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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

La Petite Périgourdine - Paris


Pavê de Boeuf, Aligot
O La Petite Périgourdine é um pequeno restaurante situado na Rue des Ecoles, 39, no Quartier Latin, próximo à Sorbonne. Está entre os 100 melhores de Paris, o que não é pouco, considerando a fama gastronômica da cidade. Mas nada de badalação, ostentação ou coisa parecida.
O prato mais famoso da casa é o “Pavê de Boeuf, Aligot”, um filé com molho de gorgonzola acompanhado do famoso purê de batata e queijo tomme. Abaixo, segue o video do momento em que o purê é servido.
Se você vai a Paris creio que vale à pena uma visita ao restaurante. O  ambiente é muito simples e agradável, totalmente de acordo com a presença dos estudantes, turistas e moradores dos arredores, que chegam ao local de bicicleta ou a pé.
Para quem quer se arriscar na cozinha, vai aí a receita do purê: - 500 gramas de batata – 250 gramas de queijo tomme fresco - 20ml de creme de leite fresco – 15 gramas de alho picado, sal e pimenta. Mexer a mistura numa temperatura de 80º C até encontrar o ponto de fio.

video



quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sinuca com Walter Silva e Paulinho da Viola

Paulinho da Viola, Osias Canuto e Walter Brasília
Paulinho faz jus ao apelido de “Príncipe da MPB”. É um sujeito gentil e tranquilo, que te trata sempre com muita educação  e  simpatia. Aliás, um temperamento muito parecido com o do mestre Walter. Talvez por isso o tenha escolhido para padrinho de uma de suas filhas.
Além do incontestável talento musical, Paulinho da Viola é um apaixonado pela sinuca, e joga com clara competência. Passar uma noite entre ele e seu compadre Walter Silva, jogando sinuca e ouvindo música, é algo que não se descreve. Sendo assim, não vou correr o risco de falar demais e diminuir o que aconteceu comigo.

Osias Canuto e Paulinho da Viola 



terça-feira, 12 de setembro de 2017

Tratamento da Enxaqueca


Osias Canuto
Impulsionado por terceiros lá fui eu à consulta com o médico que me livraria das dores de cabeça que sofro desde que me entendo por gente. A foto ao lado, aos 4 anos de idade,  não me deixa mentir.
– Evite macarrão, pão, salame, pizza, chocolate, vinho, amendoim, cerveja, sol, luz em excesso, perfumes fortes, barulho, comer demais, comer de menos. Evite aborrecimentos, emoções fortes.... e por aí vai. 
Olhei para trás procurando uma outra pessoa dentro do consultório a quem o médico pudesse estar passando aquelas recomendações todas. Talvez um defunto ou uma estátua. Não havia ninguém. Era comigo mesmo que ele estava falando. Um pouco preocupado com a quantidade de restrições, resolvi esclarecer uma dúvida: 
– Mas essas prescrições são para agora, enquanto estou vivo? Ou devo segui-las somente depois de morto?
- Sei que é difícil, mas garanto que isso vai livrá-lo das dores. 
- Entendo. 
Deixei o consultório com uma série de recomendações e um punhado de pedidos de exames. No elevador o ascensorista sorri: Bom dia! Não respondi. Fiquei olhando para ele, em silêncio, tentando lembrar se o médico havia dito algo sobre os riscos de responder a um "bom dia". Saí do elevador sem conseguir me lembrar e, pior, sem responder. Lembrei-me das minhas dores de cabeça e de todos os belos momentos que tínhamos vivido juntos. Ao ver a primeira lixeira depositei todos os pedidos de exames e também todas as prescrições restritivas. Ainda não estava pronto para uma separação tão brusca e, principalmente, para tantos e tão insuportáveis sacrifícios. 
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Flamengo até Morrer! Será?


Charles Darwin empregou o termo "Sobrevivência do Mais Apto" como sinônimo de "Seleção Natural". O organismo que se adapta mais facilmente ao meio aumenta suas chances de sobrevivência num mundo hostil e adverso.
E lá ia a moça caminhando vestida no manto sagrado do Flamengo. Era linda. O verdadeiro canalha deve pensar rápido. Tirei a camisa na qual estava equivocadamente trajado e parei o carro. Ofereci carona e fomos comemorar o título de campeão brasileiro. Éramos uma emoção só. Um só coração rubro-negro. Cantamos o hino, pulamos, gritamos como ensandecidos na geral do Maracanã:  Meeenngoooo!!!
Em pouco tempo ela já se considerava minha namorada, noiva, esposa e já estávamos fazendo planos. Nos casaríamos numa igreja enfeitada com bandeiras do nosso time, passaríamos a lua de mel no Rio de Janeiro, iríamos juntos ao estádio torcer pelo nosso time. O terno e o vestido de noiva fariam lembrar as cores do Mengão, um espetáculo só possível quando paixões tão intensas se misturam!!! Incrível como a emoção do futebol decide destinos. 
Assim prosseguimos sonhando e, principalmente, comemorando. Ela me apresentou outras tantas lindas flamenguistas e a todas beijei e abracei com rubros sentimentos e negras intenções, afinal, o nosso Flamengo era campeão brasileiro. Mas o local estava demasiado cheio, e acabamos nos perdendo um do outro. Procurei-a por alguns instantes e, como não encontrei, meu amor por ela foi declinando a cada passo e renascendo em outras faces. Eram tantas rubro-negras, e estavam todas tão felizes e acessíveis. Terminei a noite nos braços de outra linda torcedora cujo nome também não me lembro. 
Quando entrou no meu carro, ao ver a camisa que eu tinha tirado no começo da história perguntou: - O que é isso? Respondi com toda naturalidade possível: – É minha camisa do Botafogo! – Mas você não estava lá cantando o hino do flamengo? – Estava. Mas não vamos nos apegar aos detalhes. – Então, você é Botafoguense? – Sim, Botafoguense. Mas não sou cego nem burro! 
A vida é realmente bela!

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

On The Road






 
Por vezes ocorre de eu compor algo que não sei exatamente por que o fiz. Consigo identificar o sentimento, mas não o objeto que o provocou. E assim a música vai ficando sem título e sem ser gravada. 
Viajando pela Interestate 15 North, estrada que liga Los Angeles a Las Vegas, decidi capturar algumas imagens da bela paisagem do deserto e montar um vídeo clipe. A música que eu usaria já tinha na cabeça. Se enquadrava num desses casos descritos acima. Composta há muitos anos, esperava no armário por essas imagens. Agora encontraram-se corpo e alma.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

O Amigo do Traficante


Não gostava, o rapaz, de andar com o amigo traficante quando este estava traficando. Era demasiado arriscado, e já tinha avisado ao amigo que não misturasse amizade e trabalho. Mas nenhuma amizade está baseada em critérios tão claros e fáceis de serem controlados. 
Você me leva ao Setor Hoteleiro Sul? 
– Levo. 
– É coisa rápida. Só vou deixar lá um negócio.
– O quê? 
Fica tranqüilo! 
– Ainda me meto numa roubada por andar com você. 
– Fica tranqüilo! Não tem erro. Já fiz isso muitas vezes.
O rapaz não quis aguardar no carro e desceram juntos para a tal entrega. Na portaria do hotel o traficante cumprimentou a todos como quem cumprimenta parentes ao entrar em casa. O rapaz esboçou um sorriso sem graça e também cumprimentou a todos. No fundo, movido por perigosa curiosidade, achava aquilo tudo estranhamente divertido, apesar do óbvio risco de ser preso como traficante sem jamais ter traficado coisa alguma. 
No apartamento, nos últimos andares, doze meninas esperavam pelo senador. Era dia de uma votação importante no senado e ele tinha que estar presente até o fim da sessão. Por falta do que dizer, o rapaz perguntou:
– Ele é casado, não é? 
– É, e bem casado. Conheço a esposa dele. Uma senhora muito educada.
– Doze garotas de programa?
É. Ficam aí comendo e bebendo enquanto não acaba a sessão no senado. Quando chegar, ele vai selecionar umas cinco e as outras vão ter que ir embora.
– E aí? Elas perderam a tarde?
– Não. Vão receber uma boa grana só porque esperaram até agora. 
Mas se elas cheirarem esse pó todo a coisa vai desandar até a noite!
Elas não cheiram sozinhas. O pó fica com o assessor dele até a noite. Literalmente, elas comem na mão dele.
Mas o senador também cheira? 
Acho que não. Só um pouco. Sei lá. Deve cheirar alguma coisa, só para não ficar totalmente limpo e fora da energia da balada. O que eu sei é que toma um uísque violento. 
No entreabrir da porta, para que a entrega fosse feita, o rapaz conseguiu olhar as acompanhantes. Algumas eram realmente bonitas, outras, nem tanto. Havia também comida e bebida em grande quantidade. 
Para o bem ou para o mal, o velho parlamentar era um profissional competente na arte de aproveitar a vida. Já está longe do senado, mas deixou enormes rastros de diversão espalhados pelos hotéis da capital federal e, com certeza, vários admiradores e continuadores de sua alcoviteira obra.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O Natal, o Casamento, A Existência de Deus e o Nada Absoluto

Manhã de Natal em NY. Como acordo muito cedo, antes de todos, sempre saio para caminhar pela cidade e pensar um pouco sobre questões que, em geral, só atormentam a mim. No caso específico, as querelas do filósofo Adolf Grunbaum contra a possibilidade de Deus ou do Nada. Mergulhando nessa encrenca por cerca de duas horas, retorno ao hotel com a cabeça fervendo de ideias e acordo minha esposa para expor minhas conjecturas. Durante um bom tempo despejo em seu ouvido questões sobre Espaço e Tempo, o Absolutismo de Newton, o Relativismo de Leibniz, a Relatividade de Einstein e a fórmula matemática de Leibniz para vencer a passagem do Nada ao Ser (1/2 = (1-1) + (1-1) + (1-1)...)
Descarrego coisas a cerca do princípio do universo, da explosão de energia e matéria que impedem uma noção de espaço e tempo anteriores à ela e, consequentemente, do próprio ato de pensar ou da existência de um criador ex-nihilo. Além disso, a opção da ciência pela teoria mais simples criaria um problema para o Demiurgo: sua existência exigiria uma manobra mais complicada do que um mundo criado por ele. E, por fim, a briga de Grunbaum contra a grande aceitação da Teoria do Nada. Uma Teoria que não tem características arbitrárias, uma vez que não postula Leis nem Entidades.
Minha esposa, cabeça privilegiada que entrou na UnB aos 16 anos e saiu formada em Matemática e Ciência da Computação, ouve tudo com absoluta atenção e, para dissolver todas as minhas angústias, repete sua grande máxima: como faremos para colocar todas as cosias que comprei, e ainda pretendo comprar, dentro das malas?
Sobre isso, confesso, eu não havia pensado! Não é por acaso que me juntei a ela. É o ser humano perfeito aos meus dramas metafísicos!

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Fila Night Run


Conta a lenda, que no ano de 490 a.C., soldados gregos deixaram Atenas rumo à planície de Marathónas a fim travar guerra contra os persas. Estes últimos haviam jurado que, vencida a batalha, iriam até a capital grega para violar as mulheres e matar as crianças. Assustados, os atenienses ordenaram a suas esposas que se no espaço de um dia não chegasse notícia de sua vitória, matassem seus filhos e, em seguida, se suicidassem. Os gregos conseguiram a vitória, mas a luta durou mais tempo que o previsto e eles ficaram com medo que elas dessem conta do combinado. Preocupado, o general Milcíades ordenou ao soldado Filípides que corresse os 42 km até Atenas para dar a boa notícia. Filípides cumpriu a ordem, mas ao chegar disse apenas "vencemos", e caiu morto.
A corrida Fila Night Run é realmente um espetáculo. Minha esposa, com sua profunda sabedoria e desconfiança, não permite que eu compareça sozinho ao local. Moças e senhoras muito bonitas e distintas, todas devidamente maquiadas, completam a prova de 5 Km no assombroso tempo de 50 e muitos minutos, ou seja, tempo suficiente para dar duas voltas ao mundo. Fico me perguntando o que estas elegantes criaturas fazem durante o percurso? Quem saberá?
Vamos aos fatos. Chegando lá já encontro um amigo de infância.
– Ainda não parei de fumar. Tá complicado. Hoje só vim para passear e ver as mulheres. Será que você não pode me conduzir para que eu faça os 5 km em 30 minutos?
Considerando o número enorme de atletas que tem a prova decido que não é uma má idéia ajudá-lo em tal propósito.
– Ok. Eu dito o ritmo.
E lá vamos nós. Tudo muito lento. É uma quantidade infinita de gente que pretende largar e chegar sem estragar o cabelo ou a pintura. Não posso atrapalhá-los. Ninguém tem obrigação de se inscrever numa corrida para correr.
Meu colega parece satisfeito com o ritmo. Olha para um lado e para o outro resfolegando e admirando a paisagem. Na altura do segundo quilômetro o primeiro posto de água. Meu amigo está muito cansado. Arrastando-se no deserto clama por água. Digo-lhe que continue correndo, andando, sei lá, e pego um copo para ele. Antes que eu possa alertar que deve apenas molhar a boca ele toma tudo e vejo que seus olhos pedem mais. Porém, diante do posto de água travava-se uma verdadeira batalha. Todos avançam como se fora um oásis no Saara. Corpos se movem em flagelo implorando o líquido precioso que irá salvá-los. A maioria pega mais de um copo. Vendo aquela luta desesperada após apenas dois quilômetros de corrida lembro-me da história das maratonas. Naquele instante, dezenas de Filípides já ameaçavam cair mortos em pleno deserto da Esplanada. Apesar dos tênis de alta performance e dos modelos adequados de shorts e blusas, se dependesse destes guerreiros e guerreiras teria ocorrido uma tragédia em Atenas. Felizmente tratava-se apenas de uma corrida de final de semana, e todos estávamos ali somente por diversão.
Prosseguindo, nos deparamos com novo obstáculo. Lá vinha uma senhora correndo com seu cachorrinho. Corretíssimo. Uma corrida de rua é perfeita para que você leve seu cachorro. Ainda mais se ele for minúsculo. A madame estava desesperada tentando que ninguém pisasse o animal. Não sei se conseguiu o feito, pois me deparei com ela no quilômetro três. Um encontro nada agradável. A coleira do ultrajado cão enganchou-se nas pernas do meu amigo, não o levou ao chão, mas o derrubou. Tentou usar o acontecido como um pretexto para desistir. Não permiti. Enfim, entre trancos e barrancos apontei a ele as luzes da reta final. Terminamos o desfile dentro do tempo planejado.
Superado o estranhamento e já imbuído do espírito da prova planejo para o próximo ano executar a corrida de uma forma mais apropriada. Talvez eu corra de costas ou num pé só.
A vida é realmente bela!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Desencontro - Toquinho e Osias Canuto



Na gravação do disco "Chico Buarque de Hollanda Volume 3" a música Desencontro é interpretada por Chico Buarque e Toquinho. Agora, com muita satisfação, chegou a minha vez de cantar Desencontro na ilustre e agradável companhia da voz e violão de Toquinho.
Osias Canuto e Toquinho




quarta-feira, 23 de agosto de 2017

A Oração e a Ligação


Cristo - Salvador Dalí
O rapaz acorda assustado com o telefone tocando em plena madrugada:
Alô! 
– Fulano? 
– Sim. Quem tá falando? 
Jesus Cristo. 
– Huuumm. Que foi? 
– Você não me conhece. Quer dizer.... todo mundo me conhece.... mas nunca nos falamos. Quer dizer.... já nos falamos..... Quer dizer... você falou. Não, não....  você rezou. Espera aí... Tô fazendo confusão! Todos falam comigo, eu ouço, mas talvez jamais alguém tenha me ouvido. Aaahhhh! Você entende o que eu to dizendo, né?
Sim, entendo. 
Então vamos ao que interessa: teria jeito de você fazer uma versão nova do Pai Nosso? 
– Eu? Mas por quê? O que tem de errado? 
Não tem nada de errado. Apenas cansei de ouvir a mesma cantilena repetidas vezes. E tem também o fato de que você escreve esse monte de insanidade nesse seu blog, daí  eu pensei em te dar uma chance de produzir algo útil ao menos uma vez na vida. O que acha?
Pode ser. Mas não sei se devo. E se você não gostar? 
Fique tranqüilo. Apenas faça. 

Dias depois, o telefone toca novamente e a voz vai direto ao assunto:
  E então? Tá pronto? 
Sim. Olha... eu acabei mesmo foi retirando os excessos. Ficou assim: PAI NOSSO, SEJA FELIZ POR TODA A ETERNIDADE! AMÉM!

(Silêncio) 

Muito bom! Muito bom! É a primeira vez que alguém se lembra de mim e me deseja felicidade. 
Pois é. Eu pensei que, se ao invés de ficar com essa mania egoísta do ser humano de pedir, “o pão nosso de cada dia nos dai hoje, livrai-nos do mal, perdoai nossas ofensas, não nos deixeis cair em tentação”, blá, blá, blá.... blá, blá, blá, seria melhor que apenas desejássemos sua felicidade, e nada mais. 
Claro, claro. É isso mesmo. Ninguém jamais pensou nisso: desejar minha felicidade. Estou muito emocionado. Obrigado. Já vou decretar a alteração.

Uma semana se passa e novamente o telefone toca na madrugada:
Alô! 
– Fulano? 
– Sim. Quem tá falando? 
Jesus Cristo. Lembra de mim? Aquele do Pai Nosso?.... Brincadeira! Você ficaria magoado se eu voltasse a versão original da oração, com aquela coisa toda de pedir, pedir, pedir? 
Não. Claro que não. A oração é sua.
É que descobri que a vida só faz sentido se tenho todos aqueles humanos pedidos para atender. Olha.... os homens sempre foram essa estrutura equivocada e perdida na vastidão do universo, e eu não me sentiria bem em abandona-los.
Entendo. 
Que bom! Não fica mesmo chateado? 
Não. 
Então, tchau. 
Tchau.
Ei?
O quê? 
Você não quer pedir nada?.... Brincadeira!
A vida é realmente bela!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

A Assassina No Cartaz de Shopping


Apaixonou-se pela moça do cartaz. Encontravam-se sempre das 10 da manhã às 10 da noite, ou seja, no período de funcionamento do shopping. Viviam um amor calmo, sem cobranças. Ela, estampada na enorme parede da entrada principal, estava sempre escandalosamente linda. Ele, por vezes alegre, por vezes tristes, mas sempre apaixonado. Os espasmos de tristeza vinham por conta de uma ponta de ciúmes, quando via que alguns homens paravam diante dela e teciam comentários. 
Como trabalhava numa loja bem em frente ao cartaz, passava longas horas trocando olhares com ela e comentando com um amigo: 
- Viu como ela me olha? É sempre assim. 
- Você está louco? Ela não está te olhando. Olha para qualquer um que esteja olhando para ela. É uma questão de ângulo. Isso é apenas um cartaz! 
- Não. Não é. Compreendo sua inveja por ela não olhar para você. Que acha de eu chamá-la para jantar hoje?
- Isso. Perfeito. Se ela for, eu te dou todo meu salário deste mês.
- Mas não sei se devo.
- Deve. Pelo amor de Deus, faça isso! Chame-a para ir a sua casa, para jantar, para beber e depois ir para a cama com você. Vai ser incrível!
 - Não. Não chamarei. Você está sendo grosseiro. Sinto que ainda não é o momento. 
Assim se passavam os românticos dias do lunático, até que o cartaz sumiu. O amigo, que sempre chegava mais cedo para o trabalho, aguardou o apaixonado, feliz por poder lhe dar a péssima notícia. Ele chegou, cumprimentou a todos sem olhar para a loja do cartaz. O amigo não podia esperar pelo momento da decepção. Mas antes que pudesse dizer algo o outro falou:
- Estive pensando e decidi terminar o namoro. Acho que já não somos tão felizes como no início. Vou dizer isso a ela hoje.
- Não, você não vai dizer. A fotografia não está mais aí. Vê? Era somente uma fotografia e foi retirada. 
Sem ouvir o que o outro tinha dito, falou: 
- Pobre moça, deve ter percebido o que aconteceria e partiu. Melhor assim. Poupa-nos do desgaste de uma despedida. 
Pouco tempo depois surgiu novo banner com a mesma modelo. O amigo temeu pelo pior. E o pior sempre vem. - Você viu como ela me olha?
- Que história é essa? Isso é um banner. Um banner. Ela não está te olhando. Ela não está olhando pôrra nenhuma. É apenas uma foto! 
- É por isso que as mulheres te desprezam. Você vê nelas apenas uma imagem. Eu identifico nelas o perfume, a poesia, o desejo, a vida.
- Ora, você é um maluco! Quê vida? Quê poesia? Isso é uma imagem. Uma imagem!
Após uma semana, chega o chefe da loja e dá a notícia da morte por suicídio. O amigo, arrasado, pergunta:
- Mas por que ele fez isso?
- Dizem que deixou um bilhete relatando uma desilusão amorosa. A polícia esteve aqui fazendo perguntas e está procurando alguma mulher com quem ele tenha se relacionado recentemente. Você sabe de alguma coisa?
O amigo olha para o cartaz diante da loja e diz:
- Não, não sei de nada. Mas creio que não vão encontrá-la.
- Por que você diz isso? 
- Sei lá, apenas uma suspeita. 
Olha novamente o cartaz e pensa: Muito estranho esse jeito que ela me olha.
A partir de então, seguindo os passos do amigo morto, começou a namorar a moça do cartaz. Mas tomava muito cuidado, pois, além de linda, ela lhe parecia fria e calculista. Talvez fosse uma assassina profissional.
Um mês se passou antes que fosse encontrado morto. A polícia não encontrou motivo aparente para o suicídio. Mas o chefe alertou para a possibilidade de algum amor não correspondido.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Crônica de Um Amor Louco

Crônica de Um Amor Louco é o primeiro volume da obra Ereções, Ejaculações e Exibicionismos, de Charles Bukowski. Nascido na Alemanha e criado nos Estados Unidos, Bukowski teve uma vida completamente louca. Por conta de algumas inflamações que deixaram marcas por todo seu corpo, sofreu psicologicamente muito mais do que o normal. Se é que isso é possível de se dizer: foi salvo pelo álcool e pelos livros. 
Levou uma vida miserável que lhe favoreceu a escrita. Conhecia exatamente o submundo sobre o qual escrevia. Seus livros são, além de literatura, autobiografia, e isso o tornou um escritor único que levou muitos imitadores de seu estilo a fracassarem, pois ao contrário de Bukowaki, não tinham a matéria prima na alma. Como um alerta aos imitadores, em sua lápide está escrito: Don´t Try.
Mas não vou ficar aqui escrevendo a biografia de Bukowski, o que eu queria mesmo era falar de Ornella Muti.
Assisti algumas centenas de vezes ao filme Crônica de Um Amor Louco (Storie di Ordinaria Follia), de Marco Ferreri, com Ben Gazzarra e Ornella Muti. E de tanto assistir acabei compondo a canção “Mares”. Uma homenagem à Ornella, que agora coloco no Youtube (link abaixo), com imagens do curta “Histoire Sans Parole”.
Ornella, no auge dos seus 22 anos, não era uma mulher, era um escândalo!! 
A vida é realmente bela!!
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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

The Long and Winding Road


Parado diante do Studio Abbey Road, em Londres, imediatamente me vem à memória o vídeo da canção que, para mim, é a mais bela canção dos Beatles: The Long and Winding Road.
Imaginei os quatro entrando no Studio, já praticamente sem trocar palavras entre si, e indo para a gravação. A música, embora seja registrada como parceria entre Paul e John, é somente de Paul MacCartney. Foi composta em sua fazenda, na Inglaterra, e já era um prenúncio do fim da banda. A letra, melancólica, diz tudo. “The wild and windy night that the rain washed away has left a pool of tears crying for the day”.
Mas o que eu queria mesmo é falar sobre o vídeo. Simplesmente lindo! A presença de Yoko Ono, pálida e fria como a morte,  era uma afronta aos demais integrantes. Muitos atribuem a ela os créditos pelo fim da banda. Besteira. Yoko Ono, apesar de ter tido enorme influência sobre John Lennon, não teve tanto poder assim. Os Beatles acabaram porque alcançaram o que Hitler e Napoleão perseguiram inutilmente: conquistaram o mundo. Não tinha mais sentido existir. Alcançaram tudo que uma banda de Rock pode imaginar conseguir e muito mais. Não é possível a existência nestas condições. Não há mais objetivos a serem buscados. Se, além disso, existe outro motivo, acredito que a morte prematura de Brian Epstein pode ser considerada o início do fim dos Beatles. Epstein, com toda sua loucura, era o que permitia aos garotos pensarem somente em se divertir e compor. Quando morreu deixou um vazio jamais ocupado.
No vídeo é possível sentir o clima triste e melancólico do fim de um relacionamento. John Lennon e George Harrison cabisbaixos, empunhando guitarras das quais quase não se ouvem notas. Ringo Star olhando fixamente para câmera era um zumbi baterista. É como se Paul MacCartney estivesse só no Studio. Ele e o tecladista Billy Preston, responsável pelo lindo solo.
Não posso contar quantas vezes já assisti a esse vídeo. E não me canso. Segue aí, para quem nunca viu. É uma das coisas mais lindas e tristes que já vi em toda minha existência.
A vida é realmente bela!

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quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Segredo da Música


O segredo? Não tem segredo! Tem é que estudar, estudar, estudar, estudar........



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

A Morte do Motoboy





O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
um verso vermelho e veloz;
um verso branco e triste.

O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
agudo como os seios de fulana,
vivo como a hóstia consagrada.

O sangue do motoboy deixou um verso na calçada:
e por mais que sangre o sangue,
não paralisa o trânsito, não eterniza o morto,
não interrompe a vida na cidade acelerada.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Carlinha Seis Ursinhos


Do narrador aos seus leitores: Na qualidade de sobrevivente aos fatos eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, narro a vocês, curta, a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Quem poesia espera, não leia.
Nascida Carla das Luzes Albuquerque Vieira, Carlinha Seis Ursinhos nunca deu muita conversa às companheiras de prisão. Silêncio quase de uma morta. Olhos de camaleão que todos os ângulos observam. Sobre a prateleira improvisada da cela, o retrato da irmã morta é quase a imagem de uma santa para todas as presas. Todas conhecem a história do crime e da vingança. Acendem vela, rezam, pedem perdão, proteção e tudo o mais que se costuma pedir aos santos.
A irmã de Carlinha foi morta aos dezesseis anos por dois promotores. Morreu com um tiro na cabeça após sofrer tortura e estupro. Impunes, sorridentes, durante todo o processo foram menos culpados que estrelas. A justiça é diferente aos julgados pelos iguais. E os iguais deram um jeito de tornar a pena o mais branda possível. A morta foi encontrada com uma arma na mão. Mas, para todo mal, duas justiças possíveis. E a melhor é a que é feita com muita dor. Os assassinos esqueceram já na primeira noite o corpo da morta. A irmã lembrou sempre e cresceu com o gosto do sangue enchendo a boca todos os dias. Uma, interrompida, e a outra, crescendo, o tempo cuidou de fazer da mesma idade existente e existida. Dezesseis anos. A morta nada mais podia. A viva decidiu vingança.
Uma menina não deve planejar morte sozinha. O mendigo Apocalipse já tinha perdido há muito o sentido do certo e do errado, do possível e do impossível, do real e do imaginário. Esta última característica era a que o tornava útil a Carlinha. Morava num ponto de ônibus e a menina o conhecia desde pequena. Crescera ouvindo falar de suas loucuras e alertada de que deveria manter distância dele. Muitos vizinhos afirmavam que já o tinham visto transformado num cachorro. Grande e forte, seguidas vezes se metia em confusão com outros mendigos. Carlinha, sem nenhum medo aproximou-se, explicou e pediu ajuda. Apocalipse sorriu e aceitou. Mas deixou claro que no retorno de Jesus eles teriam que prestar contas.
Carlinha Seis Ursinhos e o desajustado tornaram-se inseparáveis e infindáveis nas conversas. Ele sabia exorcizar por métodos dolorosos e contou a ela histórias sem fim de suas vidas passadas. Apocalipse, entre outros conhecimentos como alquimia, magia e astronomia, era também dotado da visão do fogo e do enxofre. Contou a Carlinha sobre a Santa Caverna, na igreja de Agia Anna, na Ilha de Patmos, onde São João ditou a seu discípulo Prochoros o Apocalipse. As imagens muito impressionaram a menina. Sua mãe ficava desesperada com aquela amizade, e de tudo fez para encerrá-la. Contra todas as investidas da mãe, cada vez mais se tornavam amigos. E assim se passaram dois anos, até que a mãe desistiu e ninguém mais na vizinhança se importou com aqueles dois lunáticos que viravam dia e noite em diálogo sem fim.
Durante esse tempo os dois seguiram de perto os promotores assassinos. Ela, vestida de mendiga e ele, dizem, no formato de um cão. Casa, trabalho, bar, boate, tudo o que era possível a uma menor e um mendigo conhecer sobre a vida de dois homens de classe abastada eles conheceram.
Chegado o momento e a idade certa, dezoito anos, Carlinha Seis Ursinhos, linda como sua irmã fora um dia, deu um jeito de aproximar-se dos Promotores. Um pouco mais de três encontros e logo eles levaram a conversa para onde ela queria. Ela, fria matemática e lógica deixou-se seduzir. Os dois mergulharam em encanto e desejo. A menina abriu as portas para o encontro a três, no apartamento de um deles. No grande dia trazia seis ursinhos coloridos, de plástico duro e cores variadas, pouco menos de dez centímetros cada. Brinquedos de infância da irmã morta.
Carlinha era uma graça. Os olhos verdes cravados na pele morena. Procurou não criar muitos empecilhos. Com todo nojo, que soube disfarçar, deixou-se beijar e acariciar por ambos. Tudo tinha que dar certo e, para isso, ela já estava preparada para o que teria que agüentar. Sentiu medo ao propor amarrá-los. Pela primeira vez se dava conta do absurdo que estava propondo. Era muito primário. Nenhum homem cometeria tamanha estupidez. Cometeram. Os dois deixaram-se atar à cama, que de burrice nunca é plena a cabeça de homem apaixonado. Era só uma menina franzina de dezoito anos. O que poderia acontecer demais? Aconteceu.
A menina saiu do quarto prometendo uma surpresa ao retornar. Abriu a porta do apartamento e fez entrar Apocalipse. Quase não o reconheceu. Estava belo e medonho como a própria imagem do demônio, que ela um dia ouviu descrita pela boca do mendigo. Trazia no rosto a seriedade e gravidade que o momento exigia. O carrasco adentrou a sala de torturas e abriu uma pasta de onde retirou alguns recortes de jornal com o rosto da irmã de Carlinha. Aproximou cada um deles do rosto dos magistrados de forma que pudessem reconhecer e lembrar. Os promotores sentiram um estranho frio que só se deve sentir na hora da morte. Apocalipse foi tomado por um misto de nojo e decepção ao ver o pavor estampado na cara dos dois merdas. Por um instante descontrolou-se e desferiu vários socos em seus rostos. Foi preciso que Carlinha interviesse para que ele não acabasse com tudo ali mesmo. Ela pediu paciência. A morte deveria ser sofrida como a de sua irmã. Era isso que tinham combinado tantas vezes.
Todo o processo se daria tendo como referência as imagens narradas por São João.
“E foi assim que eu vi os cavalos e os que os montavam: estes últimos eram couraçados de uma chama sulfurosa azul. Os cavalos tinham crina como uma juba de leão e de suas narinas saíam fogo, fumaça e enxofre.” (São João, Apocalipse 9,17)

Em alusão aos cascos dos cavalos apocalípticos pegaram dois pedaços de pau e bateram o quanto puderam no corpo dos advogados. Após a surra, fizeram queimaduras em suas narinas com pontas de cigarro. Apocalipse também derramou em seus olhos um liquido que tinha preparado especialmente para aquele momento. Queimava como ácido. E não faltou repertório de maldades vinculadas ao texto bíblico, até que Carlinha saiu do quarto e retornou logo após com os seis ursinhos. Apocalipse não gostou. Seis ursinhos? O que era aquilo? O carrasco argumentou que aqueles ursinhos poderiam desmoralizar todo o processo. Não havia qualquer referência de São João a imagem de ursinhos apocalípticos. Carlinha falou que não abria mão dos bonequinhos. Tinha sonhado com eles e, no mais, pertenciam à infância de sua irmã, portanto, estavam plenamente inseridos no contexto. A menina fez uma pequena demonstração do poder dos ursinhos. Pegou dois deles, passou um pouco de vaselina e bastante vidro moído quase como sal. Introduziu vagarosamente na “rede de esgoto” dos advogados que, a esta altura das perversidades, eram dois farrapos de gente. A cada gemido Apocalipse socava os merdas com desprezo. Estava decepcionado com a frouxidão dos Data Venia. Não combinava com a grande luta entre Deus e o Diabo por ele imaginada.
Plenamente introduzidos os dois primeiros ursinhos, Carlinha pegou mais dois e, desta vez, foi Apocalipse quem fez o serviço. Os dois ursinhos que restaram foram para a testa, para marcar o lugar do tiro que viria. Apocalipse fez então a grande fala que finalizaria com a sentença. Foi um discurso longo, de quase vinte minutos, acompanhado com bastante atenção e seriedade pela menina. Os promotores nada ouviram, pois a dor provocada pelos ursinhos introduzidos no ânus era insuportável. Remexiam-se o quanto era possível fazendo escorrer o sangue no lençol branco. Apocalipse explicou que nem ele, nem Carlinha, nem ninguém podia contra aquele tipo de justiça, portanto não cabia ali nenhuma espécie de recurso. A sentença seria cumprida imediatamente. Carlinha Seis Ursinhos pegou o revólver e meteu uma bala na cabeça de cabeça de cada um dos Promotores. Simples assim. Como jamais tinha atirado em sua vida, para não correr risco de errar, atirou com a arma colada a testa dos advogados. Isso fez um estrago sem tamanho, e o sangue, juntamente com pedaços de crânio e miolos, voou em todas as direções. A menina descobriu tardiamente que o louco não era assim chamado ao acaso. O louco é louco mesmo. Apocalipse, possuído subitamente por visões de cavalos e cavaleiros em chamas, derramou gasolina em todo o quarto e ateou fogo. A menina, assustada e impressionada com o que via, desmaiou. Apocalipse ergueu-a em seus braços com o carinho e cuidado de um pai. Se alguém pode conceber um cenário pavoroso para o fim dos tempos, este estava naquele quarto. O que os dois cúmplices fizeram era de dar medo ao próprio demônio.
Carlinha e o mendigo deixaram o apartamento e caminharam em silêncio. Não tinham receio de polícia, cadeia ou justiça dos homens. Isso tudo era bobagem. O certo era irreversível e estava feito.
A menina foi presa dois dias depois enquanto jantava com a mãe. A prisão de Apocalipse não ocorreu e tornou-se envolta em mistério. Os policiais encarregados de prendê-lo, para evitar a humilhação, informaram que ele não fora encontrado. Porém, a história real, narrada por várias testemunhas, dá conta de que o mendigo, ao ser cercado no ponto de ônibus onde morava, desapareceu numa nuvem de fumaça e enxofre.
Do narrador aos seus leitores: Eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, encerro aqui a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Nem santa, nem monstro, apenas uma menina.
“Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte.” (São João, Apocalipse 21,8)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Anjo Exterminado

Quando ouvi Anjo Exterminado pela primeira vez, na voz de Jards Macalé, na hora senti vontade de dar um outro arranjo, que eu achava mais apropriado à leveza da letra. Acabei gravando no Rio de Janeiro, o que foi fundamental por conta da referência na música.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Quarto em Arles

O Quarto em Arles - Van Gogh
Van Gogh olha mais uma vez o quarto. O dia é infinitamente azul, de uma melancolia doce que poderia até ser confundida com felicidade. O pintor não está em casa, está no hospício de Saint-Rémy-de-Provence. Pinta a lembrança de um lugar. A tela ainda repousa completamente limpa sobre o cavalete. A pintura vai surgindo em lascas de cores atormentadas. O azul inunda paredes, portas, camisas e os jarros sobre a mesa. Dentro do quadro, um, dois, três, quatro, cinco quadros. Dois, estranhamente claros, dois retratos, uma paisagem com algo que parece uma árvore em destaque. O holandês ainda o pintaria mais duas vezes numa inexplicável insatisfação. O Quarto em Arles se joga para frente escorrendo sobre o observador.
No Van Gogh Museum, em Amsterdam, fico parado diante do quadro por um tempo que não sei descrever. O filho pequeno me puxa pelo braço e interrompe a viagem pelo tempo. Naquele quarto, sem que Van Gogh soubesse, dormi infinitas vezes nos meus tormentos de adolescente e nas minhas bebedeiras de adulto.

Osias Canuto e João




segunda-feira, 31 de julho de 2017

Receituário Para a Salvação das Almas

Entre tantos textos lidos que povoam minha cabeça desde a mais tenra idade existem alguns que me perseguem diariamente, e que eu os carrego tatuados em minha mente. Fazem parte do meu receituário para a salvação das almas.

Os Ombros Suportam o Mundo - Carlos Drummond de Andrade

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

As Amigas e o Motel


- Você me empresta seu carro para eu levar um amigo ao motel?
- De novo?:
- Como assim, de novo?
- Não, amiga! Esquece! Tô ficando maluca! Eu falei de novo?
- Falou. Eu não sou surda. Por acaso você já me emprestou seu carro para eu ir ao motel?
- Não. Claro que não! Desculpa, linda! Tô ficando maluca. Empresto sim. Mas com uma condição: vou ter que contar ao meu marido.
- O Márcio?
- Sim. Por acaso eu tenho outro marido?
- Não, sua louca. Não é isso. É que..... e se ele contar ao meu marido?
- Fique tranquila. Ele não vai contar. Mas eu também não posso correr o risco de alguém ver meu carro entrando num motel e eu levar a fama de galinha.
- Você tá me chamando de galinha?
- Nãããão. Só estou dizendo o que aconteceria se alguém visse meu carro e o Márcio não estivesse ciente do que estava acontecendo. Ele iria achar que era eu dentro do carro levando um moleque qualquer ao motel.
- Ei, o Rodrigo não é um moleque qualquer!
- Rodrigo? Você vai levar o Rodrigo ao motel?
- Eu disse isso?
- Disse. Você falou Rodrigo, e eu não sou surda. Tá bem hein?!
- Ei, ei, chega. Pode parar. Vai me emprestar a porra do carro ou não vai?
- Claro que não! Se é para o Rodrigo ir ao motel no meu carro, é melhor que ele vá comigo.
- Mas e o seu marido?
- O Márcio?
- É lógico, por acaso você tem outro marido?
- Bem, se ele vir meu carro, faço como fiz no dia que eu sai com o Fernando.
- Fernando? Você saiu com o Fernando?
- Não, não saí. Eu disse isso?
- Disse. Fernando. Eu também não sou surda. E o que você alegou quando seu marido viu seu carro entrando num motel?
- Disse que emprestei a uma amiga.
- Entendi. Êpa.... que amiga?
- Ora, tá louca? Quem é a única e verdadeira amiga que eu tenho, e a quem eu emprestaria meu carro para ir ao motel?
- Aaaaahhhhh sua vaca!!!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Noite de Rush no O'Rilley

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Osias Canuto
Osias Canuto
Osias Canuto
Osias Canuto

Osias Canuto

terça-feira, 25 de julho de 2017

Sete Meninas - Dominguinhos

Na competente companhia dos meus amigos Ivanildo Luiz e Newton Guimarães, minha homenagem a Dominguinhos em "Sete Meninas".

                                                   A beleza de Maria ela só tem pra dar
                                                   O corpinho que ela tem 
                                                   E seu andar requebradinho
                                                   Mexe com a gente e ela nem, nem
                                                   E ela nem, nem........




quinta-feira, 6 de julho de 2017

O Grande Livro das Drogas


A porta estava trancada e movia-se numa dança frenética, enquanto mulheres lindas tentavam puxar os rapazes de volta ao centro do turbilhão. Led Zeppelin a todo volume. “Since I've been loving you, I'm about to lose my worried mind”. O pequeno apartamento estava lotado. A suprema trilogia: Sexo, Drogas e Rock and Roll. Era uma espécie de Woodstock indoor. Entre os presentes, Sid Vicious, Ornella Muti, Angelina Jolie e Jimmy Page, que nesta época estava morando em Lençois, na Chapada da Diamantina - Bahia. Mas, ao mesmo tempo em que a agitação aumentava, as evidências de que algo daria errado também se mostravam maiores. Os anfitriões, por fim, conseguiram livrar-se do assédio sexual das lindas mulheres presentes e saíram de bicicleta. Mal começaram a pedalar e já se depararam com o teatrólogo Shakespeare.
- Você está certo disso?
- Sim. É ele. Conheço Shakespeare e toda sua obra.
Não havia dúvida, era ele: Shakespeare. Mas o que estaria Shakespeare fazendo num domingo à tarde na 408 Sul?
Na época era moda o famoso título “O Grande Livro”. Existia de todo tipo: O Grande Livro das Aves, O Grande Livro dos Carros, O Grande Livro do Futebol, etc. Dispostos a ficar milionários, ou ao menos mais alucinados do que já eram, decidiram os dois amigos escrever O Grande Livro das Drogas. Decisão tomada, mãos à obra.
Em um pequeno espaço de tempo fizeram uso de uma série de produtos mais ou menos lícitos, e outros tantos absolutamente ilícitos. Para finalizar, um comprimido de Neosaldina e uma dose de Biotônico Fontoura. Após a ingestão destes ingredientes literários e alucinógenos perceberam que as paredes do pequeno apartamento começaram a movimentar-se. Mulheres nuas executando a dança do acasalamento. A festa estava começando e os convidados apareciam de todas as partes. Entravam pela janela, subiam pelo ralo da pia, emergiam do vaso sanitário.
Os vizinhos já estavam acostumados com as eternas confusões daqueles dois. É mesmo provável que alguns deles morressem de inveja e desejassem participar, mas, desta vez, a coisa parecia fora de controle. Tanto era assim, que os amigos pegaram suas bicicletas e fugiram imediatamente. Foi neste momento que se depararam com Shakespeare. Aproximaram-se e perguntaram o que ele estava fazendo ali na 408 Sul. Para surpresa de ambos, o genial autor respondeu que estava encenando a primeira peça do Grande Livro das Drogas. Incrível!!! O livro mal começara a ser escrito e já estava sendo usado por ninguém menos que Shakespeare. Os amigos se abraçaram emocionados com o sucesso imediato e a possibilidade clara de incontáveis lucros. Vários artistas circulavam pela quadra agindo sob as ordens do genial autor. Uma confusão descomunal. Novamente os dois rapazes foram obrigados a fugir.
Pedalaram pelas quadras da Asa Sul atravessando desertos e pântanos, até que se depararam com um grande rio que tinha inundado a avenida W3. Carros e corpos passavam diante de seus olhos sendo arrastados pela correnteza. Ficaram por um tempo em estado letárgico vendo o rio correr, até que um deles lembrou-se da bíblica travessia do Mar Vermelho e resolveu tentar algo semelhante. Deu certo. Atravessaram a avenida contando, dizendo e maldizendo os corpos que passavam carregados pelas águas. Naquele domingo, no distante mundo de uma Brasília já perdida, seguiram os dois amigos pedalando e vivendo aventuras inenarráveis e irrecuperáveis pela memória deste que vos escreve. Lembro apenas que, esgotados por tantas aventuras, pararam na Pizzaria Dom Bosco e se alimentaram fartamente enquanto aguardavam que o mar secasse.
De volta a 408 Sul, Shakespeare tinha ido embora com toda sua trupe, e O Grande Livro das Drogas ficaria para sempre interrompido no primeiro, único e maravilhoso capítulo. Até porque, convenhamos, é pouco provável que os autores sobrevivessem a um segundo episódio desse estrondoso sucesso da indústria narco-literária.
A vida é realmente bela!

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Sinuca Com Walter Brasília e Toquinho


Walter Silva, também conhecido como Walter Brasília, é um sujeito incrível. Sinuca, violão e nos tornamos amigos. Em pouco menos de um mês fizemos uma amizade de mais de trinta anos. Como é possível? Simples. Walter é uma pessoa tão agradável, que em duas horas de conversa, você já se sente amigo de dois anos e, após alguns dias, você já é amigo de décadas. E assim tem sido. Duas vezes por semana nos encontramos para jogar, conversar e, como não poderia deixar de ser, tocar violão. 
Walter é um exímio jogador cercado por outros tantos grandes jogadores e, principalmente, grandes seres humanos. O que ele faz numa mesa de sinuca não se escreve, é preciso ver. É possível passar horas e horas admirando seu show. E tudo feito com uma humildade sem tamanho. Como se fossem óbvias as jogadas mais mirabolantes e inimagináveis.
Na última sexta feira, lá estava o Walter com um de seus inúmeros violões. Um violão espanhol de 1985. Maravilhoso. Uma sonoridade agradabilíssima. Toquei, toquei, toquei.... e aí ele me avisou: "Hoje o Toquinho vem aqui e eu vou dar esse violão de presente a ele." E assim foi. Toquinho tinha show marcado para as 11 da noite, mas como é um apaixonado pela sinuca, resolveu dar umas tacadas antes. É a simplicidade em pessoa. Chegou, dedilhou um pouco o violão que acabara de receber de presente e, emocionado, pediu que o amigo Walter autografasse o instrumento. As fotos estão aí. A vida é realmente bela!
Osias Canuto e Toquinho