Páginas

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Chico Buarque dos Desencontros

- Alô? - “A sua lembrança me dói tanto, eu canto pra ver se espanto esse mal.....” - Quem tá falando? - “Mas só sei dizer um verso banal. Fala em você, canta você, é sempre igual...”
Houve uma época em que os telefones sabiam guardar segredos. Não havia bina ou celulares, e uma mulher podia receber ligações apaixonadas de um desconhecido. Hoje, os telefones odeiam os amores secretos. São insuportavelmente indiscretos e mal amados. Naquela época tínhamos a cumplicidade da telefonia. Éramos quatro ou cinco amigos. Fazíamos dezenas de ligações, e em todas elas eu tocava sempre a mesma música. Jamais alguma das mulheres desligou. Todas ouviam até o fim a canção Desencontro, de Chico Buarque.
Cada um de nós tinha direito a escolher uma mulher para quem ligar. Minha função era tocar e cantar. Os outros escolhiam as mulheres, ligavam e ficavam na torcida para que elas não desligassem antes do fim da canção. A curiosidade feminina não lhes permitia desligar. A maior parte delas ouvia no mais absoluto silêncio. Algumas poucas não conseguiam ouvir até o fim sem perguntar várias vezes quem era. - Alô? - “Sobrou desse nosso desencontro um conto de amor sem ponto final...” - Quem tá falando? - “Retrato sem cor jogado aos meus pés...” - Faaala!! - “E saudades fúteis, saudades frágeis, meros papéis...” De nada adiantava perguntar. Não obtinham nada além da canção. No final apenas desligávamos. Era verdadeiramente lindo. A loucura era tanta que, quando não tínhamos mulheres específicas para quem ligar, simplesmente abríamos a lista telefônica e escolhíamos um nome feminino qualquer. Neste caso, inclusive, eu podia estar cantando para alguma senhora com idade para ser minha avó, ou mesmo para um travesti: - Alô? - “Não sei se você ainda é a mesma...” - Não, não, eu mudei bastante, você não me reconheceria mais. Ou então, para algum pai descontrolado de ciúmes: - Alô? - “Ou se cortou os cabelos, rasgou o que é meu...” - Vou te rasgar é de faca, seu vagabundo! Absurdos a parte, assim corriam nossas noites, entre desencontros, whisky, telefonemas e o violão.
Fico agora imaginando o que se passou na cabeça de cada uma das mulheres para quem ligamos. Considerando que todas ouviram até o fim, suponho que tenham gostado. Sendo assim, quantas devem ter perdido a noite imaginando quem seria o apaixonado? Quantas se viram subitamente recuperadas de alguma desilusão amorosa? E quantas não devem ter caído doente com febre e tremores? Não sei a quantas delas fizemos bem ou a quantas fizemos mal. Não sei se Chico Buarque e seu Desencontro funcionariam nos tempos atuais. Não sei de nada. Sei apenas que cantei milhões de vezes Desencontro sem ter a mínima idéia de quem estava do outro lado da linha. E repito: nenhuma jamais desligou. - Quem tá falando? Por favor, quem tá falando? - “ Se ainda tem saudades e sofre como eu, ou tudo já passou, já tem um novo amor, já me esqueceu.”
A vida é realmente bela!

                                           


                                           

5 comentários:

Tatiana Lima disse...

Ah, meu amigo... você tem o poder de mexer com a memória da gente.
Nem preciso te parabenizar por seus fantásticos textos, apenas agradecer.
Saudades dos nossos papos descompromissados.
Beijo!

Sandra disse...

Maravilhoso!! Pena que eu não recebi nenhuma ligação!!

lena disse...

Cada vez que escuto e leio o texto, me emociono e fico com ciúme das mulheres que receberam o "trote". Maravilhoso!
Vc é demais!
Bjs,
Lena

Joana Gouvêa disse...

Sim, a vida é bela! Eu também não desligaria. E meu dia seria lindo!

Michelle Loretto disse...

Linda canção. Lindo texto. Linda voz. Linda interpretação.