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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Pássaro da Desilusão


Ivanildo Garrincha e Osias Canuto

Ivaniiildo!!! - gritou o menino enquanto amarrava o calango caçador de insetos com o sol. - Não vamos nadar que o rio tá cansado de hoje. Chegou ontem de longe e vai para amanhã mais longe ainda!
Ivanildo não ouvia direito porque tinha um ouvido moco de tanta sujeira. As abelhas faziam ciência em seu ouvido.
O menino correu atrás do amigo e puxou-o pelo braço antes que mergulhasse. Tinha pressa. Foram vender insetos na feira da cidade. Tinha de todo o tipo. Os melhores eles não vendiam, comiam para ficarem doutores na desutilidade das coisas. 
Tinha gente que comprava inseto para fazer remédio, para rezar ou bruxar, para guardar na caixinha e para fazer barulho na casa. Com o dinheiro dos insetos, Ivanildo e o menino compravam bolas de gude para afrontar os outros garotos, e também compravam camundongos e minhocas para alimentar Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas eles não sabiam o que era isso. Dona Guiomar Coruja era assim chamada porque após comer uma dessas aves, parou de falar e começou a piar.
Ivanildo tinha dois dedos com unha grande para cavar a terra e procurar bicho escondido. O menino tinha três unhas grandes para tocar violão e fazer a noite dormir mais rápido ou o dia nascer mais cedo. Também fazia a tarde cair mais triste ou mais alegre, dependendo do de dentro dele mesmo.
Um dia o menino tocou o violão e Dona Guiomar Coruja piou uma música muito bonita e Ivanildo batucou o bongô de pele de calango e couro de sapo. Ficou tão lindo que a lua ficou parada dois dias e o sol não veio e a cidade ficou desesperada e mandaram prender os três no hospício. Ficaram presos uma semana cantando a mesma música e, dessa vez, foi o sol que não desapareceu. Tiveram que soltá-los para que a cidade pudesse ver a noite novamente, e todos pudessem dormir, namorar, contar estrelas e fazer todas as cosias que só se faz melhor quando tem escuridão.
O menino ficava tanto tempo tocando violão que nasceram uns pássaros azuis dentro do pensamento dele, mas só eram vistos por Ivanildo e dona Guiomar Coruja. Ele tinha muitas idéias boas, mas os pássaros azuis cagavam nas idéias dele e estragavam todas elas. De tantas idéias estragadas teve a idéia de fazer uma música para transformar qualquer coisa em outra coisa diferente da coisa originária: gente em bicho, tristeza em gente, idéia em bicho, nada em gente..... Deu certo. Fizeram muitas transformações e começaram a ganhar bastante dinheiro. Mas achavam o dinheiro de muita desutilidade e transformavam tudo em ratazanas, bolas de gude, estilingue, violão e outras coisas melhores.
Certo dia, o menino e Ivanildo estavam caçando o pássaro da desilusão quando viram um enorme castelo surgido de uma hora para outra no meio da floresta. Entraram e encontraram um rei jovem e triste. O rei lhes explicou que o pássaro que eles estavam caçando era muito perigoso. Contou que a rainha saiu para andar na floresta e viu um pássaro de grande beleza que parecia triste e calado. Quando ela se aproximou o pássaro começou a cantar e ela ficou enfeitiçada pelo canto. O canto era muito bonito e muito triste. Neste momento a rainha foi tomada de enorme desilusão e deixou de acreditar na vida e no amor que sentia pelo rei. Ivanildo e o menino explicaram que, neste caso, a melhor coisa era chamar Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas eles não sabiam o que era isso. O rei, então, mandou que um de seus súditos fosse à cidade buscar Dona Guiomar Coruja. Quando ela chegou, começou a piar e Ivanildo traduziu para o rei o que ela estava piando. Explicou que a única maneira de resolver o feitiço era o menino capturar o pássaro da desilusão em sua cabeça e cantar uma música para a rainha triste. O rei pediu que eles voltassem até a floresta em busca do pássaro da desilusão. Dona Guiomar Coruja, que tinha ciência de hospício, mas o menino e Ivanildo não sabiam o que era isso, impôs uma condição: para que ficasse claro de que se tratava de um caso de amor verdadeiro, o rei teria que abrir mão de todo seu reino, passando sua coroa para o homem mais humilde do local. O rei ficou surpreso e assustado com a ciência da proposta, mas achou que havia nela enorme coerência, e aceitou. Acordo firmado, os três partiram para a floresta.
Caminharam quase um dia inteiro pela mata até encontrar o pássaro da desilusão. Ivanildo, armado de estilingue, acertou o bicho antes que ele começasse a cantar. Depois o segurou ferido e o menino tocou a música de transformar qualquer coisa numa outra coisa diferente da primeira coisa, e transformou o pássaro da desilusão num pássaro azul igual aos de dentro dele mesmo. Quando retornaram ao castelo já era noite e o rei ainda os esperava acordado e ansioso. Pediu que trouxessem a rainha triste a fim de que ouvisse o menino cantar. Dona Guiomar Coruja, Ivanildo e o menino ficaram muito impressionados com a desbeleza da rainha. Mas sabiam que o amor tinha dessas coisas. Se o rei gostava dela, para eles era o bastante. Não foi sem dificuldades que o rei a convenceu a ouvir a música. Sem muita delonga o menino pegou o violão e tocou uma canção hemorrágica vinda do secreto das veias, arrancada de um rio de lama, de sangue e de vida. Os pássaros azuis do de dentro dele mesmo ficaram agitados a ponto de todos poderem vê-los. Quando terminou, depois de um minuto de silêncio e expectativa, a rainha correu direto para os braços do rei. Os dois partiram sem muita explicação, deixando o castelo, o reino e tudo o mais sem importância para quem quisesse.
O menino estava muito cansado. Dona Guiomar Coruja e Ivanildo ajudaram-no a levantar-se e foram os três de volta para casa. Os pássaros azuis do de dentro dele mesmo cagaram todo o castelo e na cabeça de todas as pessoas. 
Ivanildo abriu os olhos. Percebeu que toda essa narrativa foi só uma coisa estranha que aconteceu na cabeça dele enquanto dormia durante o descanso da caçada. Esqueceu momentaneamente o pássaro da desilusão e chamou o menino para irem jogar bola de gude. Porque menino muda de uma coisa para outra e de outra para uma e lembra e esquece muito rápido.
- Ivaniiildo!!! gritou o menino enquanto amarrava o calango caçador de insetos com o sol. - Vamos embora que tem muito movimento na cidade!
Ivanildo não ouvia direito porque tinha um ouvido moco de tanta sujeira. As abelhas faziam ciência em seu ouvido. O menino correu atrás do amigo e puxou-o pelo braço antes que ele atirasse com o estilingue no pássaro da desilusão. Tinha pressa. Foram ver o circo que estava chegando à cidade. Mas isso é outra história....
A vida é realmente bela!

5 comentários:

Rui disse...

Meu amigo, que droga poderosa é essa que você usa?

Rafael disse...

Dona Guiomar Coruja! Fantástico!

Anônimo disse...

Pultaqueoparil!

welcio disse...

Dukaralhooo!!!
Viagem fantástica rumo ao puro pueril...
É isso aí Garrinha.

Lena disse...

Que "viagem"!

Bjs