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terça-feira, 21 de novembro de 2017

Por Que Matou?


Por Que Matou?
Osias Canuto

Matou porque não bebia,
Matou porque não fumava,
Matou porque não traía,
Matou porque não jogava.

Matou porque viu a mãe,
Matou porque viu a luz,
Matou porque viu o cão,
Matou porque viu a cruz.

Matou porque era o próprio,
Matou porque era o cujo,
Matou porque era o máximo,
Matou porque era tudo.

Matou porque deu manchete,
Matou porque deu polícia,
Matou porque deu comício,
Matou porque deu notícia.

Matou porque não tinha um gosto,
Matou porque não tinha um vício,
Matou porque não tinha amante,
Matou porque não tinha ofício.

Matou porque tinha um ódio,
Matou porque tinha um medo,
Matou porque tinha um fato,
Matou porque tinha um dedo.

Matou porque impossível,
Matou porque impotente,
Matou porque inaudível,
Matou porque infelizmente....

Matou porque a dor é tanta,
Matou porque a dor é surda,
Matou porque a dor não para,
Matou porque a dor não muda.

Matou porque era claro,
Matou porque era nítido,
Matou porque era óbvio,
Matou porque tava escrito.

Matou porque era a hora,
Matou porque era o dia,
Matou porque era o tempo,
Matou porque mataria.

Matou porque não sorria,
Matou porque não sonhava,
Matou porque não mentia,
Matou porque não matava.

Matou porque era fraco,
Matou porque era pouco,
Matou porque tava frio,
E matou...... porque tava morto.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Uma Vaca Dentro da Kombi

O sujeito tinha uma vaca dentro de uma Kombi. Não era um cão, não era um gato, não era um papagaio, não era um macaco. Parado em um sinal, em plena rodoviária de Brasília, olho para o lado e..... uma vaca. 
Uma vaca dentro de uma Kombi fechada. Uma Kombi fechada. Não era na carroceria, como muitos podem estar imaginando. Seria demasiado óbvio e cansativo se a Kombi tivesse uma carroceria e o animal lá se encontrasse. Não. O improvável tinha o formato de vaca e estava dentro de uma Kombi fechada. Fique atento ao que escrevi: Fechada. Lambia o motorista. Esfreguei os olhos cansados, olhei novamente e ela ainda estava lá. Uma vaca dentro de uma Kombi. 
Lembrei de todos os filmes de Luís Buñuel, de todas as obras de Salvador Dalí. O motorista me olhou sorrindo. Estava pouco se lixando para a morte de Bin Laden, para a reeleição do Obama, para a queda e morte de Kadafi. Como escreveu Drummond: “Nunca me esquecerei desse acontecimento na história de minhas retinas tão fatigadas”. 
Na capital federal, numa monótona manhã de trabalho, um sujeito carregava uma vaca no interior de uma Kombi. 
A vida é realmente bela!

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Sobre Amores e Canções



Irises - Van Gogh
Agosto tinha chegado com toda sua claridade e secura. Brasília era um imenso deserto moderno e escaldante. Os olhos do rapaz ardiam e a cabeça doía numa enxaqueca que anunciava o fim do mundo. Não era fácil controlar o desespero, exceto por um motivo: ele tinha um plano.
Quando a viu pela primeira vez foi numa galeria de arte, não dormiu. Passou toda uma noite em claro imaginando como faria para vê-la novamente. Lógico que isso era um absurdo, mas, acreditar na razoabilidade do absurdo é o gesto mais banal dentre as muitas loucuras cometidas pelos amantes. E assim se passaram mais dois ou três agostos, com sua secura e dores de cabeça, até que ele entrou, estudante, na Universidade de Brasília. E lá estava na sala de aula, quando ela entrou. Reconheceu-a imediatamente. Era apenas um pouco mais mulher e mais bonita. A partir daí o absurdo tomou conta da situação e, de forma favorável aos desejos do rapaz, ela sentava-se ao seu lado em todas as aulas, e não era por falta de opção, mas sim por vontade própria. Ainda que todas as cadeiras estivessem vazias ela se dirigia à que ficava ao seu lado. Adentrava a sala e o tempo e os objetos paravam para vê-la movimentar-se em busca da cadeira. Após sentar-se a vida retomava seu curso.
Sempre pedia para copiar as anotações que ele fazia no caderno. Estranha rotina, pois tudo o que ele escrevia eram linhas desconexas que não se prestavam ao estudo.  Ele não entendia por qual obscuro motivo ela fazia isso. Mas também não ia perguntar. Estava aí o trunfo e alicerce do plano do rapaz. Escreveu no meio da matéria morta uma declaração de amor. Desse modo, quando ela estivesse copiando o inominável, ia ler o que ele tinha escrito e lhe pouparia os embaraços.
Sua vida, nos últimos meses, era um só esperar pelas terças e quintas, quando tinha aula com ela. O resto do tempo era a solidão entre roupas coloridas, carros, mapas, placas e tudo o mais que existia. Enfim, o dia chegou. Ela pediu o caderno e começou a ler e copiar. Quando terminou, devolveu sem pronunciar uma só palavra. Durante todo o tempo prosseguiu como se nada tivesse acontecido, mas, ao final da aula, colocou a mão sobre o braço do rapaz e fez com que permanecesse sentado até que todos saíssem da sala. Quando todos saíram, ela virou-se para ele e, num sorriso disse: "Por que você esperou tanto para fazer isso?"
Ficaram juntos até de madrugada, dentro do carro, no estacionamento da UnB. Ela ouviu toda a história, desde o primeiro dia, na galeria de arte. Sorria. Parecia mentira. Viram as horas passarem. Viram o noivo dela chegar para buscá-la e sair sozinho. Viram as luzes do Campus se apagarem, e quase viram o dia nascer.
Contra toda a lógica e desejo, por uma trapaça do destino, não ficaram juntos. O que estava escrito no caderno é um segredo que, possivelmente, ela guarda até hoje. Do romance e do absurdo restou a canção.
A vida é realmente bela!
 OLHOS NEGROS

  Todo dia é o mesmo dia
Sempre as mesmas caras encardidas sob o sol
A paisagem já não tem mais atrativos
Ruas, bares que já sei de cor

Todo dia outro alguém que pode tudo
Vai provar por A + B o que é melhor
Os humanos são tão lindos e tão burros
Infelizes, incapazes de ser só

E eu me perco entre frases de efeito
Nunca sei exatamente o que dizer
Mil palavras como flores no meu peito
Prontas pra desabrochar ou morrer

Todo dia essas tardes tão vazias
Que eu jurei não mais viver
Entre roupas coloridas, carros, mapas, placas
Vou seguindo sem você

Todo dia os seus olhos negros
Tão bonitos refletidos no luar
São como as atormentadas cores de Van Gogh
Possuindo todo olhar

E eu me perco em baladas e poemas
Tanta coisa que eu queria te dizer
O poeta mais vazio do planeta
Nunca sei por onde começar a sofrer

Olhos Negros - Osias Canuto

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Tristão e Isolda


Diz a lenda que Manuel Maria Barbosa du Bocage, poeta português, certa vez recebeu de autor desconhecido um soneto. O pretenso artista solicitava a Bocage que revisasse a obra. Bocage, após leitura do referido, considerou-o tão ruim que nada anotou, e para justificar-se emitiu a famosa sentença: “a emenda sairia pior que o soneto”.
Algumas idéias são tão imbecis que estão fadadas ao fracasso logo ao nascer, e jamais deveria ser permitida a hipótese de testá-las.
O amigo estava apaixonado por uma moça chamada Isolda. Inspirado pela história de amor e morte vivida pelo cavaleiro cornualho e pela princesa irlandesa teve ele a brilhante idéia de dizer à moça, por quem andava morto de amores: “ Isolda, você já encontrou seu Tristão? ” Péssimo. Terrível. Alertei-o acerca da burrice intrínseca neste questionamento.
– Não faça isso. É muito arriscado. Se os pais lhe deram o nome Isolda é porque são sabedores e admiradores da obra. Ninguém batiza uma filha com tal alcunha sem que tenha no batismo um mistério literário. Certamente já contaram a ela a história de seu nome, e ela mesma já leu a história. Se tem em torno de vinte anos é provável que já tenha ouvido essa gracinha ao menos umas duzentas vezes.
Percebi que minha advertência tinha sido inútil. Meu amigo tinha o olhar do assassino que não pode evitar o crime, por mais fadado ao fracasso que ele seja. No dia seguinte já tinha cometido o equívoco amoroso.
– E então?
– Ela deu um sorriso amarelo e disse que eu era idiorepetício. Não sei o que significa.
– Também não sei. Talvez nem exista tal palavra e ela a criou em sua homenagem ou detrimento. Mas imagino que seja o nome dado ao sujeito que comete uma idiotice já antes cometida por outros iguais a ele. Eu avisei!
– Eu sei. Vou me matar.
– Não faça isso. Se você se matar estará tentando a salvação pela reprodução parcial do final da obra literária. A emenda sairá pior que o soneto. Ela irá desprezá-lo além túmulo.
Separamo-nos e depois de uns dias encontro novamente o amigo com a mesma cara apaixonada.
– E então?
- Estou apaixonado.
– Como se chama?
– Julieta. Estive pensando em dizer a ela....
– Não diga. Desta vez apenas se mate.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Tyson X Holmes - A História Por Trás da Luta

"Não se preocupe Campeão. Quando eu ficar grande vou pegar ele para você!" Mike Tyson

Cus Damato e Muhammad Ali conversavam ao telefone logo após Ali ser derrotado por Larry Holmes. Mike Tyson, aos 13 anos, ouvia a conversa e chorava pela derrota.

CUS: Como é que você deixa aquele vagabundo bater em você? Ele é um vagabundo, Muhammad, um vagabundo!... Tenho um jovem garoto negro aqui comigo. É um menino, mas vai ser campeão mundial dos pesos-pesados. O nome dele é Mike Tyson. Fala com ele para mim, Muhammad, por favor.

MUHAMMAD ALI: Eu estava doente. Tomei um remédio e isso me deixou fraco, e foi assim que Holmes me venceu. Vou ficar bem, vou voltar e vencer Holmes.

MIKE TYSON: Não se preocupe campeão. Quando eu ficar grande vou pegar ele para você!

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Irresponsável?

Nos dias atuais, considerando diversos fatores, o certo seria ele gritar: Morra, Filho de uma Puta!!!!! Porém, ele gritou: Irresponsável!!! 
Como assim? Irresponsável? Impossível!! Irresponsável não ofende nem beata na saída da missa das sete. Irresponsável é sentença que todo adolescente ouve diariamente dos pais, e não tá nem aí.  O sujeito tinha acabado de levar um banho de água empoçada e suja e gritava ao motorista do ônibus: Irresponsável!!?? 
Fiquei comovido, admirado e decepcionado com o protesto angelical. Eu não seria capaz de tamanha retidão e educação. Alguém, no mundo violento e desrespeitoso em que vivemos, ainda mantinha a classe. 
O próprio motorista do ônibus deve ter ficado desconsertado. Certamente estava à espreita de uma reação violenta. Mas, ao contrário do que imaginava, foi chamado de irresponsável. E, dadas as circunstâncias, irresponsável soava até como elogio. 
Durante o resto do dia fiquei lembrando aquele grito inocente e vi o quanto eu sempre fora grosseiro e mal educado em situações semelhantes, reagindo de forma totalmente destemperada. Decidi então que, se por acaso algum motorista de ônibus me der um banho de lama, reagirei de acordo com o bom exemplo que vi. Já até imaginei minha fala. E será algo mais ou menos assim: Irresponsável...filho de uma puta!!!. 
A vida é realmente bela!

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Jandira da Gandaia


Osias Canuto e Jandira
Quando apareceu em minha casa tinha uma das patinhas enrolada num emaranhado de fio, barbante e linha de pesca. Estava muito machucada e foi um trabalho enorme livrá-la do indesejado novelo sem feri-la. Mas a retirada não pode impedir a perda de um dos membros. Machucada, mal comia e mal se acalmava. 
Com o tempo, de tanto cuidar dela, tornou-se minha amiga. Hoje, é companhia certa quando estou ao violão. E por mais que eu a coloque para trás do instrumento, ela retorna para ficar bem em frente à caixa de ressonância, onde o som é mais alto. 
Posso ficar horas tocando e ela permanecerá alí, bem quietinha, ao meu lado. Ouvitne respeitosa, é incapaz de fazer qualquer comentário ou barulho durante a execução das músicas.
Gosto de chamá-la Jandira, por conta de uma canção de João Bosco e Aldir Blanc: "Jandira da gandaia, tu era da minha laia.....!  E, já percebi, ela realmente é da minha laia. Tanto que, certa vez, dormiu me ouvindo cantar Joana Francesa, de Chico Buarque. Mas se for durante o dia, prefere mesmo ouvir música instrumental.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Octávio Brás

Quando o delegado perguntou o motivo pelo qual eu matara tantos homens, não soube responder. Sinceramente, nunca parei para pensar sobre isso. Que graça pode ter a vida para alguém que nunca matou um homem? É preciso cometer um assassinato ao menos uma vez na vida. É a única maneira de ajudar os homens. Já que são covardes para matar-se, é preciso matá-los. Mas depois, pensando melhor, descobri que meu objetivo, não admitido, é aparecer na televisão, nos jornais, nas revistas. Eu me considero um sujeito digno de ser observado e admirado em minha grandeza.
Octávio Brás o meu nome, ou simplesmente OB, como as mulheres gostam de me chamar. Tenho um metro e vinte centímetros de altura. Sou anão, e daí? Foda-se. O que interessa é que sou muito poderoso. Único irmão do maior traficante de drogas do país. Maior também em altura. Tem dois metros e doze centímetros. Como é possível?! Muito simples, o pai dele me pegou para criar quando eu tinha apenas cinco anos. Pegou mesmo, porque ninguém autorizou. O velho estava passeando lá pela favela, que de vez em quando ele gostava de ver pessoalmente como andavam os negócios e, por acaso, tropeçou em mim. Ele não enxergava quase nada, e eu estava ali deitado, meio sem fazer porra nenhuma.
- Que foi isso? - perguntou.
- Sei lá! - o guarda-costas já respondeu me dando um chute na bunda. Soltei um pequeno grito. O velho voltou a indagar:
- É uma criança?
- É uma criança, um marciano, não sei. Some daqui coisa escrôta! - me deu outro chute, dessa vez na cabeça.
Deixaram-me ali e prosseguiram caminho. Mas o inesperado e o sem razão andam siameses. Não chegaram a dar nem dez passos e a laje de uma pequena loja desabou diante deles. O velho levou um susto enorme. Foi preciso que o guarda-costas o segurasse, pois estava prestes a desmaiar. Houve um pequeno tumulto no local, mas ninguém se feriu. Algumas pessoas se acercaram do traficante para saber se ele estava bem. Nada de grave, apenas um susto. O medo é senhor de conexões lógicas sem fundamento. O velho cismou que não morreu graças ao fato de eu estar ali atravessado em seu caminho, pois, não fora isso, e ele estaria passando debaixo da laje no exato momento em que ela desabou. Retrocedeu à minha procura. A sorte era agora minha inseparável. Eu continuava caído no mesmo lugar, ainda um pouco tonto pelo efeito do chute, e também porque eu já era preguiçoso desde essa época.
- De quem é isso? - perguntou o traficante, apontando para mim.
- É da Dona Augusta - as pessoas responderam quase ao mesmo tempo - Não presta para nada!! Tá sempre deitado pelo meio da rua com essa cara de vazio.
- Vou levá-lo comigo, ele me deu sorte. Avisem a essa tal de Augusta que depois eu lhe mando uns presentes.
A partir daí comecei a levar essa vida de rei que tenho hoje. Continuei não fazendo nada, só que não fazia nada deitado em sofás luxuosos, ao invés de ficar pelo chão.
O delegado voltou à carga:
- Você é acusado de ter matado cerca de quarenta pessoas. O que tem a dizer sobre isso?
Miseráveis! Como podem me acusar de ter matado apenas quarenta pessoas. Racistas e preconceituosos. Na certa não computaram os negros e os asiáticos. E os homossexuais, água em toda bica, será que foram esquecidos? E as mulheres, quem garante que algumas delas não estavam por mais um? Preconceito, preconceito. Me odeiam porque sou anão. Como se não bastasse o complexo que sinto por não conseguir mijar sozinho em banheiro público. Tenho que pedir sempre a um dos meus seguranças que me levante para eu alcançar o mictório. Isso é vergonhoso para um sujeito poderoso como eu. É um reduzir o diminuto. Fica tudo que é homem olhando aquela situação medonha. Outro dia não suportei o riso de desprezo de um deles e mandei amarrar e deitar. Mijei na cara do espertalhão.
Mas, voltando às mortes, certa vez dei fim a um grupo de vinte turistas japoneses. Matei os japas após convidá-los para um almoço na favela. Foram todos sorridentes, com suas máquinas fotográficas. Turistas japoneses estão sempre rindo, até no formato dos olhos. E todos sabemos que o riso permanente tem cara de desentendimento ou traição. Rindo do quê? Que porra é essa de andar sempre rindo? Qual motivo pra graça? Morreram todos. Gostam de feijoada. Mas, feijoada e bala de fuzil na barriga descombinam em alimento que leva aos sete palmos de terra.
Também tem os três turistas italianos que encomendei diálogo com o demo, parelha do malfeito e do malfeitor. Filhos da puta. Vieram ao Brasil para um turismo sexual e se foderam na minha pequenina mão. Plantei armadilha. Cinco meninas da favela, entre doze e quinze anos. Cercaram em Copacabana, sentaram no colo, beijinho na boca e o trazer pro morro com promessa de mais. Paguei às meninas cem reais por cada um deles. Preço bom. Mandei currar três dias e matar. Morte vistosa. Pendurados de cabeça para baixo em postes na favela e sangrando por um corte no pescoço.
- Senhor delegado, fazendo uma breve retrospectiva da minha vida posso lhe garantir que matei no mínimo oitenta elementos, que é como vocês gostam de falar. Mas sou modesto, considero o todo de minha obra apenas razoável e creio que posso melhorar, assim que sair daqui.
- Santo Deus!! - exclamou o delegado - Estou diante de um monstro.
- Chega! - gritei - Vamos deixar de falso moralismo. Este é um mundo de merda, o senhor é um delegado de merda, os mortos são uns merdas. A única coisa digna de consideração aqui sou eu. Concordei em permanecer nesta cadeia por três dias, apenas porque sou curioso. Todo mundo sabe que amanhã meu irmão entra aqui distribuindo uns poucos dólares e tudo se transforma. As evidências transformam-se em dúvidas, o moralismo se prostitui, tudo muito simples, só eu sou complexo. Agora vou me retirar que estou cansado dessa conversa idiota. Por favor, só me chame se chegar alguém da imprensa querendo uma entrevista, uma foto, talvez material para uma biografia.
Saí da sala em direção à minha cela e deixei o delegado só, reduzido à sua vida de merda. De passagem dei uma cabeçada nos testículos do carcereiro e mordi sua coxa arrancando um pedaço. Talvez, com a chegada da imprensa, ele conquistasse um instante de celebridade falando sobre a minha agressão. Creio ter percebido em seus olhos, além da dor é óbvio, um brilho de agradecimento pela possibilidade de ser famoso. De qualquer forma, muito menos famoso que eu, Octávio Brás, o anão gigante, o verdadeiro gênio da raça.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Garota Americana na Itália

A foto abaixo leva o título de “Garota Americana na Itália”. Foi feita por Ruth Orkin, considerada ainda hoje um dos grandes nomes da fotografia americana.
Enquanto passeava pelas ruas de Florença, Orkin ficou impressionada com a reação dos italianos à passagem de Ninalee Craig, uma garota americana de 23 anos que viajava só pela Europa.
Fotógrafa e Fotografada não se conheciam até aquele momento. Orkin abordou Ninalee e pediu que passasse novamente entre os homens. O resultado desse encontro inesperado é uma foto maravilhosa, que se tornou famosa em todo o mundo. No link mais abaixo você poderá ver a foto em tamanho gigante.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Baião de Lacan - Guinga - Osias Canuto

A música Baião de Lacan é uma composição do Guinga com letra de Aldir Blanc. Embora tenha se tornado conhecida na voz de Leila Pinheiro na forma de canção, ou seja, com música e letra, o que me atrai realmente é o instrumental. 


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Nosso Cantinho


Onde o grande mestre da sinuca, Walter Brasília, recebe seus amigos.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Amigo do Traficante - II


O rapaz estava diante da porta fechada do badalado Hotel onde ocorria um dos vários eventos paralelos ao Festival de Cinema de Brasília. No dia anterior, algumas pessoas tinham quebrado taças de vinho e jogado dentro da piscina. Isso fez com o que o coquetel, que era para ser aberto ao público, ficasse restrito a quem apresentasse convite. O que era para ser uma tremenda diversão estava se tornando uma enorme frustração. Foi então que o rapaz sentiu uma mão sobre seu ombro: o amigo traficante. Este, sempre agitado, foi logo perguntado: - O que tá fazendo aqui? - Vim para o coquetel que tá acontecendo na piscina do hotel, mas tá fechado ao público. E você? - Vim só entregar uma encomenda. Precisa de convite pra entrar aí? - Precisa. 
O traficante dirigiu-se até a recepção e pediu para falar com um dos apartamentos. Logo, veio um homem ao seu encontro. Entraram juntos no banheiro e fizeram o escambo droga / dinheiro. Na saída, o traficante conversa com o homem enquanto aponta para o rapaz. O homem faz um sinal de positivo com a cabeça e vai diretamente ao local onde estava ocorrendo o coquetel. Passado um tempo, retorna com duas credenciais na mão e fala: - Divirtam-se.  
Em torno da piscina do hotel, bebida e comida à vontade. O rapaz vê o homem da credencial aproximar-se de uma mulher muito bonita e colocar algo em sua bolsa. O rapaz reconhece a atriz, em cartaz no Festival e na novela de horário nobre: - Ela também cheira? - Claro. Essa gente toda cheira. É por isso que o tráfico nunca vai acabar. Atores, diretores, jornalistas, todo mundo dá sua fungada. 
Os dois ficaram um tempo conversando e observando o vai e vem das beldades e celebridades. Passado um tempo o rapaz convida o amigo para verificarem onde é o restaurante. O traficante responde: - Vai lá. Vou ficar por aqui e dar umas voltas. Tô gostando dessa coisa toda. Depois se despedem e o rapaz se dirige até o elevador. Assim que põe o pé para dentro, alguém entra logo atrás. Era a atriz. Linda e simpática. Após um pequeno instante de silêncio constrangedor ela fala: - Tudo bem? - Tudo. - Você estava no coquetel do festival? - Tava. Agora tô subindo para o restaurante, mas não sei onde é, nem se vou conseguir entrar. Ela sorri e diz: - Eu sei. Quer que eu te leve lá? - Quero. - Mas a gente pode passar no meu quarto antes? Tenho que pegar uma coisa. - Claro. - Como é seu nome? - Fulano. O seu, é lógico, você não precisa dizer. E sorri encabulado. 
Chegando à porta do quarto a moça vai logo abrindo, e encontra a amiga ainda se trocando. Entra sem cerimônia e fala para a amiga ficar tranqüila. - Esse é fulano. Conheci no elevador. Ele também vai para o jantar. Você tem convite? - Não. Vou tentar entrar. - Fique tranqüilo. Nós te colocamos para dentro. 
O rapaz começa a acreditar que é um sujeito de sorte. Há pouco não sabia nem se chegaria ao coquetel na piscina e, agora, lá estava ele no quarto de uma bela e famosa atriz e, ainda por cima, ela estava com uma amiga não menos bela e famosa. A atriz do elevador abre uma garrafa de whisky e os três começam a beber. Sem gelo. Conversam sobre o festival e sobre os filmes que assistiram e os que não assistiram. Horas depois, e com a garrafa já vazia, a atriz pega na bolsa o pacote que o traficante tinha negociado no banheiro. Olha para o rapaz e pergunta: - Quer? Surpreso, ele responde: - Eu? Tenho cara? - Não sei. É preciso ter cara? Eu tenho? Sob o olhar atônito do rapaz, ela tira a blusa da amiga e ajeita uma trilha do pó branco entre seus seios. Depois, cheira metade da carreira. Olha para o rapaz e, com um sorriso, desafia: - E agora? Você quer? 
Na televisão, no mesmo instante, a novela mostra a bela e jovem atriz no papel de uma inocente menina rica.  
Quando os três saíram do quarto para o jantar, o relógio já marcava onze horas. Na mesa, entre as celebridades, um jovem político, famoso pelas baladas e pela proximidade com o pó branco. A atriz sorri da cara de assustado do rapaz. De longe, ele vê o amigo traficante entrando no restaurante ao lado de um diretor de cinema que acabara de conhecer.  O rapaz olha novamente para a atriz, olha para o amigo, e lembra-se da frase deste último: “É tudo hipocrisia. Se você perguntar, todo mundo quer acabar com o tráfico, mas, a droga mesmo, essa, ninguém quer que acabe. Essa gente não saberia viver sem ela". A festa estava só começando. 
A vida é realmente bela!

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Meu Diálogo com Affonso Romano de Sant'Anna


"Sois rosa, senhora. E posto que o tempo se esvai, se esvai.
  E uma rosa não dura muitos sóis.
  Deixai que eu colha em vosso corpo a rosa que sois vós."

Alguém saberia dizer de quem são esses versos extremamente canalhas? Se ninguém souber, e puder comprovar a autoria.... são meus.
Por muitos anos recitei esses versos para inúmeras mulheres. Quando eu estava alcoolizado, ou por pura canalhice, afirmava que eram meus. Quando estava sóbrio, confessava: Affonso Romano de Sant'Anna.
Num belo dia saudosista resolvi procurar o poema inteiro na internet. Pesquisei de todas as formas e não encontrei nada. Decidi, então, que a melhor coisa seria escrever ao poeta Affonso Romano, autor dos versos, e pedir que me enviasse a obra completa. Escrevi e contei como eu tinha usado seu poema para dezenas de conquistas, e finalizei pedindo que me encaminhasse o poema inteiro. Mas a vida adora pregar peças, e qual não foi a minha surpresa ao receber a resposta do grande poeta: 

"Osias, meu caro, essa ideia, quase esses versos, foram usados por vários poetas renascentistas e barrocos. Deve haver na internet um soneto de Ronsard sobre isto, Gongora e G. de Mattos versam isto. Era um tema comum sob o nome de "carpe diem". Dê uma olhada no Google, hoje indispensável.
PS: Hoje as mulheres é que dizem isto pra gente."

Minha conversa com o poeta Affonso Romano ainda prosseguiria divertidamente acerca do assunto, mas, o essencial era: os versos não eram dele e ele desconhecia a autoria. Agora eu tinha um problema. Não pertenciam ao famoso poeta e não estavam na internet. Seriam os versos fruto da minha insana imaginação? Convenhamos que, à época em que eu fazia uso desses versos, também fazia uso de muitas outras coisas que costumavam tornar minha ideias bem confusas. E não era raro eu acordar com poemas inteiros em minha cabeça. Coisas que tinha sonhado. Mas o importante é que um sem número de mulheres consideraram o apelo dos "meus" versos e da minha canalhice e, em função disso,  pudemos aproveitar melhor o tempo. Não obstante essa história toda, prossegue o enigma acerca do autor. São seus? Então prove!

Sois rosa, senhora.......

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Quadrilha - Chico Buarque e Francis Hime


Esses dias eu estava em casa tocando a música Quadrilha, de Chico Buarque e Francis Hime, e me atentei para o fato de que muitos dos meus amigos simplesmente desconhecem essa canção. Normal. Quadrilha é uma canção composta para o filme “A Noiva da Cidade”. Como não existe registro na discografia regular de Chico Buarque, muita gente desconhece. Decidi procurar o vídeo. Imperdível. Que saudade dos arranjos do Francis Hime nos discos do Chico. Assisti repetidas vezes. Para quem não conhece, segue aí abaixo. 


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Morreu Mário, Que Te Pegou Atrás do Armário


Informo aqui a morte de Mário. É isso mesmo que você leu. Mário, que pegou uma legião de inocentes atrás do armário, foi obrigado à aposentadoria.
O inimaginável se deu. Mário, o tarado incorrigível, não se cansou do centenário móvel ou dos prazeres desfrutados atrás do mesmo, apenas percebeu, tardiamente, a impossibilidade de prosseguir com sua arte.
O fato é que os antigos armários, onde Mario trabalhava com insaciável e incansável competência, foram devorados por cupins celibatários ou por pudico mofo. Os armários de hoje são respeitosamente embutidos e já não permitem mais o trabalho de um profissional da sacanagem como Mário. Não existe mais o “atrás do armário”.
Os armários modernos, provavelmente insuflados por ratazanas moralistas, grudaram-se às paredes em nome da retidão e do recato. As próximas gerações terão que arranjar outro colaborador. Mário, por ironia, foi pego justamente quando saía de seu esconderijo. Aquele mesmo esconderijo para onde, outrora, em nossa infância e adolescência, endereçamos tantos amigos inocentes e desavisados.
Milhões de seguidores por todo o mundo choram neste momento o sumiço de Mário. Alguns por não poderem mais mandar vítimas ao carrasco, outros, menos confessos, por guardarem boas recordações de quando foram enviados para trás do erótico guarda-roupa.
Adeus, Mário! Mário? Mas que Mário?


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Bombay Masala - NY


Solicito ao garçom que me traga um Chicken Vindaloo. Ele me olha desconfiado e com um sorriso malicioso no rosto. Sabe que é o tempero mais forte da casa. Deve pensar: - "Esse brasileiro não perde por esperar." Quando chega a comida ele permanece me olhando com o mesmo sorriso. Aos poucos vai se decepcionando com minha cara de satisfação. Não sou marinheiro de primeira viagem nem vim ao restaurante por um acaso.
Situado na 49 Street com a 7ª Avenida, o Bombay Masala é o restaurante indiano mais antigo dos Estados Unidos. Para ser mais preciso, funciona neste local desde 1917. Nada de luxo, movimento ou ostentação. É um ambiente calmo, bastante frequentado por indianos e ingleses. Creio que isso já é motivo suficiente para confiar na originalidade dos pratos. Descobri por acaso e, desde então, sempre que vou a Nova York, vou ao Bombay Masala. Se eu ficar um mês na cidade, sou capaz de ir quinze, vinte vezes ao restaurante, ou seja, boa parte dos dias.
Se você estiver em New York e decidir ir ao Bombay Masala, não se assuste com algum papel colado no vidro. A vigilância sanitária americana tem o estranho hábito de notificar o restaurante. Tem sempre um aviso de que algo não está dentro das normas. Acredito que é mais um problema dos fiscais americanos que dos indianos. Se o restaurante é um original da Índia, possivelmente aquilo que eles consideram critérios de limpeza seja um pouco diferente do que os americanos esperam encontrar. O que posso dizer é que fui lá dezenas de vezes e jamais passei mal.
Mas creio que esse é um texto escrito para quem, como eu, gosta de comida indiana, de pimenta e de temperos fortes. Se você tem medo, não se arrisque. De minha parte, no quesito limpeza de restaurantes, procuro me pautar pelo ditado "Quem procura acha!". Por isso, não procuro nunca. E assim, eu e inúmeros indianos e ingleses, que sempre estão por lá, vamos nos satisfazendo em maravilhosos almoços e jantares no Bombay Masala.


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Pássaro da Desilusão


Ivanildo Garrincha e Osias Canuto

Ivaniiildo!!! - gritou o menino enquanto amarrava o calango caçador de insetos com o sol. - Não vamos nadar que o rio tá cansado de hoje. Chegou ontem de longe e vai para amanhã mais longe ainda!
Ivanildo não ouvia direito porque tinha um ouvido moco de tanta sujeira. As abelhas faziam ciência em seu ouvido.
O menino correu atrás do amigo e puxou-o pelo braço antes que mergulhasse. Tinha pressa. Foram vender insetos na feira da cidade. Tinha de todo o tipo. Os melhores eles não vendiam, comiam para ficarem doutores na desutilidade das coisas. 
Tinha gente que comprava inseto para fazer remédio, para rezar ou bruxar, para guardar na caixinha e para fazer barulho na casa. Com o dinheiro dos insetos, Ivanildo e o menino compravam bolas de gude para afrontar os outros garotos, e também compravam camundongos e minhocas para alimentar Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas eles não sabiam o que era isso. Dona Guiomar Coruja era assim chamada porque após comer uma dessas aves, parou de falar e começou a piar.
Ivanildo tinha dois dedos com unha grande para cavar a terra e procurar bicho escondido. O menino tinha três unhas grandes para tocar violão e fazer a noite dormir mais rápido ou o dia nascer mais cedo. Também fazia a tarde cair mais triste ou mais alegre, dependendo do de dentro dele mesmo.
Um dia o menino tocou o violão e Dona Guiomar Coruja piou uma música muito bonita e Ivanildo batucou o bongô de pele de calango e couro de sapo. Ficou tão lindo que a lua ficou parada dois dias e o sol não veio e a cidade ficou desesperada e mandaram prender os três no hospício. Ficaram presos uma semana cantando a mesma música e, dessa vez, foi o sol que não desapareceu. Tiveram que soltá-los para que a cidade pudesse ver a noite novamente, e todos pudessem dormir, namorar, contar estrelas e fazer todas as cosias que só se faz melhor quando tem escuridão.
O menino ficava tanto tempo tocando violão que nasceram uns pássaros azuis dentro do pensamento dele, mas só eram vistos por Ivanildo e dona Guiomar Coruja. Ele tinha muitas idéias boas, mas os pássaros azuis cagavam nas idéias dele e estragavam todas elas. De tantas idéias estragadas teve a idéia de fazer uma música para transformar qualquer coisa em outra coisa diferente da coisa originária: gente em bicho, tristeza em gente, idéia em bicho, nada em gente..... Deu certo. Fizeram muitas transformações e começaram a ganhar bastante dinheiro. Mas achavam o dinheiro de muita desutilidade e transformavam tudo em ratazanas, bolas de gude, estilingue, violão e outras coisas melhores.
Certo dia, o menino e Ivanildo estavam caçando o pássaro da desilusão quando viram um enorme castelo surgido de uma hora para outra no meio da floresta. Entraram e encontraram um rei jovem e triste. O rei lhes explicou que o pássaro que eles estavam caçando era muito perigoso. Contou que a rainha saiu para andar na floresta e viu um pássaro de grande beleza que parecia triste e calado. Quando ela se aproximou o pássaro começou a cantar e ela ficou enfeitiçada pelo canto. O canto era muito bonito e muito triste. Neste momento a rainha foi tomada de enorme desilusão e deixou de acreditar na vida e no amor que sentia pelo rei. Ivanildo e o menino explicaram que, neste caso, a melhor coisa era chamar Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas eles não sabiam o que era isso. O rei, então, mandou que um de seus súditos fosse à cidade buscar Dona Guiomar Coruja. Quando ela chegou, começou a piar e Ivanildo traduziu para o rei o que ela estava piando. Explicou que a única maneira de resolver o feitiço era o menino capturar o pássaro da desilusão em sua cabeça e cantar uma música para a rainha triste. O rei pediu que eles voltassem até a floresta em busca do pássaro da desilusão. Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas o menino e Ivanildo não sabiam o que era isso, impôs uma condição: para que ficasse claro de que se tratava de um caso de amor verdadeiro, o rei teria que abrir mão de todo seu reino, passando sua coroa para o homem mais humilde do local. O rei ficou surpreso e assustado com a ciência da proposta, mas achou que havia nela enorme coerência, e aceitou. Acordo firmado, os três partiram para a floresta.
Caminharam quase um dia inteiro pela mata até encontrar o pássaro da desilusão. Ivanildo, armado de estilingue, acertou o bicho antes que ele começasse a cantar. Depois o segurou ferido e o menino tocou a música de transformar qualquer coisa numa outra coisa diferente da primeira coisa, e transformou o pássaro da desilusão num pássaro azul igual aos de dentro dele mesmo. Quando retornaram ao castelo já era noite e o rei ainda os esperava acordado e ansioso. Pediu que trouxessem a rainha triste a fim de que ouvisse o menino cantar. Dona Guiomar Coruja, Ivanildo e o menino ficaram muito impressionados com a desbeleza da rainha. Mas sabiam que o amor tinha dessas coisas. Se o rei gostava dela, para eles era o bastante. Não foi sem dificuldades que o rei a convenceu a ouvir a música. Sem muita delonga o menino pegou o violão e tocou uma canção hemorrágica vinda do secreto das veias, arrancada de um rio de lama, de sangue e de vida. Os pássaros azuis do de dentro dele mesmo ficaram agitados a ponto de todos poderem vê-los. Quando terminou, depois de um minuto de silêncio e expectativa, a rainha correu direto para os braços do rei. Os dois partiram sem muita explicação, deixando o castelo, o reino e tudo o mais sem importância para quem quisesse.
O menino estava muito cansado. Dona Guiomar Coruja e Ivanildo ajudaram-no a levantar-se e foram os três de volta para casa. Os pássaros azuis do de dentro dele mesmo cagaram todo o castelo e na cabeça de todas as pessoas. 
Ivanildo abriu os olhos. Percebeu que toda essa narrativa foi só uma coisa estranha que aconteceu na cabeça dele enquanto dormia durante o descanso da caçada. Esqueceu momentaneamente o pássaro da desilusão e chamou o menino para irem jogar bola de gude. Porque menino muda de uma coisa para outra e de outra para uma e lembra e esquece muito rápido.
- Ivaniiildo!!! gritou o menino enquanto amarrava o calango caçador de insetos com o sol. - Vamos embora que tem muito movimento na cidade!
Ivanildo não ouvia direito porque tinha um ouvido moco de tanta sujeira. As abelhas faziam ciência em seu ouvido. O menino correu atrás do amigo e puxou-o pelo braço antes que ele atirasse com o estilingue no pássaro da desilusão. Tinha pressa. Foram ver o circo que estava chegando à cidade. Mas isso é outra história....
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Lanchinho

Num tempo há muito perdido, os amigos decidiram que a música que faziam deveria chegar aos ouvidos de seus iguais. Totalmente de acordo com a alma vadia dos três rapazes, o lugar onde tocariam teria que acomodar, com o necessário respeito, todo tipo de vagabundo e meliante. Lanchinho, esse era o bar. Um punhado de bêbados, mendigos, ovos de codorna, coxinhas, torresmo, moscas, ratos e baratas. O paraíso não se constrói com luxo, mas com a simplicidade do absurdo. E a qualidade do som não tardou a atrair o público. Gente rica, gente pobre, gente estranha, gente louca e gente gente. Regadas a muita cachaça, Chico Buarque, Aldir Blanc, João Bosco e tantos outros, as noites de quinta no Lanchinho alcançaram o paraíso. Mas era muita energia descontrolada para um lugar tão humilde, e o pequeno bar não suportou tamanha loucura. Obrigado Newton Guimarães, Garrincha, Menino da Papuda, Igor, Aroeira e todos os demais passageiros do absurdo. O Lanchinho é parte inesquecível das minhas memórias do subterrâneo.



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A Lógica Cruel dos Segredos

As Comadres - Diego Rivera
O segredo é o estágio embrionário da fofoca. É o dia anterior ao escândalo tornado público.
Posso te contar um segredo?
– Não. 
– Quê?
– Não. Não pode. Não gosto quando você me conta segredos porque não posso contar a ninguém.
– E como você acha que deveria ser? Se é um segredo, não deve ser contado.
– Se é assim, por que você está me contando? Então não conte, e aí de fato será um segredo. Veja: ninguém conta segredo sobre coisas sem importância. Um bom segredo versa sempre sobre coisas interessantes, dessas que deveriam estar na capa de uma revista de fofocas. E você quer que eu fique calada? Que graça tem saber uma coisa escandalosa, ou muito grave, e manter silêncio? Não aguento. É muito chato isso. No mais, se você mesmo não consegue manter silêncio, por que me pede que mantenha?
– Você tem razão. Então vamos fazer assim: eu te conto e você só conta para uma pessoa, certo? 
– Certo. 
– Então, vou contar. Mas lembre-se: é segredo!
– Conta logo!!!

A vida é realmente bela!

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Chico Buarque dos Desencontros

- Alô? - “A sua lembrança me dói tanto, eu canto pra ver se espanto esse mal.....” - Quem tá falando? - “Mas só sei dizer um verso banal. Fala em você, canta você, é sempre igual...”
Houve uma época em que os telefones sabiam guardar segredos. Não havia bina ou celulares, e uma mulher podia receber ligações apaixonadas de um desconhecido. Hoje, os telefones odeiam os amores secretos. São insuportavelmente indiscretos e mal amados. Naquela época tínhamos a cumplicidade da telefonia. Éramos quatro ou cinco amigos. Fazíamos dezenas de ligações, e em todas elas eu tocava sempre a mesma música. Jamais alguma das mulheres desligou. Todas ouviam até o fim a canção Desencontro, de Chico Buarque.
Cada um de nós tinha direito a escolher uma mulher para quem ligar. Minha função era tocar e cantar. Os outros escolhiam as mulheres, ligavam e ficavam na torcida para que elas não desligassem antes do fim da canção. A curiosidade feminina não lhes permitia desligar. A maior parte delas ouvia no mais absoluto silêncio. Algumas poucas não conseguiam ouvir até o fim sem perguntar várias vezes quem era. - Alô? - “Sobrou desse nosso desencontro um conto de amor sem ponto final...” - Quem tá falando? - “Retrato sem cor jogado aos meus pés...” - Faaala!! - “E saudades fúteis, saudades frágeis, meros papéis...” De nada adiantava perguntar. Não obtinham nada além da canção. No final apenas desligávamos. Era verdadeiramente lindo. A loucura era tanta que, quando não tínhamos mulheres específicas para quem ligar, simplesmente abríamos a lista telefônica e escolhíamos um nome feminino qualquer. Neste caso, inclusive, eu podia estar cantando para alguma senhora com idade para ser minha avó, ou mesmo para um travesti: - Alô? - “Não sei se você ainda é a mesma...” - Não, não, eu mudei bastante, você não me reconheceria mais. Ou então, para algum pai descontrolado de ciúmes: - Alô? - “Ou se cortou os cabelos, rasgou o que é meu...” - Vou te rasgar é de faca, seu vagabundo! Absurdos a parte, assim corriam nossas noites, entre desencontros, whisky, telefonemas e o violão.
Fico agora imaginando o que se passou na cabeça de cada uma das mulheres para quem ligamos. Considerando que todas ouviram até o fim, suponho que tenham gostado. Sendo assim, quantas devem ter perdido a noite imaginando quem seria o apaixonado? Quantas se viram subitamente recuperadas de alguma desilusão amorosa? E quantas não devem ter caído doente com febre e tremores? Não sei a quantas delas fizemos bem ou a quantas fizemos mal. Não sei se Chico Buarque e seu Desencontro funcionariam nos tempos atuais. Não sei de nada. Sei apenas que cantei milhões de vezes Desencontro sem ter a mínima idéia de quem estava do outro lado da linha. E repito: nenhuma jamais desligou. - Quem tá falando? Por favor, quem tá falando? - “ Se ainda tem saudades e sofre como eu, ou tudo já passou, já tem um novo amor, já me esqueceu.”
A vida é realmente bela!

                                           


                                           

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Canalha


Canalha!!! E não era. O que aconteceu de fato foi que a vizinha, moça de caráter a um passo da honestidade, solicitou ajuda no reparo da pia do banheiro. Ele, um banana, acudiu. Acudiu e foi pego pelo marido, sem camisa, no banheiro todo molhado. Afeito às armas de fogo e ao escândalo, o marido cuidou de divulgar a versão na qual teria enxotado o banana sob ameaça de morte.
Canalha!!! O insulto soprou-lhe o rosto como o mais desejado dos afagos. Na rua os amigos o cumprimentavam com inveja. Sorria um sorriso de canto de boca, típico dos canalhas. Chegou a pensar em andar com um palito entre os dentes, direito que só os canalhas possuem. Ele estava exultante. Pela primeira vez, em quase vinte anos de casamento, era chamado de canalha. Sorria numa felicidade quase hemorrágica. A vida toda tinha sido visto e tratado como um banana e, agora, enfim, era reconhecido como um canalha.
Ninguém sabia, mas ele estava adorando a alcunha e desde muito antes se imaginara, em segredo, canalha. Chegou mesmo a comprar um par de sapatos de couro com estampa de crocodilo. Estampa de crocodilo. Como todos sabemos, um sujeito que usa sapatos de couro com estampa de crocodilo é canalha. Descobriu também que o desvelar de sua canalhice passara a lhe render crédito com as mulheres. Elas adoravam o canalha. Passou a ser cobiçado nas rodas de bares, nas festas e onde mais pudesse desfiar suas aventuras, que as contava, fantasiava e inventava com toda força de sua imaginação. Assim, transmutou-se de corpo e alma no novo personagem. Com isso, salvou o casamento e ainda conseguiu a admiração pública.
Deu-se, porém, que o marido da vizinha quase honesta ficou sabendo de indivíduo que freqüentava seu lar enquanto ele estava fora. Óbvio, todas as línguas, suspeitas e certezas deram conta que o dito cujo era o banana, recém alçado a canalha. Não teve dúvidas o marido ultrajado, matou o canalha; neste caso, o banana. Algo saíra errado e denunciara o segredo do morto. Faltou-lhe uma das principais características do canalha: Canalhas não são afeitos a demonstrações de coragem. Tem forte instinto de preservação e imaginam sempre que devem sobreviver para prosseguir com a canalhice. Assim, ele não poderia ter morrido. Se canalha fosse, teria derramado lágrimas de arrependimento com soluços de covardia, teria se ajoelhado e pedido desculpas ao marido, ou mesmo se escondido no banheiro. Um verdadeiro canalha sempre se esconde no banheiro e deixa que seu resfolegar apavorado saia por baixo da porta e acalme os ímpetos do matador. Não fez nada disso. Foi um banana. Ficou olhando com cara de banana para o marido, esperando o tiro.
Desmascarado, ninguém foi ao enterro. O falso canalha era agora odiado por destruir as fantasias que ele mesmo colocou na cabeça de amigos e mulheres. Nem a viúva, que desta vez se sentiu traída, foi dar-lhe o último adeus. Afinal, ela era a mulher de um canalha e, agora, era apenas a viúva de um banana. Foi enterrado sob a chuva monótona de uma tarde sem graça. Um dos coveiros comentou antes de lacrar o caixão: “Que patifaria! Sapatos de couro com estampa de crocodilo! Canalha!!!”
A vida é realmente bela!

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Destruição Crepuscular


Velho Crepuscular - Salvador Dalí


Na tarde empoeirada
vago antialérgico pela cidade asfaltada.

Nada se move.
Nenhum sinal de embrutecimento.
Nenhum espasmo de poesia.

Só a tua lembrança,
já a caminho do esquecimento,
me doe nessa analgesia.

Derradeira gota de ilusão
nas veias mornas do fim do dia.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Trapacista Degolante



Durante boa parte de minha vida me diverti cortando cabeças. Cortava com uma precisão milimétrica. Desenvolvi técnicas sutis que não permitiam qualquer reação da vítima. Chegava por vezes a eliminá-las por inteiro da paisagem, mas elas só se davam conta que estavam sem cabeça, ou sem corpo, tempos depois. Certamente me odiavam por isso. Era linda a minha arte.
As máquinas digitais vieram para destruir meu trabalho. Tornaram as recordações de viagem muito chatas. Era bem mais divertido quando o indivíduo, ao revelar a foto, percebia que tinha sido degolado ou, simplesmente, não existia. O sucesso da foto podia ser medido pelo ódio do fotografado ao ver a revelação.
Chega ao trabalho todo satisfeito com o pacote de fotografias nas mãos, louco para mostrar a todos sua superioridade viajante e eis que, bem diante do Coliseu, do Pathernon, do Metropolitan ou do Opera House, nada. Nada. O colega, com toda maldade, mesmo reconhecendo aquela camisa laranja com listras verdes, sentencia:
- Esse não é você, é?
– Sou eu sim. Olha a camisa!
– Não me lembro dela.
- Então olhe o sapato!
– Ei!!! Não ouse tirar este sapato!! Você veio com ele a semana toda.
– Não sabia que você reparava no meu sapato. Isso é coisa de mulherzinha.
– O que você está insinuando?
– Não estou insinuando nada. Só disse que é coisa de mulherzinha ficar reparando na roupa dos outros.
E lá vinha eu caminhando calmamente quando vi a máquina fotográfica nas mãos de um deles, e outros cinco ou seis prontos para a foto histórica diante da enorme placa de cimento da Advocacia-Geral da União. Lembrei-me de todas as minhas aventuras e odiei as máquinas digitais, mas ao me aproximar percebi que havia uma chance de tratar-se de máquina analógica.
O sujeito me pediu para fotografá-los. Não queria ficar de fora do registro histórico. Recém aprovados no concurso de Advogado da União queriam uma imagem diante da placa. Quando peguei a máquina em minhas mãos, não acreditei: era analógica. O passado correu filme veloz em minha mente. Ouvi com bastante atenção as recomendações:
- Você enquadra de forma que apareçamos todos nós e também o nome na placa.
– Claro. Fique tranquilo. Sou um profissional!
Posicionaram-se fingindo que eram bonitos, ricos e inteligentes. CLIC!!!
Entreguei-lhe o registro ainda secreto da placa e de algumas pernas. Não me agradeceu. Nem me importei.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Chico Buarque - Flor da Idade

 "A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia pra ver Maria. A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia......" 
Abaixo, o video de 1976 traz Chico Buarque cantando "Flor da Idade" sob a regência de Francis Hime. E, ao violão, alguém que me parece o grande mestre Heraldo do Monte. Além dele, no minuto 1:09, para meu espanto creio ter visto ao violino o escritor português José Saramago. Mas talvez não seja ele. Talvez eu tenha bebido.
"Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor..."


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

La Petite Périgourdine - Paris


Pavê de Boeuf, Aligot
O La Petite Périgourdine é um pequeno restaurante situado na Rue des Ecoles, 39, no Quartier Latin, próximo à Sorbonne. Está entre os 100 melhores de Paris, o que não é pouco, considerando a fama gastronômica da cidade. Mas nada de badalação, ostentação ou coisa parecida.
O prato mais famoso da casa é o “Pavê de Boeuf, Aligot”, um filé com molho de gorgonzola acompanhado do famoso purê de batata e queijo tomme. Abaixo, segue o video do momento em que o purê é servido.
Se você vai a Paris creio que vale à pena uma visita ao restaurante. O  ambiente é muito simples e agradável, totalmente de acordo com a presença dos estudantes, turistas e moradores dos arredores, que chegam ao local de bicicleta ou a pé.
Para quem quer se arriscar na cozinha, vai aí a receita do purê: - 500 gramas de batata – 250 gramas de queijo tomme fresco - 20ml de creme de leite fresco – 15 gramas de alho picado, sal e pimenta. Mexer a mistura numa temperatura de 80º C até encontrar o ponto de fio.




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sinuca com Walter Silva e Paulinho da Viola

Paulinho da Viola, Osias Canuto e Walter Brasília
Paulinho faz jus ao apelido de “Príncipe da MPB”. É um sujeito gentil e tranquilo, que te trata sempre com muita educação  e  simpatia. Aliás, um temperamento muito parecido com o do mestre Walter. Talvez por isso o tenha escolhido para padrinho de uma de suas filhas.
Além do incontestável talento musical, Paulinho da Viola é um apaixonado pela sinuca, e joga com clara competência. Passar uma noite entre ele e seu compadre Walter Silva, jogando sinuca e ouvindo música, é algo que não se descreve. Sendo assim, não vou correr o risco de falar demais e diminuir o que aconteceu comigo.

Osias Canuto e Paulinho da Viola 



terça-feira, 12 de setembro de 2017

Tratamento da Enxaqueca


Osias Canuto
Impulsionado por terceiros lá fui eu à consulta com o médico que me livraria das dores de cabeça que sofro desde que me entendo por gente. A foto ao lado, aos 4 anos de idade,  não me deixa mentir.
– Evite macarrão, pão, salame, pizza, chocolate, vinho, amendoim, cerveja, sol, luz em excesso, perfumes fortes, barulho, comer demais, comer de menos. Evite aborrecimentos, emoções fortes.... e por aí vai. 
Olhei para trás procurando uma outra pessoa dentro do consultório a quem o médico pudesse estar passando aquelas recomendações todas. Talvez um defunto ou uma estátua. Não havia ninguém. Era comigo mesmo que ele estava falando. Um pouco preocupado com a quantidade de restrições, resolvi esclarecer uma dúvida: 
– Mas essas prescrições são para agora, enquanto estou vivo? Ou devo segui-las somente depois de morto?
- Sei que é difícil, mas garanto que isso vai livrá-lo das dores. 
- Entendo. 
Deixei o consultório com uma série de recomendações e um punhado de pedidos de exames. No elevador o ascensorista sorri: Bom dia! Não respondi. Fiquei olhando para ele, em silêncio, tentando lembrar se o médico havia dito algo sobre os riscos de responder a um "bom dia". Saí do elevador sem conseguir me lembrar e, pior, sem responder. Lembrei-me das minhas dores de cabeça e de todos os belos momentos que tínhamos vivido juntos. Ao ver a primeira lixeira depositei todos os pedidos de exames e também todas as prescrições restritivas. Ainda não estava pronto para uma separação tão brusca e, principalmente, para tantos e tão insuportáveis sacrifícios. 
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Flamengo até Morrer! Será?


Charles Darwin empregou o termo "Sobrevivência do Mais Apto" como sinônimo de "Seleção Natural". O organismo que se adapta mais facilmente ao meio aumenta suas chances de sobrevivência num mundo hostil e adverso.
E lá ia a moça caminhando vestida no manto sagrado do Flamengo. Era linda. O verdadeiro canalha deve pensar rápido. Tirei a camisa na qual estava equivocadamente trajado e parei o carro. Ofereci carona e fomos comemorar o título de campeão brasileiro. Éramos uma emoção só. Um só coração rubro-negro. Cantamos o hino, pulamos, gritamos como ensandecidos na geral do Maracanã:  Meeenngoooo!!!
Em pouco tempo ela já se considerava minha namorada, noiva, esposa e já estávamos fazendo planos. Nos casaríamos numa igreja enfeitada com bandeiras do nosso time, passaríamos a lua de mel no Rio de Janeiro, iríamos juntos ao estádio torcer pelo nosso time. O terno e o vestido de noiva fariam lembrar as cores do Mengão, um espetáculo só possível quando paixões tão intensas se misturam!!! Incrível como a emoção do futebol decide destinos. 
Assim prosseguimos sonhando e, principalmente, comemorando. Ela me apresentou outras tantas lindas flamenguistas e a todas beijei e abracei com rubros sentimentos e negras intenções, afinal, o nosso Flamengo era campeão brasileiro. Mas o local estava demasiado cheio, e acabamos nos perdendo um do outro. Procurei-a por alguns instantes e, como não encontrei, meu amor por ela foi declinando a cada passo e renascendo em outras faces. Eram tantas rubro-negras, e estavam todas tão felizes e acessíveis. Terminei a noite nos braços de outra linda torcedora cujo nome também não me lembro. 
Quando entrou no meu carro, ao ver a camisa que eu tinha tirado no começo da história perguntou: - O que é isso? Respondi com toda naturalidade possível: – É minha camisa do Botafogo! – Mas você não estava lá cantando o hino do flamengo? – Estava. Mas não vamos nos apegar aos detalhes. – Então, você é Botafoguense? – Sim, Botafoguense. Mas não sou cego nem burro! 
A vida é realmente bela!