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segunda-feira, 29 de maio de 2017

Popper e o Paradoxo da Tolerância

Relendo um pequeno trecho de "A Sociedade Aberta e Seus Inimigos", de Sir Karl Raimund Popper, famoso por sua Filosofia da Ciência, percebi o quanto é atual em sua incursão na área de Filosofia Política. Nestes tempos bicudos de ataques a bomba, invasões de escritórios e livres pregações fascistas, Popper tem muito a dizer com seu Paradoxo da Intolerância: 
"A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estamos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, então, os tolerantes serão destruídos, e a tolerância juntamente com eles. Essa formulação não implica que devemos sempre suprimir as filosofias intolerantes, desde que tenhamos mecanismos para combatê-las com argumentos racionais, e que possamos mantê-las sob controle diante da opinião pública. [.......] Devemos, portanto, em nome da tolerância, reivindicar o direito de não tolerar os intolerantes. Devemos enfatizar que qualquer movimento que pregue a intolerância deva ser considerado fora da lei, e considerar a incitação à intolerância e perseguição devido a ela, como criminal."


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Domingo, Pé de Cachimbo


"Hoje é domingo, pé de cachimbo." Se você não estranhou a frase anterior é um ótimo sinal. Você teve uma infância maravilhosa. Não estou aqui para destruir as boas lembranças de ninguém, mas, pense bem: você já viu um pé de cachimbo? Nem eu, mas procurei durante toda a minha infância. Vivia perseguido pelo tal pé, que buscava em todos os quintais sem jamais encontrá-lo. Os quintais insistiam em me desmoralizar e me fazer mentiroso. Neles eu encontrava pé de tudo quanto é coisa: de caju, de banana, de jambo, mas nunca o mais valioso de todos: o sonhado pé de cachimbo.
Cresci com a memória da minha incompetência em achar um pé de cachimbo. Vivi feliz com ela até o exato momento em que um amigo me revelou o que para mim seria uma tragédia: “Hoje é domingo, pede cachimbo”. Pede? Como assim? Maldito domingo. Maldito domingo que pede cachimbo. Que pede o sentar-se descansadamente com o aparato de madeira, osso ou sei lá o que mais entre os lábios. Pede, do verbo pedir, presente do indicativo, terceira pessoa do singular. O domingo pede cachimbo. Pede cachimbo. Por que, domingo? Não podias ter pedido um cigarro? Um suco gástrico? Um chinelo? Por que me traíste? Eu que te amava tanto. Que em tuas manhãs e tardes fazia nada e procurava pés de cachimbo pelos quintais, enquanto o mundo, lá longe, muito longe, se acaba nas insuportáveis intrigas de adultos. Por que me traíste pedindo? Pedindo o miserável cachimbo? Desculpe-me amigo leitor se você agora também se sente enganado, mas não vou carregar sozinho o peso de tamanha desgraça.
Essa história toda provocou em mim violenta reação: retornei indignado e com toda força da minha insanidade, tantas vezes comprovada, à busca frenética do pé de cachimbo. Se alguém achar antes de mim, me avise.
Para mim, hoje ainda é “domingo, PÉ de cachimbo”. E que se dane o outro domingo, o domingo infeliz, que com sua falta de criatividade se arrasta pedindo coisas e destruindo memórias.
A vida é realmente bela!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

O Arco do Pontão!

Mais uma da série de horrores que me intrigam aqui em Brasília. Esses dias, passando pela ponte  Honestino Guimarães, ou ponte do Pontão, como é mais conhecida, percebi que estava diante de um enigma:
- Alguém pode me explicar o que significa aquele arco medonho instalado na entrada do Pontão? Vamos recapitular: o Arco de Constantino, em Roma, é um arco triunfal nas proximidades do Coliseu, e foi erigido para comemorar a vitória de Constantino sobre Maxêncio na Batalha da Ponte Mílvio, 312 AD.  O Arco do Triunfo é um monumento localizado na cidade de Paris, construído em comemoração às vitórias militares de Napoleão Bonaparte. E o Arco do Pontão? Teria sido erigido em homenagem às incansáveis lutas dos nossos Imperadores Joaquim Roriz, Agnelo Queiroz e José Roberto Arruda contra a corrupção?
Como se aquele amontoado de cimento sem propósito não bastasse, ainda colocaram uma bola de aço bem diante do portal. Mais uma bolota, da mesma série que assombra diariamente, e em todas as fotos, o Memorial JK. Que me perdoem as noivas, pois tenho visto que elas sentem uma estranha atração pelo inexplicável monumento, mas se eu pudesse levaria ao óbito aquele monstro.
E que o bom Deus nos proteja das boas intenções estéticas que ainda virão por aí! 

terça-feira, 23 de maio de 2017

Chora João

Nem nos meus mais loucos sonhos imaginei uma história dessas.
Caminhando pelos corredores da Advocacia-Geral da União onde, teoricamente, nada de surpreendente deveria me acontecer, fui interrompido por uma moça que tinha sido minha aluna. Ela me parou para me contar um caso ocorrido há 12 anos. Sua irmã, grávida de sete meses, estava em casa quando foi surpreendida por um ladrão e, nervosa, entrou em trabalho de parto. Como o improvável e o tragicômico não escolhem hora e lugar, deu-se que o ladrão, comovido com a situação, desistiu do assalto e levou a moça ao hospital. A criança nasceu prematura e permaneceu vários dias entre a vida e a morte. A mãe caiu em depressão. Minha aluna, na intenção de aplacar o sofrimento da irmã, achou que deveria dar a ela um pouco de música. E aconteceu que o instinto fraternal fez o seu dever de casa: no disco presenteado, a música que fiz para o meu filho João. Num dos trechos, a canção diz o seguinte: "Ouço alguém me chama é a voz do vento. Nova desmedida sensação. Toca a minha mão, a mão do tempo. Tempo que me fez o homem João. Pai é hora, o sonho que é viver. Choro agora, pra cantar quando crescer".
A mão se apegou a esse pequeno pedaço da letra como um mantra, fortalecendo a esperança de ver o filho sobreviver; e ele sobreviveu. Ela, por conta da minha música, resolveu que seu filho também se chamaria João. Segundo minha aluna, o menino tem hoje 12 anos e, contra todas as dificuldades, toca violão. E uma das músicas que mais gosta de tocar é "Chora João".
Todo mundo sabe que, após gravada e publicada, uma música engendra histórias fora do controle do seu autor mas, definitivamente, por tamanha aventura eu não esperava. A vida é realmente bela!


segunda-feira, 22 de maio de 2017

Mike Tyson: Estupro ou Linchamento Racista?


Mike Tyson foi um dos maiores lutadores de todos os tempos. Acredito que se Cus D'Amato não tivesse morrido, Tyson jamais teria sido derrotado. Era o mais forte, o mais veloz, o mais talentoso, e o mais focado de todos. Com a morte de Cus D'Amato, seu pai adotivo e treinador; tudo isso acabou. A partir daí, Tyson fez todas as lutas drogado, sem treinamento adequado, ou após uma longa noite de orgia. E ainda assim demoliu todo mundo que apareceu na sua frente. Até que as loucuras foram longe demais e aconteceu aquela derrota inesperada para James Buster Douglas.


Mas sempre que estou lembrando histórias de Mike Tyson, surge a pergunta: ele estuprou Desiree Washington? Não sei. Só os dois sabem. Mas vou enumerar alguns detalhes do caso que ajudarão a decidir se ele estuprou, ou simplesmente foi linchado num julgamento cheio de vícios e até traições de supostos amigos. Segue abaixo:

- Tyson foi julgado em um estado extremamente racista. Indianápolis, Indiana, historicamente um dos redutos da Ku Klux Klan.
- A juíza do caso, Patricia Gifford, era uma ex-promotora de crimes sexuais conhecida como “a Juíza Enforcadora”.
- A juíza impediu o depoimento de três testemunhas que disseram ter visto Tyson e Desiree se abraçando e beijando carinhosamente dentro da Limusine e andando de mãos dadas até o hotel. O que deixaria claro que ela foi por vontade própria à suíte do lutador e, certamente, disposta a muito mais do que ficar conversando no quarto.
- O médico da emergência, que atendeu Desiree após o suposto estupro, não encontrou nenhuma marca de violência em seus braços ou pernas, nem qualquer sinal de que tivesse apanhado ou, sequer, sido apertada. Ou seja, foi caso único e paradoxal de estupro consentido.
- Uma das meninas que estavam no concurso de miss em que Desiree e Mike Tyson se conheceram, afirmou que ao ver o lutador chegando, Desiree falou: Eis 20 milhões de dólares.
- E, por fim, a declaração do próprio Mike Tyson diante do júri que o condenou: “Vou repetir isso até o dia em que for enterrado... Eu não estuprei Desiree Washington. Ela sabe disso, Deus sabe disso, e ela tem de arcar com as consequências de usas ações pelo resto da vida.”

sexta-feira, 19 de maio de 2017

O Inimigo de Shopping


Num passado recente tinha eu por hábito almoçar pelos shoppings de Brasília na companhia do meu amigo Newton Guimarães. Aprendi com ele que shopping é um lugar onde você sempre encontra um inimigo. E a característica mais desagradável do inimigo de shopping é que ele sempre vem cumprimentá-lo.
Lá estava eu tomando meu café quando o inimigo tocou minhas costas. Trajava terno, mochila nas costas e o maldito crachá pendurado no pescoço. Se já não fosse meu inimigo, eu certamente teria problemas com ele somente por conta desse atentado estético. Mas a desgraça ia além. Uma das coisas que mais me deixa agitado é ver um homem tomando sorvete de casquinha sem usar a colherzinha, ou seja, lambendo o sorvete. E era exatamente o que o inimigo fazia. Um espetáculo depressivo. Deveria ser proibido tal gesto. Sorvete de casquinha é um objeto fálico. Não deveria ser permitido aos homens sem o acompanhamento de uma colherzinha. Tentei me desvencilhar, mas inimigos de shopping são astutos e pegajosos. Põem a mão sobre seu ombro e estabelecem conversas insuportáveis que amarram uma a outra sem chance de fuga. 
O inimigo em questão era um sujeito com a asquerosa arrogância dos nascidos em berço esplêndido. Iniciou sua fala já na agressiva, desfiando um rosário sem fim de preconceitos e outras idiotices em referência a suposta falta de instrução de determinado político nordestino. Um espetáculo deplorável de arrogância, pretensão e outras falhas morais. Enquanto falava lembrei-me de uma frase de Millôr Fernandes: “Minha ignorância não é especializada, atinge várias áreas do conhecimento”. Traduzindo: somos todos burros! Uns mais outros menos, considerada a vastidão do conhecimento humano, não temos qualquer motivo para nos acharmos grande coisa. E, infelizmente para meu adversário, percebi que arrotava iguarias que não tinha por hábito comer. Não resisti.
Conta a história que no ano de 1965, antes de lutar contra Muhammad Ali, Floyd Patterson insistia em chamá-lo Cassius Clay. Ali tinha acabado de trocar o nome e não aceitava mais ser chamado Cassius Clay. Em virtude dessa teimosia de Patterson, durante a luta Ali o massacrou muito mais do que o necessário, enquanto perguntava: Qual é o meu nome? 
Inspirado nessa lendária perversidade parti para o ataque. Deixei que o inimigo de shopping prosseguisse com sua ladainha e lentamente fui conduzindo a conversa para o lado da literatura, terreno que eu sabia estranho a ele. Um pequeno comentário sobre Dom Quixote, outro sobre Crime e Castigo e um último sobre Grande Sertões Veredas. Como eu imaginava, não tinha lido nenhum. Saber relacionar o autor à obra, como fez na tentativa de esquivar-se dos meus golpes, não é nada. Era preciso que tivesse lido. Era preciso conhecer os detalhes da batalha entre Don Quixote e o Cavaleiro da Lua Branca, saber das dores morais de Raskolnikov, de Lisavieta, era preciso saber quem é quem ao ouvir falar de Riobaldo, Diadorim, Tatarana ou Reinaldo. O veneno escorria de minha boca enquanto a doutorência engravatada ficava sem palavra ou resposta a cada comentário “despretensioso” de minha parte. 
Como Muhammad Ali torturei meu Floyd Patterson sem nenhuma piedade. Esmurrei-lhe várias vezes o crânio, o estômago e as costelas, enquanto o sangue lhe escorria pela face frouxa de susto. Percebeu minha maldade. Despediu-se derrotado e mal humorado. Certamente não me dirigirá a palavra até que se refaça do golpe e arme nova emboscada para mim num outro shopping. Estarei pronto.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Baião de Lacan - Guinga - Osias Canuto

A música Baião de Lacan é uma composição do Guinga com letra de Aldir Blanc. Embora tenha se tornado conhecida na voz de Leila Pinheiro na forma de canção, ou seja, com música e letra, o que me atrai realmente é o instrumental. 


terça-feira, 16 de maio de 2017

Uma Vaca Dentro da Kombi

O sujeito tinha uma vaca dentro de uma Kombi. Não era um cão, não era um gato, não era um papagaio, não era um macaco. Parado em um sinal, em plena rodoviária de Brasília, olho para o lado e..... uma vaca. 
Uma vaca dentro de uma Kombi fechada. Uma Kombi fechada. Não era na carroceria, como muitos podem estar imaginando. Seria demasiado óbvio e cansativo se a Kombi tivesse uma carroceria e o animal lá se encontrasse. Não. O improvável tinha o formato de vaca e estava dentro de uma Kombi fechada. Fique atento ao que escrevi: Fechada. Lambia o motorista. Esfreguei os olhos cansados, olhei novamente e ela ainda estava lá. Uma vaca dentro de uma Kombi. 
Lembrei de todos os filmes de Luís Buñuel, de todas as obras de Salvador Dalí. O motorista me olhou sorrindo. Estava pouco se lixando para a morte de Bin Laden, para a reeleição do Obama, para a queda e morte de Kadafi. Como escreveu Drummond: “Nunca me esquecerei desse acontecimento na história de minhas retinas tão fatigadas”. 
Na capital federal, numa monótona manhã de trabalho, um sujeito carregava uma vaca no interior de uma Kombi. 
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Existencialismo

O conto abaixo, publicado originalmente com o título "O Quase Dia dos Humanistas", foi  2º colocado no "Concurso Nacional de Contos" promovido pela Revista Brasília. O primeiro conto que escrevi.

O humanista me olhou com olhos assustados, mas que tentavam demonstrar calma e humildade. Dei-lhe um violento soco no estômago e, quando caiu, chutei-lhe várias vezes as costelas e pisei-lhe a cara quebrando alguns dentes. Aprendi isso com a polícia. Eles sabem socar o estômago e chutar as costelas com rara destreza. Esse negócio de pisar a cara fui eu que inventei e, às vezes, uso também torcer o braço do sujeito às costas, segurá-lo pelo cabelo e dar com o rosto dele na parede ou no chão. Isso tem um grande efeito psicológico. O pilantra amolece as pernas e já não se acha tão importante. 
O prédio que escolhi para esconderijo era um lugar perfeito. Longos corredores silenciosos. Estávamos diante da porta do apartamento. Abri e fiz o humanista entrar se arrastando, sempre dando-lhe chutes e com o revólver apontado para suas costas. A luminosidade cinza e morna da sala serviu como um analgésico para a minha dor de cabeça. Dor que sinto desde sempre e para sempre. 
A sala era pequena e sem nenhum móvel. Apenas dez canos que iam do chão ao teto com uma distância de um metro entre si. Os canos eram dispostos em dois grupos de cinco frente a frente. Tranquei a porta e prendi o humanista no penúltimo cano a ser ocupado. Os outros oito já tinham seus humanistas devidamente amarrados. 
Ao longo desses cinco dias, desde a captura do primeiro humanista, tive algum trabalho para mantê-los vivos. A comida era fornecida duas vezes ao dia: um ou dois pães e um copo de leite e água. Soltava o primeiro, deixava que comesse e fosse ao banheiro, amarrava-o novamente e passava para o seguinte. Sempre que entrava na sala procurava espancar qualquer um que se mostrasse com aparência muito boa. Esse procedimento evitava uma tentativa de fuga na hora de usar o banheiro.  Mas agora, não precisaria mais alimentá-los. Faltava apenas um humanista, e eu já estava indo buscá-lo. 
A tarde parecia infinita. Eram cinco horas, o sol ainda queimava como se fosse meio-dia. A pressa de ver meu plano concluído deixou-me um pouco imprudente, e resolvi pegar o humanista sem me afastar muito do prédio onde me escondia. Usaria o mesmo processo pelo qual havia capturado os outros. Caminhei pelas ruas olhando os homens no fundo dos olhos. Só homens são humanistas. Mulheres não são vítimas desse sentimento hipócrita e megalomaníaco. Ali estava ele. Sentado no banco da praça admirava os poucos transeuntes. Achava-os simpáticos e felizes. Como todos os meus prisioneiros, tinha entre trinta e cinqüenta anos. Provavelmente uns trinta e oito. Fiquei algum tempo tentando imaginar sua família: uma mulher estúpida e feliz que o acolhia entre as pernas com resignação, e dois ou três filhos robotizados, com os cérebros funcionando nos limites impostos pela igreja e pela televisão. Provavelmente morreria de infarto, mas isso eu não permitiria.
Atravessei a praça andando lentamente enquanto arrumava o revólver na cintura. Naquele instante o movimento era pequeno, mas em breve a calma seria substituída pelo furdunço dos fins de expediente. O humanista olhou-me sentar ao seu lado e sorriu. Não retribui. Apenas examinei rapidamente o ambiente e saquei o revólver encostando-o contra as costelas do miserável: 
- Está vendo aquele prédio bem em frente? É para lá que nós vamos. Ande com decisão, não olhe para trás e nem faça besteiras. Quero apenas assaltá-lo. Não me faça matá-lo, não tenho nada a perder.
O humanista olhou-me assustado por alguns segundos, depois, tomando tino da realidade, levantou-se e começou a andar:
- Não olhe para trás!
Coloquei novamente o revólver na cintura e segui o humanista bem de perto, meus pés tocando seus calcanhares. Suávamos os dois. Embora fosse essa a décima vez que eu passava por situação semelhante, ainda não me acostumara de todo. Fizemos o percurso até o prédio com rapidez e sem qualquer incidente. Na portaria, apenas o zelador. Indivíduo bêbado que não prestava grande atenção em nada. Subimos os dois andares sem grandes problemas. Chegando à porta do meu apartamento, saquei o revólver e dei um chute nas pernas do humanista fazendo-o tropeçar. Ordenei que ficasse deitado enquanto eu abria a porta. O miserável entrou se arrastando e, tão logo fechei a porta, ajoelhei-me em suas costas, segurei-o pelos cabelos e bati com seu rosto várias vezes contra o chão. Uma pequena poça de sangue formou-se no assoalho. Desmoralizado e totalmente indefeso, amarrei-o no último cano vazio.
Era o grande momento da minha vida. Minha sentinela tomava conta de toda a área diante do prédio. Qualquer movimento suspeito e eu seria imediatamente avisado. Emocionado dirigi-me até o centro da sala e dei início ao meu discurso: 
- Silêncio! – gritei, embora todos estivessem amordaçados e sem condições de fazer barulho. Gosto de gritar silêncio. Isso me emociona e faz destacar a minha superioridade:
- Vou matá-los a todos! – essa frase fez com que alguns começassem a gemer, oferecendo-me a possibilidade de novamente exigir silêncio: 
– Vocês são todos humanistas, não adianta negar, e é por isso que serão mortos. Trago aqui dez confissões, uma para cada um de vocês. Todos assinarão. Nelas, vocês reconhecerão que a vida é um absurdo e o homem é um animal perdido para sempre. 
Foi um discurso brilhante que durou cerca de trinta minutos. Senti que minhas vítimas estavam entre encantadas e aterrorizadas. Por pouco não cometi a insanidade de soltá-los para que pudessem me aplaudir. Pena que minha sentinela não pudesse ouvir. Ficaria orgulhoso de me ter como comparsa. 
A assinatura da confissão não os livrava da morte. Era apenas uma formalidade. E já me preparava para descarregar meu revólver sobre eles quando ouvi um barulho vindo da rua: 
- Que barulho é esse? Quem está aí? Sartre? Sartre? Sartre? 
Corri até a janela. O fantasma de Jean Paul Sartre abandonara o posto de sentinela e fugia em disparada. O prédio estava todo cercado pela polícia. Nosso plano havia fracassado.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Encarando Ali

Quem gosta de boxe precisa assistir ao documentário “Encarando Ali” (2009), de Pete McCormack. 
Conta a vida e carreira de Muhammad Ali por meio de depoimentos de seus principais adversários. George Foreman, Joe Frazier, Ken Norton, Larry Holmes, George Chuvalo, Earnie Shavers e Leon Spinks, todos narrando os detalhes de suas lutas contra Muhammad Ali.
Para quem assiste o vídeo fica claro que nunca existiu um peso-pesado tão inteligente quanto ele, capaz de empregar táticas suicidas para superar adversários mais fortes, como na histórica luta contra George Foreman no Zaire, em 1974, quando apanhou por vários rounds só para tirar a energia de Foreman, antes de nocauteá-lo.
No filme, Foreman conta que Ali, no fim de um dos rounds, olhou para ele com uma expressão irônica em que parecia dizer: “Aha, te enganei. Agora vou acabar com você.”
Mas Ali não é o único grande personagem do filme. As histórias de vida de vários dos entrevistados são impressionantes.
É o caso de George Chuvalo, um peso-pesado canadense que perdeu duas vezes para Ali por pontos e que nunca foi nocauteado em mais de 90 lutas e 23 anos como profissional.
Chuvalo fala sobre a miséria de sua infância e relata sua trágica vida familiar, quando perdeu três filhos e a esposa para as drogas (a mulher e um dos filhos cometeram suicídio).
Os depoimentos são todos de engrandecimento a Ali, mas os entrevistados também não deixam de apontar suas possíveis fraquezas.
Chuvalo, por exemplo, garante que Sonny Liston entregou a famosa luta de 1965 contra Ali (diz a lenda que Liston trabalhava para a máfia de Chicago, que havia apostado pesadamente numa vitória de Ali).
Joe Frazier lembra a humilhação que sentiu com as provocações de Ali na imprensa, que feriram seu orgulho e o motivaram a vencer Ali na “Luta do Século”, em 1971.
Um dos depoimentos mais comoventes é o de Ron Lyle. Preso por assassinato ainda adolescente, Lyle aprendeu boxe na prisão e tornou-se um dos pesos-pesados mais temidos de sua época.
Lyle foi um dos únicos três homens a derrubar George Foreman e perdeu para Ali por nocaute técnico, numa luta que vencia por pontos e cuja interrupção foi motivo de muita polêmica.
Apesar disso, Lyle parece grato a Ali: “Eu vim da prisão, quase morri, mas tive a chance de lutar contra o maior campeão que já existiu. Estar frente a frente com Ali mudou minha vida.”

Assista ao Trailer do documentário no link abaixo:

http://www.facingalimovie.com/



quinta-feira, 11 de maio de 2017

Por Que Matou?


Por Que Matou?
Osias Canuto

Matou porque não bebia,
Matou porque não fumava,
Matou porque não traía,
Matou porque não jogava.

Matou porque viu a mãe,
Matou porque viu a luz,
Matou porque viu o cão,
Matou porque viu a cruz.

Matou porque era o próprio,
Matou porque era o cujo,
Matou porque era o máximo,
Matou porque era tudo.

Matou porque deu manchete,
Matou porque deu polícia,
Matou porque deu comício,
Matou porque deu notícia.

Matou porque não tinha um gosto,
Matou porque não tinha um vício,
Matou porque não tinha amante,
Matou porque não tinha ofício.

Matou porque tinha um ódio,
Matou porque tinha um medo,
Matou porque tinha um fato,
Matou porque tinha um dedo.

Matou porque impossível,
Matou porque impotente,
Matou porque inaudível,
Matou porque infelizmente....

Matou porque a dor é tanta,
Matou porque a dor é surda,
Matou porque a dor não para,
Matou porque a dor não muda.

Matou porque era claro,
Matou porque era nítido,
Matou porque era óbvio,
Matou porque tava escrito.

Matou porque era a hora,
Matou porque era o dia,
Matou porque era o tempo,
Matou porque mataria.

Matou porque não sorria,
Matou porque não sonhava,
Matou porque não mentia,
Matou porque não matava.

Matou porque era fraco,
Matou porque era pouco,
Matou porque tava frio,
E matou...... porque tava morto.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sobre Amores e Canções



Irises - Van Gogh
Agosto tinha chegado com toda sua claridade e secura. Brasília era um imenso deserto moderno e escaldante. Os olhos do rapaz ardiam e a cabeça doía numa enxaqueca que anunciava o fim do mundo. Não era fácil controlar o desespero, exceto por um motivo: ele tinha um plano.
Quando a viu pela primeira vez foi numa galeria de arte, não dormiu. Passou toda uma noite em claro imaginando como faria para vê-la novamente. Lógico que isso era um absurdo, mas, acreditar na razoabilidade do absurdo é o gesto mais banal dentre as muitas loucuras cometidas pelos amantes. E assim se passaram mais dois ou três agostos, com sua secura e dores de cabeça, até que ele entrou, estudante, na Universidade de Brasília. E lá estava na sala de aula, quando ela entrou. Reconheceu-a imediatamente. Era apenas um pouco mais mulher e mais bonita. A partir daí o absurdo tomou conta da situação e, de forma favorável aos desejos do rapaz, ela sentava-se ao seu lado em todas as aulas, e não era por falta de opção, mas sim por vontade própria. Ainda que todas as cadeiras estivessem vazias ela se dirigia à que ficava ao seu lado. Adentrava a sala e o tempo e os objetos paravam para vê-la movimentar-se em busca da cadeira. Após sentar-se a vida retomava seu curso.
Sempre pedia para copiar as anotações que ele fazia no caderno. Estranha rotina, pois tudo o que ele escrevia eram linhas desconexas que não se prestavam ao estudo.  Ele não entendia por qual obscuro motivo ela fazia isso. Mas também não ia perguntar. Estava aí o trunfo e alicerce do plano do rapaz. Escreveu no meio da matéria morta uma declaração de amor. Desse modo, quando ela estivesse copiando o inominável, ia ler o que ele tinha escrito e lhe pouparia os embaraços.
Sua vida, nos últimos meses, era um só esperar pelas terças e quintas, quando tinha aula com ela. O resto do tempo era a solidão entre roupas coloridas, carros, mapas, placas e tudo o mais que existia. Enfim, o dia chegou. Ela pediu o caderno e começou a ler e copiar. Quando terminou, devolveu sem pronunciar uma só palavra. Durante todo o tempo prosseguiu como se nada tivesse acontecido, mas, ao final da aula, colocou a mão sobre o braço do rapaz e fez com que permanecesse sentado até que todos saíssem da sala. Quando todos saíram, ela virou-se para ele e, num sorriso disse: "Por que você esperou tanto para fazer isso?"
Ficaram juntos até de madrugada, dentro do carro, no estacionamento da UnB. Ela ouviu toda a história, desde o primeiro dia, na galeria de arte. Sorria. Parecia mentira. Viram as horas passarem. Viram o noivo dela chegar para buscá-la e sair sozinho. Viram as luzes do Campus se apagarem, e quase viram o dia nascer.
Contra toda a lógica e desejo, por uma trapaça do destino, não ficaram juntos. O que estava escrito no caderno é um segredo que, possivelmente, ela guarda até hoje. Do romance e do absurdo restou a canção.
A vida é realmente bela!
 OLHOS NEGROS

  Todo dia é o mesmo dia
Sempre as mesmas caras encardidas sob o sol
A paisagem já não tem mais atrativos
Ruas, bares que já sei de cor

Todo dia outro alguém que pode tudo
Vai provar por A + B o que é melhor
Os humanos são tão lindos e tão burros
Infelizes, incapazes de ser só

E eu me perco entre frases de efeito
Nunca sei exatamente o que dizer
Mil palavras como flores no meu peito
Prontas pra desabrochar ou morrer

Todo dia essas tardes tão vazias
Que eu jurei não mais viver
Entre roupas coloridas, carros, mapas, placas
Vou seguindo sem você

Todo dia os seus olhos negros
Tão bonitos refletidos no luar
São como as atormentadas cores de Van Gogh
Possuindo todo olhar

E eu me perco em baladas e poemas
Tanta coisa que eu queria te dizer
O poeta mais vazio do planeta
Nunca sei por onde começar a sofrer

Olhos Negros - Osias Canuto

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Irresponsável?

Nos dias atuais, considerando diversos fatores, o certo seria ele gritar: Morra, Filho de uma Puta!!!!! Porém, ele gritou: Irresponsável!!! 
Como assim? Irresponsável? Impossível!! Irresponsável não ofende nem beata na saída da missa das sete. Irresponsável é sentença que todo adolescente ouve diariamente dos pais, e não tá nem aí.  O sujeito tinha acabado de levar um banho de água empoçada e suja e gritava ao motorista do ônibus: Irresponsável!!?? 
Fiquei comovido, admirado e decepcionado com o protesto angelical. Eu não seria capaz de tamanha retidão e educação. Alguém, no mundo violento e desrespeitoso em que vivemos, ainda mantinha a classe. 
O próprio motorista do ônibus deve ter ficado desconsertado. Certamente estava à espreita de uma reação violenta. Mas, ao contrário do que imaginava, foi chamado de irresponsável. E, dadas as circunstâncias, irresponsável soava até como elogio. 
Durante o resto do dia fiquei lembrando aquele grito inocente e vi o quanto eu sempre fora grosseiro e mal educado em situações semelhantes, reagindo de forma totalmente destemperada. Decidi então que, se por acaso algum motorista de ônibus me der um banho de lama, reagirei de acordo com o bom exemplo que vi. Já até imaginei minha fala. E será algo mais ou menos assim: Irresponsável...filho de uma puta!!!. 
A vida é realmente bela!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Retrato de Lázaro em 5 Mortes Inúteis

I - Uma bala arrebenta o vidro da janela, e os estilhaços, chuva cortante e fina, ferem os olhos do menino que, num canto da sala, não demonstra susto com o barulho dos tiros vindos da rua. A mãe aperta contra o peito a criança predestinada a sucessivas mortes. Não chora. Não tem lágrimas. Lázaro Dias, que então contava três anos de idade, fica cego de um olho e morre pela primeira vez.

II - Amanhece e o caminhão que traz alimento e remédio para a população aponta na curva ao longe. Há muito, sede e fome tornaram-se parte do dia-a-dia. Cerca de trinta pessoas aglomeram-se a beira da estrada. O caminhão aproxima-se e pára à distância de dez metros. A multidão corre em sua direção. De dentro dele saltam seis homens armados de metralhadora, e trazem a morte ao invés do socorro. Um adolescente, que aprendeu a enxergar com um único olho, corre por entre as árvores como se tivesse fôlego e visão de sete homens. Pára depois de muito tempo. Escuta. Silêncio. Tem o braço esquerdo devorado por uma rajada de metralhadora. Aos quinze anos, Lázaro Dias morre pela segunda vez.

III - Os dois rapazes seguem em silêncio, quase sem pisar o chão. O da frente, embora cego de um olho e com apenas um braço, é um dos guerrilheiros mais experientes. Homem de muitas mortes. Todas necessárias e a contragosto. A guerra é uma miséria que mata iguais pela honra e glória de poucos. Conduz o companheiro por uma região que também lhe é estranha. Depois de muito caminhar param para um breve descanso. O que tem um único braço afasta-se um pouco. Seus ouvidos estão habituados ao inaudível. O chão é todo coberto de folhas. Morde lhe violentamente uma das pernas. O amigo corre em auxílio, mas a armadilha é de força tamanha que não pode ser aberta. A perna vai ser amputada. Aos vinte e seis anos, Lázaro Dias morre pela terceira vez.

IV - O homem com cara de bobo pede para falar com o comandante e é encaminhado à sua presença. Apoiado numa muleta, o comandante levanta-se para ouvir o estranho. Dois guerrilheiros fazem guarda bem próximos. O homem bobo sorri e fala coisas sem sentido. Informações que nada informam. O calor é intenso. Abana-se, coça a cabeça, põe a mão sob a camisa. O comandante, desconfiado, se joga ao chão. O homem estranho consegue atirar apenas uma vez. Os dois guerrilheiros o fuzilam. O comandante Lázaro Dias, aos cinqüenta e seis anos, tem o maxilar estraçalhado pela bala, e morre pela quarta vez.

V - A paisagem na janela é suave. O homem recebe a brisa que vem de longe, de lugares que nunca foi. Os dois netos brincam em paz no jardim. A guerra civil que maltratou o país por décadas, agora é só lembrança. O homem sente uma suave dormência percorrer lhe a espinha. Anda em direção ao sofá apoiado na muleta. Ao deitar-se, sente chegar o sono mais calmo de toda sua difícil vida. Ainda toma um último gole de vinho. Aos noventa e três anos, o herói de guerra Lázaro Dias sobe aos céus nos braços de um anjo.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Eduardo Galeano e As Quatro Mentiras Sobre o Meio Ambiente


1- Somos todos culpados pela ruína do planeta.
A saúde do mundo está feito um caco. “Somos todos responsáveis”, clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. [....] 
Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20% da humanidade comete 80% das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis. A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, “faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades”. [....]
2- É verde aquilo que se pinta de verde.
Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. “Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas”, esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação. [....]
O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete.A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.
3- Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra.
[....] A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil.
Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político. 
4- A natureza está fora de nós.Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo.Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão.Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer.

Eduardo Galeano,  jornalista e escritor uruguaio. É autor de mais de quarenta livros, que já foram traduzidos em diversos idiomas. Sua obra mais famosa é  “As Veias Abertas da América Latina”.
http://saraiva13.blogspot.com.br/2012/06/eduardo-galeano-aponta-quatro-mentiras.html

terça-feira, 2 de maio de 2017

Bombay Masala - NY


Solicito ao garçom que me traga um Chicken Vindaloo. Ele me olha desconfiado e com um sorriso malicioso no rosto. Sabe que é o tempero mais forte da casa. Deve pensar: - "Esse brasileiro não perde por esperar." Quando chega a comida ele permanece me olhando com o mesmo sorriso. Aos poucos vai se decepcionando com minha cara de satisfação. Não sou marinheiro de primeira viagem nem vim ao restaurante por um acaso.
Situado na 49 Street com a 7ª Avenida, o Bombay Masala é o restaurante indiano mais antigo dos Estados Unidos. Para ser mais preciso, funciona neste local desde 1917. Nada de luxo, movimento ou ostentação. É um ambiente calmo, bastante frequentado por indianos e ingleses. Creio que isso já é motivo suficiente para confiar na originalidade dos pratos. Descobri por acaso e, desde então, sempre que vou a Nova York, vou ao Bombay Masala. Se eu ficar um mês na cidade, sou capaz de ir quinze, vinte vezes ao restaurante, ou seja, boa parte dos dias.
Se você estiver em New York e decidir ir ao Bombay Masala, não se assuste com algum papel colado no vidro. A vigilância sanitária americana tem o estranho hábito de notificar o restaurante. Tem sempre um aviso de que algo não está dentro das normas. Acredito que é mais um problema dos fiscais americanos que dos indianos. Se o restaurante é um original da Índia, possivelmente aquilo que eles consideram critérios de limpeza seja um pouco diferente do que os americanos esperam encontrar. O que posso dizer é que fui lá dezenas de vezes e jamais passei mal.
Mas creio que esse é um texto escrito para quem, como eu, gosta de comida indiana, de pimenta e de temperos fortes. Se você tem medo, não se arrisque. De minha parte, no quesito limpeza de restaurantes, procuro me pautar pelo ditado "Quem procura acha!". Por isso, não procuro nunca. E assim, eu e inúmeros indianos e ingleses, que sempre estão por lá, vamos nos satisfazendo em maravilhosos almoços e jantares no Bombay Masala.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Morreu Mário, Que Te Pegou Atrás do Armário


Informo aqui a morte de Mário. É isso mesmo que você leu. Mário, que pegou uma legião de inocentes atrás do armário, foi obrigado à aposentadoria.
O inimaginável se deu. Mário, o tarado incorrigível, não se cansou do centenário móvel ou dos prazeres desfrutados atrás do mesmo, apenas percebeu, tardiamente, a impossibilidade de prosseguir com sua arte.
O fato é que os antigos armários, onde Mario trabalhava com insaciável e incansável competência, foram devorados por cupins celibatários ou por pudico mofo. Os armários de hoje são respeitosamente embutidos e já não permitem mais o trabalho de um profissional da sacanagem como Mário. Não existe mais o “atrás do armário”.
Os armários modernos, provavelmente insuflados por ratazanas moralistas, grudaram-se às paredes em nome da retidão e do recato. As próximas gerações terão que arranjar outro colaborador. Mário, por ironia, foi pego justamente quando saía de seu esconderijo. Aquele mesmo esconderijo para onde, outrora, em nossa infância e adolescência, endereçamos tantos amigos inocentes e desavisados.
Milhões de seguidores por todo o mundo choram neste momento o sumiço de Mário. Alguns por não poderem mais mandar vítimas ao carrasco, outros, menos confessos, por guardarem boas recordações de quando foram enviados para trás do erótico guarda-roupa.
Adeus, Mário! Mário? Mas que Mário?


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Retrato em Branco e Preto

Diz a história que quando Chico e Tom compuseram Retrato em Branco e Preto, Tom Jobim teria argumentado que ninguém falava "Retrato em Branco e Preto", mas sim, "Retrato em Preto e Branco". Com esse comentário ele arrumava um problema para Chico Buarque, afinal, a rima composta por este último era: "vou colecionar mais um SONETO outro retrato em BRANCO e PRETO". Chico não perdoou a intromissão do maestro na letra e atacou. Ao invés de colecionar SONETO, propôs com deboche uma outra coleção menos romântica: Então tá, disse Chico, fica assim a letra "vou colecionar mais um TAMANCO, outro retrato em PRETO e BRANCO". 
Felizmente para a música popular brasileira, a amizade entre os dois não acabaria por conta desse descompasso. Ao contrário,  algumas outras maravilhosas parcerias ainda viriam.
Retrato em Branco e Preto é uma canção perfeita. Letra e música dignas uma da outra. Chico e Tom no melhor de seus inquestionáveis talentos.


terça-feira, 25 de abril de 2017

O Menino Que Adivinhava A Morte

Ainda pequeno, aos seis anos, um homem olhou para ele e ouviu de sua boca: - Amanhã, quando o senhor morrer, seu filho poderá morar em minha casa.
A mãe o repreendeu pela frase e o fez desculpar-se. Todos no bar olharam a criança e sorriram. O homem morreu no dia seguinte. A mãe ficou preocupada e assustada. O povo rapidamente deu conta do ocorrido e a romaria começou. Todos iam a sua casa para saber o ano em que iam morrer. Ele dizia sem cerimônia: - A senhora morrerá daqui a dez dias. – Desculpe-me senhor. O senhor não chegará vivo até a noite.
A maioria das pessoas trancava-se em casa na esperança de driblar a morte. De nada adiantava. A morte vinha cirúrgica conforme as previsões. Invadia casas e quartos, derrubava portas bem trancadas, quebrava cadeados, dominava vigias. Cumpria mandado. Matava.
Certo dia entra de mãos dadas com uma índia, uma menina. Tinha então treze anos. Três a mais que ele. Antes que a índia pergunta-se qualquer coisa a menina falou:  - Quando vou morrer? 
Olhou nos olhos dela e não teve vontade de falar frase alguma. Fingiu que não ouviu. Depois disse que estava cansado, que não poderia responder. Foi tomado por dor de cabeça violenta e caiu de cama. O estado do menino despertou cuidados em sua mãe, que tratou de chamar o médico da cidade, um homem velho e de aspecto cansado. Andava devagar e era famoso por seus diagnósticos e receitas estranhas, mas que davam certo sempre: - Ele está apaixonado. Passará em alguns dias. Não sei quantos. Depende do tamanho da paixão ou da possibilidade de contato com a origem dela. Em todo caso, pegue algumas pétalas de rosa e mergulhe numa jarra com água, deixe dormir fora de casa mirando a lua cheia. Amanhã faça-o tomar pequenas doses durante todo o dia.  Vai passar. Coisas do amor.
Antes de sair parou à porta e, voltando-se para os olhos da mãe avisou: - Ele não fará mais previsões. Perdeu essa capacidade. Coisas do amor.
A pequena menina insistiu com a índia, pois tinha feito uma pergunta ao menino que adivinhava a morte e ele não tinha respondido. Ela queria, precisava vê-lo. Era filha de família muito rica, mas perdeu pai, mãe e fortuna numa das tantas pestes que assolaram a cidade. Não lhe sobrou nada. Acabou sendo criada pela índia velha que também criara sua mãe. Não tendo como fugir de tanta insistência a índia decidiu fazer sua vontade. Quando chegaram à casa do menino que adivinhava a morte, a mãe deste explicou que ele estava acamado. Mas foi acabar de entrar a menina na casa e ele, lá do quarto onde estava, sentiu-se melhor e correu para a sala. Neste dia perdeu sua capacidade de adivinhar. Não queria mais adivinhar nada. Só gostava da companhia da menina. 
Assim cresceram e o amor os surpreendeu num quarto sombrio. Foi violento. A moça mais velha devorou o rapaz. Ficaram amigos, amantes e inimigos. Freqüentavam-se sem data ou hora marcada. Ela morava sozinha num quarto sobre o açougue. Encontravam-se no pequeno espaço repleto da mistura de odores de carne e bálsamos. Ele possuía uma pequena loja de relógios, onde ganhava dinheiro suficiente para uma vida tranquila. Ela passava os dias entre o quarto do açougue e a rua. Rejeitou todas as investidas dele para que se casassem e morassem juntos. Preferia os encontros diários. Ele, depois de inúmeras tentativas, também acabou acostumando-se com a situação. Assim, seguindo a rotina ilógica desses encontros, envelheceram juntos numa convivência de mais de sessenta anos. Ela parecia mais nova. Vivera de amores escandalosos que soube esconder dele e que a conservaram melhor. Ele não soube, não viu, não sentiu. Ouvidos que ouviam o som do amor eterno e pouco se importavam com o que dizia o povo.
Com a chegada da velhice decidiram que era o momento certo para estarem juntos na mesma casa. Ela abandonou o quarto do açougue e foi morar com ele. Trouxe para a casa certa desarrumação a qual ele não estava acostumado. Era muito meticuloso e limpo. Teve que habituar-se à bagunça das coisas dela; com seus jornais velhos espalhados por todos os cantos, com suas roupas postas em qualquer lugar. Ele lavava e limpava a casa. Ela cozinhava.  Para ter mais tempo em casa ele vendeu a loja de relógios. O dinheiro aplicado era suficiente para garantir-lhes sustento pelo resto da vida. Nas tardes quentes sentavam-se na varanda e ficavam a conversar até o anoitecer. O médico sempre vinha ter com eles. Os três conversavam sobre política e jogavam gamão. E assim corriam os dias. Certa manhã ela acordou e estranhou o fato dele ainda estar dormindo. Sempre acordava antes dela para preparar e servir o café na cama. Chacoalhou-o e nada. Estava morto. Ela o agarrou pela gola e amaldiçoou-o como jamais fizera antes. Sacudiu, chorou, gritou todos os nomes feios que sabia da juventude. Rezou coisas proibidas que tinha aprendido com a índia velha. Não adiantou. O amor morto nunca fora tão amado, percorrendo quilômetros de veia em seu corpo num calor medonho. Deitou doente e foi socorrida pelo mesmo velho amigo médico que, pelas contas do povo, já andava com quase cento e trinta anos. A cidade não gostava dela. Não gostava de suas safadezas, que as mães contavam às filhas e passavam de geração a geração. Procedeu-se o enterro. Ninguém assistiu. Somente ela e o doutor.
Os dias se tornaram um passar modorrento para ela. Piorou de suas crises de asma a ponto de despertar os cuidados do médico. Não se conformava. O médico vinha todos os dias e tentava conversar sobre política e jogar uma partida de gamão. Ela às vezes aceitava. Mas parecia que falava e jogava como autômato, sem espírito presente. Assim passaram-se dois meses. Ela mal saia de casa. Ia somente à feira fazer as compras para as necessidades da semana. Numa dessas saídas, ao retornar encontrou o amor sentado na sala. Vestia a mesma camisa azul do primeiro encontro amoroso no quarto sobre o açougue. Os mesmos sapatos pretos e velhos. Tinha o mesmo olhar. Ela desmaiou. Acordou. O amor ainda estava lá sentado. Era verdadeiro e eterno. Não sumiu, nem se perdeu com o tempo e rotina, com as traições e irritações mensais. - Você ainda está aí? - Sim. Não tinha para onde ir.  – É bom vê-lo, mesmo morto. – Eu sei. – Como é a morte? Não sei. Ainda não entendi direito.
Nesta tarde, quando o médico chegou para a conversa diária, percebeu nela a mudança de comportamento e aparência. Examinou seu peito e não achou vestígio da asma. Também não ouviu dela as reumáticas queixas. Ela falou sobre política como se não tivesse perdido o fio da meada dos últimos acontecimentos. Jogou gamão com a mesma irritação e desejo de vitória que a caracterizava. O doutor comentou a mudança: - Fico feliz de vê-la mais disposta. Ela apenas sorriu. Não teve coragem de comentar nada com ele. Passados alguns dias achou que era o momento de falar-lhe, afinal, era um grande amigo. - O que o senhor acha da vida após a morte. - Eu? Não sei. Nunca pensei nisso. Creio que não acho nada. Já vi muitas coisas. Já vi mortes, doenças e sofrimentos de todos os tipos e não me incomodo com religiões. - Não falo de religião. O senhor já conversou com algum morto? - Não. Mas conheço algumas histórias de gente que voltou da morte. - Era isso que eu queria lhe dizer. O que acha de a partir de hoje jogarmos e conversarmos dentro de casa? Queria mostrar-lhe uma coisa.
O doutor consentiu. Não era homem de muitos incômodos. Quando entrou ela o fez esperar em uma das salas e foi ver se o amor estava na outra. Explicou-lhe sua ideia, à qual ele não fez objeção. - Doutor, o senhor poderia vir cá nesta sala? O médico levantou-se e a passos lentos atendeu ao pedido. Quando viu o amigo sentado num canto da sala pensou que ele era outra pessoa. Um desconhecido. Olhou com mais calma e não emitiu palavra. Esse gesto deixou-a assustada. Lúcida que era, sempre cogitara a possibilidade de estar ficando louca. Se o doutor não o via era porque talvez só existisse na cabeça dela. Mas seu sofrimento durou pouco. Logo, o médico dirigindo-se ao morto perguntou: - Como tem passado? - Bem. - Fico feliz em vê-lo. Ela deu um suspiro de alívio e imediatamente puxou conversa sobre política e foi buscar o tabuleiro de gamão. A vida voltou a caminhar como antes. E assim foi durante quase dois anos, até que o amor morto foi se tornando esverdeado e já não respondia mais às perguntas. Ela interrogou o doutor sobre o que estaria acontecendo, e ele respondeu: -Tudo que entendo de mortos foi o que aprendi com ele nesta breve convivência pós-túmulo, mas, aparentemente está rejuvenescendo. Ela achou estranho o diagnóstico, mas foi exatamente o que se deu.
Um dia, ao retornar da feira, sentiu-se mal e teve que deitar-se. Uma dor no peito muito diferente das que estava acostumada. Teve força apenas para caminhar até a sala. Ali encontrou, no lugar do amor morto, um menino igual a ele mesmo quando jovem. Ela o reconheceu e entendeu tudo, e cheia de esperança fez a ele a mesma pergunta que setenta anos atrás ficara sem resposta: - Quando vou morrer? O menino não fugiu à resposta, ao contrário, estendeu-lhe a mão infantil. Quando ela tocou sua mão sentiu-se a mesma menina que um dia entrara na venda na companhia da índia velha. O barulho e os odores da venda inundaram todos os cantos da sala. Sorrindo, ele exclamou: - Você não terá tempo de dizer mais uma palavra. 
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Tristão e Isolda


Diz a lenda que Manuel Maria Barbosa du Bocage, poeta português, certa vez recebeu de autor desconhecido um soneto. O pretenso artista solicitava a Bocage que revisasse a obra. Bocage, após leitura do referido, considerou-o tão ruim que nada anotou, e para justificar-se emitiu a famosa sentença: “a emenda sairia pior que o soneto”.
Algumas idéias são tão imbecis que estão fadadas ao fracasso logo ao nascer, e jamais deveria ser permitida a hipótese de testá-las.
O amigo estava apaixonado por uma moça chamada Isolda. Inspirado pela história de amor e morte vivida pelo cavaleiro cornualho e pela princesa irlandesa teve ele a brilhante idéia de dizer à moça, por quem andava morto de amores: “ Isolda, você já encontrou seu Tristão? ” Péssimo. Terrível. Alertei-o acerca da burrice intrínseca neste questionamento.
– Não faça isso. É muito arriscado. Se os pais lhe deram o nome Isolda é porque são sabedores e admiradores da obra. Ninguém batiza uma filha com tal alcunha sem que tenha no batismo um mistério literário. Certamente já contaram a ela a história de seu nome, e ela mesma já leu a história. Se tem em torno de vinte anos é provável que já tenha ouvido essa gracinha ao menos umas duzentas vezes.
Percebi que minha advertência tinha sido inútil. Meu amigo tinha o olhar do assassino que não pode evitar o crime, por mais fadado ao fracasso que ele seja. No dia seguinte já tinha cometido o equívoco amoroso.
– E então?
– Ela deu um sorriso amarelo e disse que eu era idiorepetício. Não sei o que significa.
– Também não sei. Talvez nem exista tal palavra e ela a criou em sua homenagem ou detrimento. Mas imagino que seja o nome dado ao sujeito que comete uma idiotice já antes cometida por outros iguais a ele. Eu avisei!
– Eu sei. Vou me matar.
– Não faça isso. Se você se matar estará tentando a salvação pela reprodução parcial do final da obra literária. A emenda sairá pior que o soneto. Ela irá desprezá-lo além túmulo.
Separamo-nos e depois de uns dias encontro novamente o amigo com a mesma cara apaixonada.
– E então?
- Estou apaixonado.
– Como se chama?
– Julieta. Estive pensando em dizer a ela....
– Não diga. Desta vez apenas se mate.
A vida é realmente bela!

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Tyson X Holmes - A História Por Trás da Luta

"Não se preocupe Campeão. Quando eu ficar grande vou pegar ele para você!" Mike Tyson

Cus Damato e Muhammad Ali conversavam ao telefone logo após Ali ser derrotado por Larry Holmes. Mike Tyson, aos 13 anos, ouvia a conversa e chorava pela derrota.

CUS: Como é que você deixa aquele vagabundo bater em você? Ele é um vagabundo, Muhammad, um vagabundo!... Tenho um jovem garoto negro aqui comigo. É um menino, mas vai ser campeão mundial dos pesos-pesados. O nome dele é Mike Tyson. Fala com ele para mim, Muhammad, por favor.

MUHAMMAD ALI: Eu estava doente. Tomei um remédio e isso me deixou fraco, e foi assim que Holmes me venceu. Vou ficar bem, vou voltar e vencer Holmes.

MIKE TYSON: Não se preocupe campeão. Quando eu ficar grande vou pegar ele para você!

terça-feira, 18 de abril de 2017

A Lógica Cruel dos Segredos

As Comadres - Diego Rivera
O segredo é o estágio embrionário da fofoca. É o dia anterior ao escândalo tornado público.
Posso te contar um segredo?
– Não. 
– Quê?
– Não. Não pode. Não gosto quando você me conta segredos porque não posso contar a ninguém.
– E como você acha que deveria ser? Se é um segredo, não deve ser contado.
– Se é assim, por que você está me contando? Então não conte, e aí de fato será um segredo. Veja: ninguém conta segredo sobre coisas sem importância. Um bom segredo versa sempre sobre coisas interessantes, dessas que deveriam estar na capa de uma revista de fofocas. E você quer que eu fique calada? Que graça tem saber uma coisa escandalosa, ou muito grave, e manter silêncio? Não aguento. É muito chato isso. No mais, se você mesmo não consegue manter silêncio, por que me pede que mantenha?
– Você tem razão. Então vamos fazer assim: eu te conto e você só conta para uma pessoa, certo? 
– Certo. 
– Então, vou contar. Mas lembre-se: é segredo!
– Conta logo!!!

A vida é realmente bela!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Garota Americana na Itália

A foto abaixo leva o título de “Garota Americana na Itália”. Foi feita por Ruth Orkin, considerada ainda hoje um dos grandes nomes da fotografia americana.
Enquanto passeava pelas ruas de Florença, Orkin ficou impressionada com a reação dos italianos à passagem de Ninalee Craig, uma garota americana de 23 anos que viajava só pela Europa.
Fotógrafa e Fotografada não se conheciam até aquele momento. Orkin abordou Ninalee e pediu que passasse novamente entre os homens. O resultado desse encontro inesperado é uma foto maravilhosa, que se tornou famosa em todo o mundo. No link mais abaixo você poderá ver a foto em tamanho gigante.


quinta-feira, 13 de abril de 2017

Jandira da Gandaia


Osias Canuto e Jandira
Quando apareceu em minha casa tinha uma das patinhas enrolada num emaranhado de fio, barbante e linha de pesca. Estava muito machucada e foi um trabalho enorme livrá-la do indesejado novelo sem feri-la. Mas a retirada não pode impedir a perda de um dos membros. Machucada, mal comia e mal se acalmava. 
Com o tempo, de tanto cuidar dela, tornou-se minha amiga. Hoje, é companhia certa quando estou ao violão. E por mais que eu a coloque para trás do instrumento, ela retorna para ficar bem em frente à caixa de ressonância, onde o som é mais alto. 
Posso ficar horas tocando e ela permanecerá alí, bem quietinha, ao meu lado. Ouvitne respeitosa, é incapaz de fazer qualquer comentário ou barulho durante a execução das músicas.
Gosto de chamá-la Jandira, por conta de uma canção de João Bosco e Aldir Blanc: "Jandira da gandaia, tu era da minha laia.....!  E, já percebi, ela realmente é da minha laia. Tanto que, certa vez, dormiu me ouvindo cantar Joana Francesa, de Chico Buarque. Mas se for durante o dia, prefere mesmo ouvir música instrumental.