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segunda-feira, 15 de maio de 2017

Existencialismo

O conto abaixo, publicado originalmente com o título "O Quase Dia dos Humanistas", foi  2º colocado no "Concurso Nacional de Contos" promovido pela Revista Brasília. O primeiro conto que escrevi.

O humanista me olhou com olhos assustados, mas que tentavam demonstrar calma e humildade. Dei-lhe um violento soco no estômago e, quando caiu, chutei-lhe várias vezes as costelas e pisei-lhe a cara quebrando alguns dentes. Aprendi isso com a polícia. Eles sabem socar o estômago e chutar as costelas com rara destreza. Esse negócio de pisar a cara fui eu que inventei e, às vezes, uso também torcer o braço do sujeito às costas, segurá-lo pelo cabelo e dar com o rosto dele na parede ou no chão. Isso tem um grande efeito psicológico. O pilantra amolece as pernas e já não se acha tão importante. 
O prédio que escolhi para esconderijo era um lugar perfeito. Longos corredores silenciosos. Estávamos diante da porta do apartamento. Abri e fiz o humanista entrar se arrastando, sempre dando-lhe chutes e com o revólver apontado para suas costas. A luminosidade cinza e morna da sala serviu como um analgésico para a minha dor de cabeça. Dor que sinto desde sempre e para sempre. 
A sala era pequena e sem nenhum móvel. Apenas dez canos que iam do chão ao teto com uma distância de um metro entre si. Os canos eram dispostos em dois grupos de cinco frente a frente. Tranquei a porta e prendi o humanista no penúltimo cano a ser ocupado. Os outros oito já tinham seus humanistas devidamente amarrados. 
Ao longo desses cinco dias, desde a captura do primeiro humanista, tive algum trabalho para mantê-los vivos. A comida era fornecida duas vezes ao dia: um ou dois pães e um copo de leite e água. Soltava o primeiro, deixava que comesse e fosse ao banheiro, amarrava-o novamente e passava para o seguinte. Sempre que entrava na sala procurava espancar qualquer um que se mostrasse com aparência muito boa. Esse procedimento evitava uma tentativa de fuga na hora de usar o banheiro.  Mas agora, não precisaria mais alimentá-los. Faltava apenas um humanista, e eu já estava indo buscá-lo. 
A tarde parecia infinita. Eram cinco horas, o sol ainda queimava como se fosse meio-dia. A pressa de ver meu plano concluído deixou-me um pouco imprudente, e resolvi pegar o humanista sem me afastar muito do prédio onde me escondia. Usaria o mesmo processo pelo qual havia capturado os outros. Caminhei pelas ruas olhando os homens no fundo dos olhos. Só homens são humanistas. Mulheres não são vítimas desse sentimento hipócrita e megalomaníaco. Ali estava ele. Sentado no banco da praça admirava os poucos transeuntes. Achava-os simpáticos e felizes. Como todos os meus prisioneiros, tinha entre trinta e cinqüenta anos. Provavelmente uns trinta e oito. Fiquei algum tempo tentando imaginar sua família: uma mulher estúpida e feliz que o acolhia entre as pernas com resignação, e dois ou três filhos robotizados, com os cérebros funcionando nos limites impostos pela igreja e pela televisão. Provavelmente morreria de infarto, mas isso eu não permitiria.
Atravessei a praça andando lentamente enquanto arrumava o revólver na cintura. Naquele instante o movimento era pequeno, mas em breve a calma seria substituída pelo furdunço dos fins de expediente. O humanista olhou-me sentar ao seu lado e sorriu. Não retribui. Apenas examinei rapidamente o ambiente e saquei o revólver encostando-o contra as costelas do miserável: 
- Está vendo aquele prédio bem em frente? É para lá que nós vamos. Ande com decisão, não olhe para trás e nem faça besteiras. Quero apenas assaltá-lo. Não me faça matá-lo, não tenho nada a perder.
O humanista olhou-me assustado por alguns segundos, depois, tomando tino da realidade, levantou-se e começou a andar:
- Não olhe para trás!
Coloquei novamente o revólver na cintura e segui o humanista bem de perto, meus pés tocando seus calcanhares. Suávamos os dois. Embora fosse essa a décima vez que eu passava por situação semelhante, ainda não me acostumara de todo. Fizemos o percurso até o prédio com rapidez e sem qualquer incidente. Na portaria, apenas o zelador. Indivíduo bêbado que não prestava grande atenção em nada. Subimos os dois andares sem grandes problemas. Chegando à porta do meu apartamento, saquei o revólver e dei um chute nas pernas do humanista fazendo-o tropeçar. Ordenei que ficasse deitado enquanto eu abria a porta. O miserável entrou se arrastando e, tão logo fechei a porta, ajoelhei-me em suas costas, segurei-o pelos cabelos e bati com seu rosto várias vezes contra o chão. Uma pequena poça de sangue formou-se no assoalho. Desmoralizado e totalmente indefeso, amarrei-o no último cano vazio.
Era o grande momento da minha vida. Minha sentinela tomava conta de toda a área diante do prédio. Qualquer movimento suspeito e eu seria imediatamente avisado. Emocionado dirigi-me até o centro da sala e dei início ao meu discurso: 
- Silêncio! – gritei, embora todos estivessem amordaçados e sem condições de fazer barulho. Gosto de gritar silêncio. Isso me emociona e faz destacar a minha superioridade:
- Vou matá-los a todos! – essa frase fez com que alguns começassem a gemer, oferecendo-me a possibilidade de novamente exigir silêncio: 
– Vocês são todos humanistas, não adianta negar, e é por isso que serão mortos. Trago aqui dez confissões, uma para cada um de vocês. Todos assinarão. Nelas, vocês reconhecerão que a vida é um absurdo e o homem é um animal perdido para sempre. 
Foi um discurso brilhante que durou cerca de trinta minutos. Senti que minhas vítimas estavam entre encantadas e aterrorizadas. Por pouco não cometi a insanidade de soltá-los para que pudessem me aplaudir. Pena que minha sentinela não pudesse ouvir. Ficaria orgulhoso de me ter como comparsa. 
A assinatura da confissão não os livrava da morte. Era apenas uma formalidade. E já me preparava para descarregar meu revólver sobre eles quando ouvi um barulho vindo da rua: 
- Que barulho é esse? Quem está aí? Sartre? Sartre? Sartre? 
Corri até a janela. O fantasma de Jean Paul Sartre abandonara o posto de sentinela e fugia em disparada. O prédio estava todo cercado pela polícia. Nosso plano havia fracassado.

5 comentários:

Marcelo disse...

...aaaa.. eu queria era todos mortos... humanistas..... bruft... quem se importa com eles....

Márcia Benevides disse...

Meu Deus! Que sujeito mais violento! kkkkkk Será que só odeia humanistas? Bem que poderia ter ódio de políticos também!

Lena disse...

É a segunda vez que leio e me encanto
Prêmio merecido!

Bjs

Raul Montenegro disse...

Parabéns pelo prêmio e pelo conto. Muito bem escrito.

Rafa disse...

Muito bom!