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segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sobre Amores e Canções



Irises - Van Gogh
Agosto tinha chegado com toda sua claridade e secura. Brasília era um imenso deserto moderno e escaldante. Os olhos do rapaz ardiam e a cabeça doía numa enxaqueca que anunciava o fim do mundo. Não era fácil controlar o desespero, exceto por um motivo: ele tinha um plano.
Quando a viu pela primeira vez foi numa galeria de arte, não dormiu. Passou toda uma noite em claro imaginando como faria para vê-la novamente. Lógico que isso era um absurdo, mas, acreditar na razoabilidade do absurdo é o gesto mais banal dentre as muitas loucuras cometidas pelos amantes. E assim se passaram mais dois ou três agostos, com sua secura e dores de cabeça, até que ele entrou, estudante, na Universidade de Brasília. E lá estava na sala de aula, quando ela entrou. Reconheceu-a imediatamente. Era apenas um pouco mais mulher e mais bonita. A partir daí o absurdo tomou conta da situação e, de forma favorável aos desejos do rapaz, ela sentava-se ao seu lado em todas as aulas, e não era por falta de opção, mas sim por vontade própria. Ainda que todas as cadeiras estivessem vazias ela se dirigia à que ficava ao seu lado. Adentrava a sala e o tempo e os objetos paravam para vê-la movimentar-se em busca da cadeira. Após sentar-se a vida retomava seu curso.
Sempre pedia para copiar as anotações que ele fazia no caderno. Estranha rotina, pois tudo o que ele escrevia eram linhas desconexas que não se prestavam ao estudo.  Ele não entendia por qual obscuro motivo ela fazia isso. Mas também não ia perguntar. Estava aí o trunfo e alicerce do plano do rapaz. Escreveu no meio da matéria morta uma declaração de amor. Desse modo, quando ela estivesse copiando o inominável, ia ler o que ele tinha escrito e lhe pouparia os embaraços.
Sua vida, nos últimos meses, era um só esperar pelas terças e quintas, quando tinha aula com ela. O resto do tempo era a solidão entre roupas coloridas, carros, mapas, placas e tudo o mais que existia. Enfim, o dia chegou. Ela pediu o caderno e começou a ler e copiar. Quando terminou, devolveu sem pronunciar uma só palavra. Durante todo o tempo prosseguiu como se nada tivesse acontecido, mas, ao final da aula, colocou a mão sobre o braço do rapaz e fez com que permanecesse sentado até que todos saíssem da sala. Quando todos saíram, ela virou-se para ele e, num sorriso disse: "Por que você esperou tanto para fazer isso?"
Ficaram juntos até de madrugada, dentro do carro, no estacionamento da UnB. Ela ouviu toda a história, desde o primeiro dia, na galeria de arte. Sorria. Parecia mentira. Viram as horas passarem. Viram o noivo dela chegar para buscá-la e sair sozinho. Viram as luzes do Campus se apagarem, e quase viram o dia nascer.
Contra toda a lógica e desejo, por uma trapaça do destino, não ficaram juntos. O que estava escrito no caderno é um segredo que, possivelmente, ela guarda até hoje. Do romance e do absurdo restou a canção.
A vida é realmente bela!
 OLHOS NEGROS

  Todo dia é o mesmo dia
Sempre as mesmas caras encardidas sob o sol
A paisagem já não tem mais atrativos
Ruas, bares que já sei de cor

Todo dia outro alguém que pode tudo
Vai provar por A + B o que é melhor
Os humanos são tão lindos e tão burros
Infelizes, incapazes de ser só

E eu me perco entre frases de efeito
Nunca sei exatamente o que dizer
Mil palavras como flores no meu peito
Prontas pra desabrochar ou morrer

Todo dia essas tardes tão vazias
Que eu jurei não mais viver
Entre roupas coloridas, carros, mapas, placas
Vou seguindo sem você

Todo dia os seus olhos negros
Tão bonitos refletidos no luar
São como as atormentadas cores de Van Gogh
Possuindo todo olhar

E eu me perco em baladas e poemas
Tanta coisa que eu queria te dizer
O poeta mais vazio do planeta
Nunca sei por onde começar a sofrer

Olhos Negros - Osias Canuto

5 comentários:

Mario disse...

Perfeito.

Lena disse...

A história é linda, mas você cantando e tocando é maravilhoso!
Bjs

Cesar Romero disse...

Perfeito Dr. Osias, um dia quem sabe nas nossas conversas você me diz o que estava escrito no caderno

stella maris disse...

maravilhosamente perfeito!!!

Luíza Machado disse...

Texto maravilhoso. Música perfeita!