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segunda-feira, 10 de abril de 2017

O Amigo do Traficante - II


O rapaz estava diante da porta fechada do badalado Hotel onde ocorria um dos vários eventos paralelos ao Festival de Cinema de Brasília. No dia anterior, algumas pessoas tinham quebrado taças de vinho e jogado dentro da piscina. Isso fez com o que o coquetel, que era para ser aberto ao público, ficasse restrito a quem apresentasse convite. O que era para ser uma tremenda diversão estava se tornando uma enorme frustração. Foi então que o rapaz sentiu uma mão sobre seu ombro: o amigo traficante. Este, sempre agitado, foi logo perguntado: - O que tá fazendo aqui? - Vim para o coquetel que tá acontecendo na piscina do hotel, mas tá fechado ao público. E você? - Vim só entregar uma encomenda. Precisa de convite pra entrar aí? - Precisa. 
O traficante dirigiu-se até a recepção e pediu para falar com um dos apartamentos. Logo, veio um homem ao seu encontro. Entraram juntos no banheiro e fizeram o escambo droga / dinheiro. Na saída, o traficante conversa com o homem enquanto aponta para o rapaz. O homem faz um sinal de positivo com a cabeça e vai diretamente ao local onde estava ocorrendo o coquetel. Passado um tempo, retorna com duas credenciais na mão e fala: - Divirtam-se.  
Em torno da piscina do hotel, bebida e comida à vontade. O rapaz vê o homem da credencial aproximar-se de uma mulher muito bonita e colocar algo em sua bolsa. O rapaz reconhece a atriz, em cartaz no Festival e na novela de horário nobre: - Ela também cheira? - Claro. Essa gente toda cheira. É por isso que o tráfico nunca vai acabar. Atores, diretores, jornalistas, todo mundo dá sua fungada. 
Os dois ficaram um tempo conversando e observando o vai e vem das beldades e celebridades. Passado um tempo o rapaz convida o amigo para verificarem onde é o restaurante. O traficante responde: - Vai lá. Vou ficar por aqui e dar umas voltas. Tô gostando dessa coisa toda. Depois se despedem e o rapaz se dirige até o elevador. Assim que põe o pé para dentro, alguém entra logo atrás. Era a atriz. Linda e simpática. Após um pequeno instante de silêncio constrangedor ela fala: - Tudo bem? - Tudo. - Você estava no coquetel do festival? - Tava. Agora tô subindo para o restaurante, mas não sei onde é, nem se vou conseguir entrar. Ela sorri e diz: - Eu sei. Quer que eu te leve lá? - Quero. - Mas a gente pode passar no meu quarto antes? Tenho que pegar uma coisa. - Claro. - Como é seu nome? - Fulano. O seu, é lógico, você não precisa dizer. E sorri encabulado. 
Chegando à porta do quarto a moça vai logo abrindo, e encontra a amiga ainda se trocando. Entra sem cerimônia e fala para a amiga ficar tranqüila. - Esse é fulano. Conheci no elevador. Ele também vai para o jantar. Você tem convite? - Não. Vou tentar entrar. - Fique tranqüilo. Nós te colocamos para dentro. 
O rapaz começa a acreditar que é um sujeito de sorte. Há pouco não sabia nem se chegaria ao coquetel na piscina e, agora, lá estava ele no quarto de uma bela e famosa atriz e, ainda por cima, ela estava com uma amiga não menos bela e famosa. A atriz do elevador abre uma garrafa de whisky e os três começam a beber. Sem gelo. Conversam sobre o festival e sobre os filmes que assistiram e os que não assistiram. Horas depois, e com a garrafa já vazia, a atriz pega na bolsa o pacote que o traficante tinha negociado no banheiro. Olha para o rapaz e pergunta: - Quer? Surpreso, ele responde: - Eu? Tenho cara? - Não sei. É preciso ter cara? Eu tenho? Sob o olhar atônito do rapaz, ela tira a blusa da amiga e ajeita uma trilha do pó branco entre seus seios. Depois, cheira metade da carreira. Olha para o rapaz e, com um sorriso, desafia: - E agora? Você quer? 
Na televisão, no mesmo instante, a novela mostra a bela e jovem atriz no papel de uma inocente menina rica.  
Quando os três saíram do quarto para o jantar, o relógio já marcava onze horas. Na mesa, entre as celebridades, um jovem político, famoso pelas baladas e pela proximidade com o pó branco. A atriz sorri da cara de assustado do rapaz. De longe, ele vê o amigo traficante entrando no restaurante ao lado de um diretor de cinema que acabara de conhecer.  O rapaz olha novamente para a atriz, olha para o amigo, e lembra-se da frase deste último: “É tudo hipocrisia. Se você perguntar, todo mundo quer acabar com o tráfico, mas, a droga mesmo, essa, ninguém quer que acabe. Essa gente não saberia viver sem ela". A festa estava só começando. 
A vida é realmente bela!

2 comentários:

Anônimo disse...

Melhor? Impossivel! Disse tudo.

Bjs

Fabrício disse...

Essas histórias são as que eu mais gosto!