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sexta-feira, 17 de março de 2017

O Amigo do Traficante


Não gostava, o rapaz, de andar com o amigo traficante quando este estava traficando. Era demasiado arriscado, e já tinha avisado ao amigo que não misturasse amizade e trabalho. Mas nenhuma amizade está baseada em critérios tão claros e fáceis de serem controlados. 
Você me leva ao Setor Hoteleiro Sul? 
– Levo. 
– É coisa rápida. Só vou deixar lá um negócio.
– O quê? 
Fica tranqüilo! 
– Ainda me meto numa roubada por andar com você. 
– Fica tranqüilo! Não tem erro. Já fiz isso muitas vezes.
O rapaz não quis aguardar no carro e desceram juntos para a tal entrega. Na portaria do hotel o traficante cumprimentou a todos como quem cumprimenta parentes ao entrar em casa. O rapaz esboçou um sorriso sem graça e também cumprimentou a todos. No fundo, movido por perigosa curiosidade, achava aquilo tudo estranhamente divertido, apesar do óbvio risco de ser preso como traficante sem jamais ter traficado coisa alguma. 
No apartamento, nos últimos andares, doze meninas esperavam pelo senador. Era dia de uma votação importante no senado e ele tinha que estar presente até o fim da sessão. Por falta do que dizer, o rapaz perguntou:
– Ele é casado, não é? 
– É, e bem casado. Conheço a esposa dele. Uma senhora muito educada.
– Doze garotas de programa?
É. Ficam aí comendo e bebendo enquanto não acaba a sessão no senado. Quando chegar, ele vai selecionar umas cinco e as outras vão ter que ir embora.
– E aí? Elas perderam a tarde?
– Não. Vão receber uma boa grana só porque esperaram até agora. 
Mas se elas cheirarem esse pó todo a coisa vai desandar até a noite!
Elas não cheiram sozinhas. O pó fica com o assessor dele até a noite. Literalmente, elas comem na mão dele.
Mas o senador também cheira? 
Acho que não. Só um pouco. Sei lá. Deve cheirar alguma coisa, só para não ficar totalmente limpo e fora da energia da balada. O que eu sei é que toma um uísque violento. 
No entreabrir da porta, para que a entrega fosse feita, o rapaz conseguiu olhar as acompanhantes. Algumas eram realmente bonitas, outras, nem tanto. Havia também comida e bebida em grande quantidade. 
Para o bem ou para o mal, o velho parlamentar era um profissional competente na arte de aproveitar a vida. Já está longe do senado, mas deixou enormes rastros de diversão espalhados pelos hotéis da capital federal e, com certeza, vários admiradores e continuadores de sua alcoviteira obra.
A vida é realmente bela!

3 comentários:

Rafa disse...

Isso é fantasia ou realidade?

Lena disse...

Entre os continuadores está um maranhense bem conhecido...

Bjs

Osias Canuto disse...

Assim como a vida: nem totalmente realidade, nem totalmente fantasia.