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quarta-feira, 31 de maio de 2017

O Manifesto


Meu período de vida como estudante da Universidade de Brasília foi um dos melhores que vivi. Ali vi, ouvi e vivi coisas brilhantes e também absurdas. E lá ia eu caminhando pela Ala Norte do Minhocão quando fui abordado por um estudante de História. Trazia uma folha de caderno nas mãos, um semblante tenso, e grave rosto. Falou-me no tom cerimonioso de quem trata de coisas sagradas. A folha pesava em suas mãos como as palavras de Deus ao ouvido de Moisés. Estava ali para conduzir a salvação de um povo. Meus olhos e meus ouvidos não criam no que viam e muito menos no que ouviam. O sujeito estava me pedindo para assinar nada menos do que um manifesto pelo fim da guerra na Bósnia. Sim, ele queria acabar com a guerra na Bósnia. Não era um manifesto contra o reitor da Universidade, contra os altos preços da cantina ou contra a falta de segurança no estacionamento do Minhocão. O que pretendia aquele papel era, simplesmente, acabar com uma guerra que envolvia os sérvios, os croatas e os bósnios; que era o conflito mais prolongado e violento da Europa desde o fim da II Guerra Mundial; e que em pouco mais de três anos causara cerca de 200.000 vítimas entre civis e militares e 1,8 milhões de deslocados.
A UnB é uma local repleto de mentes brilhantes, de mentes loucas e de mentes medíocres que se acham brilhantes. Sendo que esta última categoria é predominante e, neste caso, eu estava dialogando com um de seus exemplares. Óbvio que assinei. Eu não podia decepcioná-lo. Uma assinatura, um nome e uma matrícula inventados na hora. Antes de partir me olhou novamente com gravidade e agradeceu minha compreensão e adesão. Disse que com aquele gesto eu tinha demonstrado o quanto era inteligente e engajado às causas do meu tempo. Diante de tal cena pensei comigo mesmo: Que merda! Deus tenha piedade deste pobre idiota! E prossegui imaginando os soldados sérvios e croatas recebendo aquele manifesto assinado numa folha de caderno suja e amassada, com o nome de quarenta estudantes universitários da UnB:
- Comandante, veja isso! Chegou agora do Brasil e nos conclama a parar imediatamente com a guerra!
Krajisnik, comandante das tropas sérvias e um dos responsáveis pelo maior massacre de seres humanos depois da segunda grande guerra, olha o papel e pensa com seus botões: Курвин сине! Заслужио сам! Ou seja: Puta que o pariu! Eu mereço! 


8 comentários:

Marcos Canelas disse...

hahahah! A impagável fauna da UnB!

JavalyBranco disse...

E pensar que há tantos jovens que entram pra universidade na eminencia de se tornarem grandes peças para um futuro melhor e nos deparamos com esse tipo de cabeça pensante. O meu maior medo e que dali sai mais cabeças que um dia podem vir a querer governar o nosso pais.
Que DEUS tenha piedade de nós nesse momento.kk

Lena disse...

Só você é capaz de analisar, tão bem, uma situação como essa. Sensacional!
Bjs

REVISTAMINO TERCEIRO ANO disse...

Uffa!!! Não fomos abduzidos.
Rs,rs
Bjs

Neto Geraldes disse...

Muito bom, Canuto. Mais um texto primoroso. Se bem que a tradução de Шта је ово срање? Боже смилуј се овом сиромашне будano seja outra.Você devia ter escrito: Курвин сине! Заслужио сам!

Neto Geraldes disse...

Canuto, esse comentário sobre a tradução foi uma brincadeira. Coloquei no Google Tradutor e saiu aquilo. Mas o teu texto é ótimo.

Osias Canuto disse...

Fique tranquilo, Neto. Como eu também escrevi a Krajisnik numa livre tradução, tanto faz a sua ou a minha. Depois eu mudo por outra, e mais outra, e mais outra.....

Anne disse...

Ahh UnB, não muda nunca!