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terça-feira, 25 de abril de 2017

O Menino Que Adivinhava A Morte

Ainda pequeno, aos seis anos, um homem olhou para ele e ouviu de sua boca: - Amanhã, quando o senhor morrer, seu filho poderá morar em minha casa.
A mãe o repreendeu pela frase e o fez desculpar-se. Todos no bar olharam a criança e sorriram. O homem morreu no dia seguinte. A mãe ficou preocupada e assustada. O povo rapidamente deu conta do ocorrido e a romaria começou. Todos iam a sua casa para saber o ano em que iam morrer. Ele dizia sem cerimônia: - A senhora morrerá daqui a dez dias. – Desculpe-me senhor. O senhor não chegará vivo até a noite.
A maioria das pessoas trancava-se em casa na esperança de driblar a morte. De nada adiantava. A morte vinha cirúrgica conforme as previsões. Invadia casas e quartos, derrubava portas bem trancadas, quebrava cadeados, dominava vigias. Cumpria mandado. Matava.
Certo dia entra de mãos dadas com uma índia, uma menina. Tinha então treze anos. Três a mais que ele. Antes que a índia pergunta-se qualquer coisa a menina falou:  - Quando vou morrer? 
Olhou nos olhos dela e não teve vontade de falar frase alguma. Fingiu que não ouviu. Depois disse que estava cansado, que não poderia responder. Foi tomado por dor de cabeça violenta e caiu de cama. O estado do menino despertou cuidados em sua mãe, que tratou de chamar o médico da cidade, um homem velho e de aspecto cansado. Andava devagar e era famoso por seus diagnósticos e receitas estranhas, mas que davam certo sempre: - Ele está apaixonado. Passará em alguns dias. Não sei quantos. Depende do tamanho da paixão ou da possibilidade de contato com a origem dela. Em todo caso, pegue algumas pétalas de rosa e mergulhe numa jarra com água, deixe dormir fora de casa mirando a lua cheia. Amanhã faça-o tomar pequenas doses durante todo o dia.  Vai passar. Coisas do amor.
Antes de sair parou à porta e, voltando-se para os olhos da mãe avisou: - Ele não fará mais previsões. Perdeu essa capacidade. Coisas do amor.
A pequena menina insistiu com a índia, pois tinha feito uma pergunta ao menino que adivinhava a morte e ele não tinha respondido. Ela queria, precisava vê-lo. Era filha de família muito rica, mas perdeu pai, mãe e fortuna numa das tantas pestes que assolaram a cidade. Não lhe sobrou nada. Acabou sendo criada pela índia velha que também criara sua mãe. Não tendo como fugir de tanta insistência a índia decidiu fazer sua vontade. Quando chegaram à casa do menino que adivinhava a morte, a mãe deste explicou que ele estava acamado. Mas foi acabar de entrar a menina na casa e ele, lá do quarto onde estava, sentiu-se melhor e correu para a sala. Neste dia perdeu sua capacidade de adivinhar. Não queria mais adivinhar nada. Só gostava da companhia da menina. 
Assim cresceram e o amor os surpreendeu num quarto sombrio. Foi violento. A moça mais velha devorou o rapaz. Ficaram amigos, amantes e inimigos. Freqüentavam-se sem data ou hora marcada. Ela morava sozinha num quarto sobre o açougue. Encontravam-se no pequeno espaço repleto da mistura de odores de carne e bálsamos. Ele possuía uma pequena loja de relógios, onde ganhava dinheiro suficiente para uma vida tranquila. Ela passava os dias entre o quarto do açougue e a rua. Rejeitou todas as investidas dele para que se casassem e morassem juntos. Preferia os encontros diários. Ele, depois de inúmeras tentativas, também acabou acostumando-se com a situação. Assim, seguindo a rotina ilógica desses encontros, envelheceram juntos numa convivência de mais de sessenta anos. Ela parecia mais nova. Vivera de amores escandalosos que soube esconder dele e que a conservaram melhor. Ele não soube, não viu, não sentiu. Ouvidos que ouviam o som do amor eterno e pouco se importavam com o que dizia o povo.
Com a chegada da velhice decidiram que era o momento certo para estarem juntos na mesma casa. Ela abandonou o quarto do açougue e foi morar com ele. Trouxe para a casa certa desarrumação a qual ele não estava acostumado. Era muito meticuloso e limpo. Teve que habituar-se à bagunça das coisas dela; com seus jornais velhos espalhados por todos os cantos, com suas roupas postas em qualquer lugar. Ele lavava e limpava a casa. Ela cozinhava.  Para ter mais tempo em casa ele vendeu a loja de relógios. O dinheiro aplicado era suficiente para garantir-lhes sustento pelo resto da vida. Nas tardes quentes sentavam-se na varanda e ficavam a conversar até o anoitecer. O médico sempre vinha ter com eles. Os três conversavam sobre política e jogavam gamão. E assim corriam os dias. Certa manhã ela acordou e estranhou o fato dele ainda estar dormindo. Sempre acordava antes dela para preparar e servir o café na cama. Chacoalhou-o e nada. Estava morto. Ela o agarrou pela gola e amaldiçoou-o como jamais fizera antes. Sacudiu, chorou, gritou todos os nomes feios que sabia da juventude. Rezou coisas proibidas que tinha aprendido com a índia velha. Não adiantou. O amor morto nunca fora tão amado, percorrendo quilômetros de veia em seu corpo num calor medonho. Deitou doente e foi socorrida pelo mesmo velho amigo médico que, pelas contas do povo, já andava com quase cento e trinta anos. A cidade não gostava dela. Não gostava de suas safadezas, que as mães contavam às filhas e passavam de geração a geração. Procedeu-se o enterro. Ninguém assistiu. Somente ela e o doutor.
Os dias se tornaram um passar modorrento para ela. Piorou de suas crises de asma a ponto de despertar os cuidados do médico. Não se conformava. O médico vinha todos os dias e tentava conversar sobre política e jogar uma partida de gamão. Ela às vezes aceitava. Mas parecia que falava e jogava como autômato, sem espírito presente. Assim passaram-se dois meses. Ela mal saia de casa. Ia somente à feira fazer as compras para as necessidades da semana. Numa dessas saídas, ao retornar encontrou o amor sentado na sala. Vestia a mesma camisa azul do primeiro encontro amoroso no quarto sobre o açougue. Os mesmos sapatos pretos e velhos. Tinha o mesmo olhar. Ela desmaiou. Acordou. O amor ainda estava lá sentado. Era verdadeiro e eterno. Não sumiu, nem se perdeu com o tempo e rotina, com as traições e irritações mensais. - Você ainda está aí? - Sim. Não tinha para onde ir.  – É bom vê-lo, mesmo morto. – Eu sei. – Como é a morte? Não sei. Ainda não entendi direito.
Nesta tarde, quando o médico chegou para a conversa diária, percebeu nela a mudança de comportamento e aparência. Examinou seu peito e não achou vestígio da asma. Também não ouviu dela as reumáticas queixas. Ela falou sobre política como se não tivesse perdido o fio da meada dos últimos acontecimentos. Jogou gamão com a mesma irritação e desejo de vitória que a caracterizava. O doutor comentou a mudança: - Fico feliz de vê-la mais disposta. Ela apenas sorriu. Não teve coragem de comentar nada com ele. Passados alguns dias achou que era o momento de falar-lhe, afinal, era um grande amigo. - O que o senhor acha da vida após a morte. - Eu? Não sei. Nunca pensei nisso. Creio que não acho nada. Já vi muitas coisas. Já vi mortes, doenças e sofrimentos de todos os tipos e não me incomodo com religiões. - Não falo de religião. O senhor já conversou com algum morto? - Não. Mas conheço algumas histórias de gente que voltou da morte. - Era isso que eu queria lhe dizer. O que acha de a partir de hoje jogarmos e conversarmos dentro de casa? Queria mostrar-lhe uma coisa.
O doutor consentiu. Não era homem de muitos incômodos. Quando entrou ela o fez esperar em uma das salas e foi ver se o amor estava na outra. Explicou-lhe sua ideia, à qual ele não fez objeção. - Doutor, o senhor poderia vir cá nesta sala? O médico levantou-se e a passos lentos atendeu ao pedido. Quando viu o amigo sentado num canto da sala pensou que ele era outra pessoa. Um desconhecido. Olhou com mais calma e não emitiu palavra. Esse gesto deixou-a assustada. Lúcida que era, sempre cogitara a possibilidade de estar ficando louca. Se o doutor não o via era porque talvez só existisse na cabeça dela. Mas seu sofrimento durou pouco. Logo, o médico dirigindo-se ao morto perguntou: - Como tem passado? - Bem. - Fico feliz em vê-lo. Ela deu um suspiro de alívio e imediatamente puxou conversa sobre política e foi buscar o tabuleiro de gamão. A vida voltou a caminhar como antes. E assim foi durante quase dois anos, até que o amor morto foi se tornando esverdeado e já não respondia mais às perguntas. Ela interrogou o doutor sobre o que estaria acontecendo, e ele respondeu: -Tudo que entendo de mortos foi o que aprendi com ele nesta breve convivência pós-túmulo, mas, aparentemente está rejuvenescendo. Ela achou estranho o diagnóstico, mas foi exatamente o que se deu.
Um dia, ao retornar da feira, sentiu-se mal e teve que deitar-se. Uma dor no peito muito diferente das que estava acostumada. Teve força apenas para caminhar até a sala. Ali encontrou, no lugar do amor morto, um menino igual a ele mesmo quando jovem. Ela o reconheceu e entendeu tudo, e cheia de esperança fez a ele a mesma pergunta que setenta anos atrás ficara sem resposta: - Quando vou morrer? O menino não fugiu à resposta, ao contrário, estendeu-lhe a mão infantil. Quando ela tocou sua mão sentiu-se a mesma menina que um dia entrara na venda na companhia da índia velha. O barulho e os odores da venda inundaram todos os cantos da sala. Sorrindo, ele exclamou: - Você não terá tempo de dizer mais uma palavra. 
A vida é realmente bela!

2 comentários:

Lena disse...

Muito bom! Gosto demais de ler o que escreve. Bjs,
Lena

Anônimo disse...

Maravilha!!! Newton