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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Realidade X Imaginação

Meu amigo Luciano é um jogador de sinuca fantástico, porém tímido. Jamais consegui ver suas grandes jogadas. As mesmas só ocorrem quando resolvo ir ao banheiro. Vou ao banheiro com uma dianteira de 30 pontos e a bola 4 como “bola da vez”. Quando retorno, a bola 6 é a “bola da vez” e ele está 7 pontos a minha frente. Incrível. Luciano relata com absoluta precisão todas as maravilhosas jogadas que executou na minha ausência, e que possibilitaram a sua virada espetacular no placar. Fico encantado ouvindo a narrativa das geniais tacadas que eu nunca consigo ver, tudo em virtude da minha humana necessidade de ir ao banheiro. 
Se jogarmos sinuca durante uma noite toda e eu não for ao banheiro, ele não ganha uma. Mas, basta eu me demorar alguns minutos no lavatório, e o milagre acontece. Estranho é que o jogo que consigo ver nele não tem qualquer vestígio do jogo narrado por ele, ou seja, Luciano não se parece nada com Luciano. Os princípios lógicos de Aristóteles, de Identidade e de Não-Contradição, não valem no caso dele. Quando estou presente e vejo sua dificuldade em matar bolas que simplesmente estão implorando para cair, não consigo imaginar o exímio jogador que faz tacada com uso de efeitos, tabelas etc. E foi a partir daí que decidi colocar uma câmera escondida em minha casa, para poder filmar as tais jogadas no momento em que eu fosse ao banheiro.
Convidei-o para uma partida e executei meu truque. Depois de ganhar duas partidas, e estar ganhando mais uma, fui ao banheiro. O milagre se deu: retornei e já estava perdendo. Ele me narrou todo o ocorrido. Como sempre, fantástico. Mas desta vez, sem que ele soubesse, eu tinha tudo filmado, e poderia apreciar o talento do tímido amigo. Assim que nos despedimos corri para a filmadora como um doente aos braços de Jesus. Porém, uma das magias da narrativa é, na maioria das vezes, sua infinita superioridade sobre a realidade. Então, assistindo ao filme comecei a me questionar sobre a grandeza do imaginário mediante certas realidades. Lembrei-me de quando assisti ao filme Germinal, feito sobre a obra do escritor francês Émile Zola. Como tinha lido o livro centenas de vezes e já tinha criado todos os personagens em minha mente, fiquei arrasado com a versão do diretor Claude Berri. A minha versão era muito melhor que a dele. E foi exatamente o que aconteceu quando assisti a tal filmagem da sinuca. Luciano, o grande jogador que habitava meu imaginário, não merecia aquelas cenas terríveis.  Cenas chocantes, onde um sujeito corria desajeitado em volta da mesa colocando as bolas, com as mãos, dentro das caçapas. Eu precisava livrá-lo deste vexame. Apaguei tudo e fingi que nada tinha assistido. Apaguei e voltei ao passado, onde o mundo era muito mais glamouroso. Onde meu amigo Luciano era tão somente um gênio tímido da sinuca.
Hoje, jogo com muito mais tranquilidade contra meu talentoso amigo. E até invento umas idas ao banheiro. Tudo para não perder as fantásticas narrativas de suas jogadas. 
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Doutor Marcelo, O Diário do Inferno

Clique aqui e assista "Doutor Marcelo, O Diário do Inferno"
Trata-se de uma história incrível, que dificilmente aparecerá de novo na vida de um jornalista para contar. A saga do médico Marcelo dos Santos, de 27 anos, que trabalhou durante sete meses na Cracolândia, em São Paulo, e morreu subitamente.
Um menino pobre, que estudou em escola pública e que, com a ajuda da tia, decidiu fazer medicina na faculdade mais concorrida do país, a USP. Admirado pelos colegas, que o consideram genial e empurrado pela jovem esposa, Marcelo conseguiu terminar o curso.
Estava entediado, porque trabalhava em um hospital público na periferia e passava boa parte do tempo fazendo atestados médicos para as pessoas justificarem suas faltas no trabalho até que, um dia, recebeu um convite inusitado: trabalhar numa zona de guerra.
O jovem médico mergulhou de cabeça naquela realidade cruel e desumana. Em várias situações arriscou a vida, mas aos poucos conquistou a confiança de usuários e traficantes. Passou a ser chamado para ver doentes nos buracos, cubículos onde viviam os doentes dentro das ruínas, um cenário desolador.
Doutor Marcelo produziu um diário que retrata a vida dos usuários de crack na maior e mais rica cidade da América Latina. O que o jovem médico relatou é assustador. Pessoas sem as mínimas condições de higiene, abandonadas, torturadas, abusadas, coagidas...
Começou a se revoltar com a ausência do Estado e a mão pesada dos homens da Lei. Brigou, denunciou e pediu ajuda, aqui e fora do país. Pouco conseguiu. Precisou recorrer à presidência da República, para ter sua voz ouvida pelas autoridades. Mas não deu mais tempo.
O documentário foi produzido pelos jornalistas Marco Aurélio Mello e Gustavo Costa. 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Ladrões de Ontem, Hoje e Sempre - O Castelo de Azay-le-Rideau


Longe do Brasil, imaginei eu que também estaria longe dos habituais escândalos promovidos por nossa folclórica fauna política. Mas qual não foi minha surpresa ao me deparar com o senhor Gilles Berthelot, um político francês que não faria feio diante de um Sérgio Cabral ou Eduardo Cunha.
Responsável pelas finanças no reinado de Francisco I de França, Gilles Berthelot adquiriu o castelo Azay em 1510. A partir daí procedeu a reconstrução do local e o transformou numa encantadora residência de gosto italiano. O seu esplendor demonstra a nobreza obtida por seu proprietário no cargo de notário e secretário do rei.
Após casar-se com Phillippe (nome comum às mulheres na época da renascença) Lesbahy, herdeira das terras em redor, Bertchelot alavancou sua próspera carreira no reinado. Tudo muito parecido com os modernos ladrões do nosso Brasil, ele era ajudado por Semblançay, superintendente das finanças do reino, que era um parente seu. Quando este último é acusado de desfalques e executado, Berchelot foge. 
Em 1537, o rei Francisco I toma o magnífico castelo e entrega a seu companheiro de armas, Antoine Raffin.
Mas do castelo de Azay-le-Rideau, deixemos ao passado toda essa história. O que realmente interessa nele é sua beleza plantada numa magnífica paisagem.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

JK e as Bandeiras Amarelas

Esses dias estive pensando acerca de um mal que me trucida os nervos há tempos: quem é o responsável ou, neste caso, irresponsável, por aquele conjunto desarmônico, pavoroso e criminoso de bandeiras amarelas em torno do memorial JK?
Passo diariamente em frente ao monumento e tento não olhar. Finjo que não existem, mas minha indiferença não é capaz de promover sua desmaterialização. Permanecem abjetas e feéricas, no mesmo lugar. Pobre Niemayer, pobre Juscelino! O que fizeram para merecer aquilo? E por que a crueldade tinha que vir numa quantidade tão grande? Não bastava uma? Não, são incontáveis. Como incontáveis as maldições que já roguei contra o idealizador desta ofensa. Medonhas! E para completar o cenário do inferno tem também um toldo branco e um conjunto de sete enormes bolas de ferro!  
Confesso que já cheguei a pensar em convocar a sociedade organizada, e esteticamente ultrajada, para destruir aquilo tudo. Se um dia essa parafernália toda sumir eu devo ser investigado pelo benfeito. É grande a chance de ter sido o responsável pelo desagravo à Niemayer e Juscelino. Mas, até lá, vou treinando minha capacidade de abstração e tento enxergar somente o memorial maravilhosamente limpo e branco, como na época de sua inauguração. 
A vida é realmente bela! As bandeirolas, não!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Retrato de Lázaro em 5 Mortes Inúteis

I - Uma bala arrebenta o vidro da janela, e os estilhaços, chuva cortante e fina, ferem os olhos do menino que, num canto da sala, não demonstra susto com o barulho dos tiros vindos da rua. A mãe aperta contra o peito a criança predestinada a sucessivas mortes. Não chora. Não tem lágrimas. Lázaro Dias, que então contava três anos de idade, fica cego de um olho e morre pela primeira vez.

II - Amanhece e o caminhão que traz alimento e remédio para a população aponta na curva ao longe. Há muito, sede e fome tornaram-se parte do dia-a-dia. Cerca de trinta pessoas aglomeram-se a beira da estrada. O caminhão aproxima-se e pára à distância de dez metros. A multidão corre em sua direção. De dentro dele saltam seis homens armados de metralhadora, e trazem a morte ao invés do socorro. Um adolescente, que aprendeu a enxergar com um único olho, corre por entre as árvores como se tivesse fôlego e visão de sete homens. Pára depois de muito tempo. Escuta. Silêncio. Tem o braço esquerdo devorado por uma rajada de metralhadora. Aos quinze anos, Lázaro Dias morre pela segunda vez.

III - Os dois rapazes seguem em silêncio, quase sem pisar o chão. O da frente, embora cego de um olho e com apenas um braço, é um dos guerrilheiros mais experientes. Homem de muitas mortes. Todas necessárias e a contragosto. A guerra é uma miséria que mata iguais pela honra e glória de poucos. Conduz o companheiro por uma região que também lhe é estranha. Depois de muito caminhar param para um breve descanso. O que tem um único braço afasta-se um pouco. Seus ouvidos estão habituados ao inaudível. O chão é todo coberto de folhas. Morde lhe violentamente uma das pernas. O amigo corre em auxílio, mas a armadilha é de força tamanha que não pode ser aberta. A perna vai ser amputada. Aos vinte e seis anos, Lázaro Dias morre pela terceira vez.

IV - O homem com cara de bobo pede para falar com o comandante e é encaminhado à sua presença. Apoiado numa muleta, o comandante levanta-se para ouvir o estranho. Dois guerrilheiros fazem guarda bem próximos. O homem bobo sorri e fala coisas sem sentido. Informações que nada informam. O calor é intenso. Abana-se, coça a cabeça, põe a mão sob a camisa. O comandante, desconfiado, se joga ao chão. O homem estranho consegue atirar apenas uma vez. Os dois guerrilheiros o fuzilam. O comandante Lázaro Dias, aos cinqüenta e seis anos, tem o maxilar estraçalhado pela bala, e morre pela quarta vez.

V - A paisagem na janela é suave. O homem recebe a brisa que vem de longe, de lugares que nunca foi. Os dois netos brincam em paz no jardim. A guerra civil que maltratou o país por décadas, agora é só lembrança. O homem sente uma suave dormência percorrer lhe a espinha. Anda em direção ao sofá apoiado na muleta. Ao deitar-se, sente chegar o sono mais calmo de toda sua difícil vida. Ainda toma um último gole de vinho. Aos noventa e três anos, o herói de guerra Lázaro Dias sobe aos céus nos braços de um anjo.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Existencialismo

O conto abaixo, publicado originalmente com o título "O Quase Dia dos Humanistas", foi  2º colocado no "Concurso Nacional de Contos" promovido pela Revista Brasília. O primeiro conto que escrevi.

O humanista me olhou com olhos assustados, mas que tentavam demonstrar calma e humildade. Dei-lhe um violento soco no estômago e, quando caiu, chutei-lhe várias vezes as costelas e pisei-lhe a cara quebrando alguns dentes. Aprendi isso com a polícia. Eles sabem socar o estômago e chutar as costelas com rara destreza. Esse negócio de pisar a cara fui eu que inventei e, às vezes, uso também torcer o braço do sujeito às costas, segurá-lo pelo cabelo e dar com o rosto dele na parede ou no chão. Isso tem um grande efeito psicológico. O pilantra amolece as pernas e já não se acha tão importante. 
O prédio que escolhi para esconderijo era um lugar perfeito. Longos corredores silenciosos. Estávamos diante da porta do apartamento. Abri e fiz o humanista entrar se arrastando, sempre dando-lhe chutes e com o revólver apontado para suas costas. A luminosidade cinza e morna da sala serviu como um analgésico para a minha dor de cabeça. Dor que sinto desde sempre e para sempre. 
A sala era pequena e sem nenhum móvel. Apenas dez canos que iam do chão ao teto com uma distância de um metro entre si. Os canos eram dispostos em dois grupos de cinco frente a frente. Tranquei a porta e prendi o humanista no penúltimo cano a ser ocupado. Os outros oito já tinham seus humanistas devidamente amarrados. 
Ao longo desses cinco dias, desde a captura do primeiro humanista, tive algum trabalho para mantê-los vivos. A comida era fornecida duas vezes ao dia: um ou dois pães e um copo de leite e água. Soltava o primeiro, deixava que comesse e fosse ao banheiro, amarrava-o novamente e passava para o seguinte. Sempre que entrava na sala procurava espancar qualquer um que se mostrasse com aparência muito boa. Esse procedimento evitava uma tentativa de fuga na hora de usar o banheiro.  Mas agora, não precisaria mais alimentá-los. Faltava apenas um humanista, e eu já estava indo buscá-lo. 
A tarde parecia infinita. Eram cinco horas, o sol ainda queimava como se fosse meio-dia. A pressa de ver meu plano concluído deixou-me um pouco imprudente, e resolvi pegar o humanista sem me afastar muito do prédio onde me escondia. Usaria o mesmo processo pelo qual havia capturado os outros. Caminhei pelas ruas olhando os homens no fundo dos olhos. Só homens são humanistas. Mulheres não são vítimas desse sentimento hipócrita e megalomaníaco. Ali estava ele. Sentado no banco da praça admirava os poucos transeuntes. Achava-os simpáticos e felizes. Como todos os meus prisioneiros, tinha entre trinta e cinqüenta anos. Provavelmente uns trinta e oito. Fiquei algum tempo tentando imaginar sua família: uma mulher estúpida e feliz que o acolhia entre as pernas com resignação, e dois ou três filhos robotizados, com os cérebros funcionando nos limites impostos pela igreja e pela televisão. Provavelmente morreria de infarto, mas isso eu não permitiria.
Atravessei a praça andando lentamente enquanto arrumava o revólver na cintura. Naquele instante o movimento era pequeno, mas em breve a calma seria substituída pelo furdunço dos fins de expediente. O humanista olhou-me sentar ao seu lado e sorriu. Não retribui. Apenas examinei rapidamente o ambiente e saquei o revólver encostando-o contra as costelas do miserável: 
- Está vendo aquele prédio bem em frente? É para lá que nós vamos. Ande com decisão, não olhe para trás e nem faça besteiras. Quero apenas assaltá-lo. Não me faça matá-lo, não tenho nada a perder.
O humanista olhou-me assustado por alguns segundos, depois, tomando tino da realidade, levantou-se e começou a andar:
- Não olhe para trás!
Coloquei novamente o revólver na cintura e segui o humanista bem de perto, meus pés tocando seus calcanhares. Suávamos os dois. Embora fosse essa a décima vez que eu passava por situação semelhante, ainda não me acostumara de todo. Fizemos o percurso até o prédio com rapidez e sem qualquer incidente. Na portaria, apenas o zelador. Indivíduo bêbado que não prestava grande atenção em nada. Subimos os dois andares sem grandes problemas. Chegando à porta do meu apartamento, saquei o revólver e dei um chute nas pernas do humanista fazendo-o tropeçar. Ordenei que ficasse deitado enquanto eu abria a porta. O miserável entrou se arrastando e, tão logo fechei a porta, ajoelhei-me em suas costas, segurei-o pelos cabelos e bati com seu rosto várias vezes contra o chão. Uma pequena poça de sangue formou-se no assoalho. Desmoralizado e totalmente indefeso, amarrei-o no último cano vazio.
Era o grande momento da minha vida. Minha sentinela tomava conta de toda a área diante do prédio. Qualquer movimento suspeito e eu seria imediatamente avisado. Emocionado dirigi-me até o centro da sala e dei início ao meu discurso: 
- Silêncio! – gritei, embora todos estivessem amordaçados e sem condições de fazer barulho. Gosto de gritar silêncio. Isso me emociona e faz destacar a minha superioridade:
- Vou matá-los a todos! – essa frase fez com que alguns começassem a gemer, oferecendo-me a possibilidade de novamente exigir silêncio: 
– Vocês são todos humanistas, não adianta negar, e é por isso que serão mortos. Trago aqui dez confissões, uma para cada um de vocês. Todos assinarão. Nelas, vocês reconhecerão que a vida é um absurdo e o homem é um animal perdido para sempre. 
Foi um discurso brilhante que durou cerca de trinta minutos. Senti que minhas vítimas estavam entre encantadas e aterrorizadas. Por pouco não cometi a insanidade de soltá-los para que pudessem me aplaudir. Pena que minha sentinela não pudesse ouvir. Ficaria orgulhoso de me ter como comparsa. 
A assinatura da confissão não os livrava da morte. Era apenas uma formalidade. E já me preparava para descarregar meu revólver sobre eles quando ouvi um barulho vindo da rua: 
- Que barulho é esse? Quem está aí? Sartre? Sartre? Sartre? 
Corri até a janela. O fantasma de Jean Paul Sartre abandonara o posto de sentinela e fugia em disparada. O prédio estava todo cercado pela polícia. Nosso plano havia fracassado.