira, 14 de março de 2018

A Oração e a Ligação


Cristo - Salvador Dalí
O rapaz acorda assustado com o telefone tocando em plena madrugada:
Alô! 
– Fulano? 
– Sim. Quem tá falando? 
Jesus Cristo. 
– Huuumm. Que foi? 
– Você não me conhece. Quer dizer.... todo mundo me conhece.... mas nunca nos falamos. Quer dizer.... já nos falamos..... Quer dizer... você falou. Não, não....  você rezou. Espera aí... Tô fazendo confusão! Todos falam comigo, eu ouço, mas talvez jamais alguém tenha me ouvido. Aaahhhh! Você entende o que eu to dizendo, né?
Sim, entendo. 
Então vamos ao que interessa: teria jeito de você fazer uma versão nova do Pai Nosso? 
– Eu? Mas por quê? O que tem de errado? 
Não tem nada de errado. Apenas cansei de ouvir a mesma cantilena repetidas vezes. E tem também o fato de que você escreve esse monte de insanidade nesse seu blog, daí  eu pensei em te dar uma chance de produzir algo útil ao menos uma vez na vida. O que acha?
Pode ser. Mas não sei se devo. E se você não gostar? 
Fique tranqüilo. Apenas faça. 

Dias depois, o telefone toca novamente e a voz vai direto ao assunto:
  E então? Tá pronto? 
Sim. Olha... eu acabei mesmo foi retirando os excessos. Ficou assim: PAI NOSSO, SEJA FELIZ POR TODA A ETERNIDADE! AMÉM!

(Silêncio) 

Muito bom! Muito bom! É a primeira vez que alguém se lembra de mim e me deseja felicidade. 
Pois é. Eu pensei que, se ao invés de ficar com essa mania egoísta do ser humano de pedir, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje, livrai-nos do mal, perdoai nossas ofensas, não nos deixeis cair em tentação”, blá, blá, blá.... blá, blá, blá, seria melhor que apenas desejássemos sua felicidade, e nada mais. 
Claro, claro. É isso mesmo. Ninguém jamais pensou nisso: desejar minha felicidade. Estou muito emocionado. Obrigado. Já vou decretar a alteração.

Uma semana se passa e novamente o telefone toca na madrugada:
Alô! 
– Fulano? 
– Sim. Quem tá falando? 
Jesus Cristo. Lembra de mim? Aquele do Pai Nosso?.... Brincadeira! Você ficaria magoado se eu voltasse a versão original da oração, com aquela coisa toda de pedir, pedir, pedir? 
Não. Claro que não. A oração é sua.
É que descobri que a vida só faz sentido se tenho todos aqueles humanos pedidos para atender. Olha.... os homens sempre foram essa estrutura equivocada e perdida na vastidão do universo, e eu não me sentiria bem em abandona-los.
Entendo. 
Que bom! Não fica mesmo chateado? 
Não. 
Então, tchau. 
Tchau.
Ei?
O quê? 
Você não quer pedir nada?.... Brincadeira!
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 5 de março de 2018

O Violão do Mestre Gamela

Mestre de vários músicos de Brasília como Rosa Passos e Nelson Faria, Gamela tinha um método peculiar de ensinar violão.  Dava aula ensinando por repetição os arranjos que fazia de várias composições da bossa nova. Era ali, olho no olho, dedo no dedo e você aprendia a tocar os mais sofisticados e belos arranjos.
 Gamela era engraçadíssimo e tinha um mau humor folclórico quando falava de música e músicos que não gostava. Sua frase preferida era: "se eu acho Bethoven mais ou menos, imagina o que não estou achando disso." Imaginem eu, que sou apaixonado por Chico Buarque, que Gamela detestava, tinha que aguentar durante as aulas.
 Numa minúscula quitinete situada na 105 norte, passei boa parte de minhas noites tocando, conversando, rindo, discutindo e aprendendo com o mestre. Corcovado, Eu Sei Que Vou Te Amar, Canto de Ossanha, O Barquinho, e por aí vai. Enfim, fica aí abaixo, no arranjo de Manhã de Carnaval, minha homenagem ao grande mestre.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Encarando Ali

Quem gosta de boxe precisa assistir ao documentário “Encarando Ali” (2009), de Pete McCormack. 
Conta a vida e carreira de Muhammad Ali por meio de depoimentos de seus principais adversários. George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton, Larry Holmes, George Chuvalo, Earnie Shavers e Leon Spinks, todos narrando os detalhes de suas lutas contra Muhammad Ali.
Para quem assiste o vídeo fica claro que nunca existiu um peso-pesado tão inteligente quanto ele, capaz de empregar táticas suicidas para superar adversários mais fortes, como na histórica luta contra George Foreman no Zaire, em 1974, quando apanhou por vários rounds só para tirar a energia de Foreman, antes de nocauteá-lo.
No filme, Foreman conta que Ali, no fim de um dos rounds, olhou para ele com uma expressão irônica em que parecia dizer: “Aha, te enganei. Agora vou acabar com você.”
Mas Ali não é o único grande personagem do filme. As histórias de vida de vários dos entrevistados são impressionantes.
É o caso de George Chuvalo, um peso-pesado canadense que perdeu duas vezes para Ali por pontos e que nunca foi nocauteado em mais de 90 lutas e 23 anos como profissional.
Chuvalo fala sobre a miséria de sua infância e relata sua trágica vida familiar, quando perdeu três filhos e a esposa para as drogas (a mulher e um dos filhos cometeram suicídio).
Os depoimentos são todos de engrandecimento a Ali, mas os entrevistados também não deixam de apontar suas possíveis fraquezas.
Chuvalo, por exemplo, garante que Sonny Liston entregou a famosa luta de 1965 contra Ali (diz a lenda que Liston trabalhava para a máfia de Chicago, que havia apostado pesadamente numa vitória de Ali).
Joe Frazier lembra a humilhação que sentiu com as provocações de Ali na imprensa, que feriram seu orgulho e o motivaram a vencer Ali na “Luta do Século”, em 1971.
Um dos depoimentos mais comoventes é o de Ron Lyle. Preso por assassinato ainda adolescente, Lyle aprendeu boxe na prisão e tornou-se um dos pesos-pesados mais temidos de sua época.
Lyle foi um dos únicos três homens a derrubar George Foreman e perdeu para Ali por nocaute técnico, numa luta que vencia por pontos e cuja interrupção foi motivo de muita polêmica.
Apesar disso, Lyle parece grato a Ali: “Eu vim da prisão, quase morri, mas tive a chance de lutar contra o maior campeão que já existiu. Estar frente a frente com Ali mudou minha vida.”

Assista ao Trailer do documentário no link abaixo:

http://www.facingalimovie.com/