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quarta-feira, 8 de junho de 2016

Ethan McCord e a Guerra do Iraque

"Eu estava muito animado para ir ao Iraque, porque achava que seria uma espécie de herói.  Levaria liberdade e democracia para gente que foi oprimida durante tanto tempo. A supresa é que fui ao Iraque para levar liberdade aos iraquianos e foram os iraquianos que me libertaram de ser um escravo cego para o meu governo. Abriram meus olhos para o mundo a minha volta. Aquelas pessoas não eram diferentes de mim. Eu tinha mais em comum com elas do que com meus superiores."  
Ethan McCord

O video abaixo foi vazado pelos WikiLeaks e mostra o ataque de um helicoptero americano a  cidadãos iraquianos. Uma van estaciona no local e tenta socorrer um dos feridos. O carro também é metralhado. Dentro dele, duas crianças. O soldado americano, Ethan McCord, chega com um comando e, ao ver as crianças, corre para socorrê-las. Depois de prestar socorro o soldado foi repreendido por seus superiores e desprezado por outros soldados. Ferido numa explosão voltou aos EUA. Mas o desenrolar desse episódio serviu para destruir todas as convicções que ele tinha acerca do Iraque, da guerra e do seu próprio país. 
Transcrevi alguns trechos da entrevista que Ethan McCord concedeu a Geneton Moraes Neto.




GMN: Que tipo de filme você gostava de ver?
Ethan McCord:  Via principalmente filmes de guerra. Filmes com muita violência. Os americanos adoram filmes violentos. Assistia filmes como "Rambo". Cresci vendo filmes de guerra. Minha família é muito conservadora. Todos os meus parentes serviram nas Forças Armadas. Para minha família o serviço militar era uma coisa nobre.

GMN: Quando você entrou num avião militar para ir ao Iraque você tinha a sensação de que estava indo para uma guerra justa?
Ethan McCord:  Eu estava muito animado para ir ao Iraque, porque achava que seria uma espécie de herói.  Levaria liberdade e democracia para gente que foi oprimida durante tanto tempo. A supresa é que fui ao Iraque para levar liberdade aos iraquianos e foram os iraquianos que me libertaram de ser um escravo cego para o meu governo. Abriram meus olhos para o mundo a minha volta. Aquelas pessoas não eram diferentes de mim. Eu tinha mais em comum com elas do que com meus superiores.

GMN: Como era um dia típico na guerra?
Ethan McCord:  Nossa função principal era circular pela cidade à espera de tiros e bombas. Jogavam bombas caseiras em nós diariamente. Ficávamos guardando postos de combustível, isolando áreas e fazendo buscas. Isolávamos um bairro inteiro e íamos de porta em porta à procura de armas e materiais para a fabricação de bombas. Tirávamso as pessoas de casa pelos motivos mais banais. Se ela tivesse um AK-47 em casa com mais de dois pentes de balas, nós a taxávamos como terrorista e enviávamos para a prisão. Era ridículo. As armas que elas tinham eram para proteger a família e o lar.

GMN: Como é que aquelas crianças foram parar no meio de um bombardeio?
Ethan McCord:  O pai passou por ali porque estava levando as crianças para a escola. Viu um homem ferido na calçada e decidiu ajudá-lo e levá-lo para o hospital.  Aquele homem não tinha nada a ver com o que estava acontecendo. Estava agindo como um bom samaritano. Não viu os helicopteros que estavam atirando, porque os helicopteros estavam a 2,5 km. As balas atingiram o carro vindas do nada. Alguém fala no video que ninguém deve levar os filhos para um campo de batalha. Mas ele não tinha levado. Estava ali dirigindo no seu bairro, levando os filhos à escola. Nós é que levamos a batalha até as crianças.

GMN: Qual foi a primeira reação que você teve quando descobriu que havia crianças dentro do carro?
Ethan McCord:  Quando vi as crianças dentro da van, pensei nos meus filhos em minha casa. Aquelas crianças não eram diferentes dos meus filhos. Fiquei com o coração partido, lágrimas me vieram aos olhos. Minha primeira reação foi pegar as crianças, ajudá-las e protegê-las.  Nem liguei para o que estava acontecendo. Como pai e como ser humano, eu tinha que salvar aquelas crianças.

GMN: O que é que você disse a essas crianças quando tentou salvá-las?
Ethan McCord: Depois de entrar numa casa com a menina, tirei minhas luvas e comecei a tirar os vidros do cabelo dela. Fiz carinho na cabeça, como um pai faz, pois ela estava chorando. Tentei acalmá-la como um pai faz com a filha. Quando sai vi o menino se mexendo e o peguei. Eu dizia: “Não morra! Eu estou aqui com você”. O menino abriu os olhos, olhou para mim. Seus olhos se reviraram. Achei que tivesse morrido em meus braços. Meu coração encolheu. Comecei a chorar. Eu o apertei com força. Segurei como se fosse meu filho. Fiquei repetindo: “Não morra! Estou com você. Vai ficar tudo bem!

GMN: O que é que você fez em seguida?
Ethan McCord: Enquanto eu lavava o sangue do meu uniforme fui invadido por muitos sentimentos. Tudo o que tinha visto no Iraque contradizia tudo que eu acreditava. Eu precisava de apoio psicológico. Procurei o sargento do meu pelotão, pois eu precisava falar com um psicólogo. O sargento riu da minha cara e disse para eu parar de ser covarde e idiota.  Para eu parar de frescura, para ser um soldado. Se eu fosse procurar um psicólogo ele me acusaria de me fingir de doente, o que é crime militar. Fiz a única coisa que eu poderia fazer: suportei aquilo e reprimi todos os meus sentimentos. Tive que continuar fazendo o meu trabalho, mas eu fazia como achava conveniente, e  não como o exército queria que eu fizesse. Resolvi proteger o máximo de pessoas possível. Fiquei com muita raiva. Tinha raiva dos soldados, da minha família, dos civis americanos. Eles é que tinham me mandado fazer aquilo, eles é permitiram que aquilo acontecesse, por não terem se colocado contra aquela guerra.

GMN: Você foi repreendido por salvar as crianças?
Ethan McCord: Tinham me mandado aos berros não me preocupar com aquelas crianças desgraçadas. Soldados riam de mim. Disseram que eu tinha coração mole, que eu parecia uma mulher, por me preocupar com as crianças. Outros soldados me disseram que, se estivessem lá, teriam atirado na cabeça das crianças. Pois elas seriam futuros terroristas. O exército treina os soldados para acreditarem que as crianças do Iraque e do Afeganistão vão ser terroristas.

GMN: Em termos militares, a atitude de tentar salvar as crianças, era certa ou errada?
Ethan McCord: Nosso trabalho na infantaria não é salvar crianças, é matar gente. Mas como ninguém foi até a van para ajudá-las, eu fui. Fui punido porque aquela não era a minha responsabilidade.

GMN: Qual foi o efeito que essa experiência teve em você?
Ethan McCord:  O Iraque foi mudando minhas opiniões. Todas as minhas convicções já eram instáveis. Depois desse incidente elas desabaram. Eu já não conseguia me sentir parte do sistema que fazia aquelas coisas. Eu não atirei, mas é como se tivesse atirado. O mais difícil foi ter sofrido de transtorno pós-traumático. Depois de voltar, tentei me matar.

Bradley Manning,  o soldado que vazou o video para os WikiLeaks, imaginando que isso mudaria a cabeça das pessoas em relação à guerra, está preso e deverá passar o resto de sua vida na cadeia.

4 comentários:

Lena disse...

Ainda bem que vc divulga essas "realidades" escondidas.

Beijos

Marcia Benevides disse...

Isso é a luta pelo poder do petróleo. Pouco importa o ser humano nessa guerra, e em todas as outras promovida pelos EUA. Nem mesmo os cidadãos americanos interessam aos governantes americanos.

Marcelo disse...

Nessas horas eu começo a entender o que o Bin Laden queria dizer com "Derrubar as 2 torres foi pouco pelo que os americanos merecem".

Ronaldo disse...

É por essas e outras que os americanos são tão odiados. O mundo não precisa de um xerife. Ainda mais para fazer esse tipo de coisa!