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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sparks Steak House - NY


A Sparks Steak House, situada na 210 East 46th Street entre a Segunda e a Terceira Avenida, serve uma carne de indiscutível qualidade. Seus filés chegam ao tamanho de 15 onças que, convertido para grama, dá algo em torno de 450 gramas da mais suculenta carne. Isso é muito mais do que o dobro do que se costuma servir em um bom restaurante nos Estados Unidos. Bons e fartos pratos de salada. O filé pode ser acompanhado de um molho Roquefort bastante espesso e também muito saboroso. A enorme baked, ou jacket potato, que acompanha o filé, é servida com o molho à parte, sem economia. Pesou sobre mim a derrota de não conseguir comer todo meu quinhão. Mas não foi por isso que a Sparks Steak House tornou-se famosa, e sim, pela história que agora contarei aos senhores.
Diz a lenda que, certo dia, o mafioso Sammy Gravano perguntou ao seu chefe, John Gotti, se ele não ficava aborrecido de caminhar pelas ruas de New York sendo vítima dos olhares curiosos de todos. Gotti teria respondido que aquele era o seu público e que eles o amavam. Assim era o último poderoso chefão da família Gambino, um exibicionista. Foi o primeiro chefão a se lambuzar e explorar sem medo a subserviência da mídia.
John Gotti andava sempre vestido em caríssimos e elegantes ternos e gravatas de seda pintadas à mão. Revertia todas as situações adversas a seu favor. Como escapava de todos os processos, sem que lhes “grudassem” as provas, recebeu o apelido de Teflon. Cada julgamento que não o prendia o tornava mais poderoso, arrogante e famoso. Em 1985, quando era apenas um dos chefes da família, percebeu que tinha cometido um grande erro ao permitir uma acusação por tráfico de drogas. Paul Castellano, então Big Boss dos Gambino, não autorizava o tráfico de drogas, pois atraia demasiadamente a atenção do FBI. Gotti se deu conta de que aquele poderia ser o seu fim e, antes que Castellano o mandasse matar, foi à guerra.
Paul Castellano, ou Big Paul, como era conhecido, era amante da boa comida e passava suas noites nos bons restaurantes de New York. Sabendo disso, Gotti o aguardou na porta da Sparks Steak House, o restaurante preferido do Chefão. Estava ansioso. Alisava o terno num impossível processo de torná-lo mais lustroso e mais vistoso. Pergunta várias vezes pela hora. Reclama do atraso de Castellano. Sammy Gravano tenta acalmar o chefe. Um carro da polícia passa lentamente diante deles e faz John Gotti esbravejar. O carro com Paul Castellano aponta na esquina. Gotti ordena que atirem assim que possível. A porta do carro se abre e dele desce Thomas Bilotti. Big Paul vem logo em seguida.
Nova Iorque é particularmente linda à noite. Big Paul olha o céu de neon e sente-se aliviado pelo fim de um julgamento exaustivo. Imagina que se sentará e comerá em torno de um bom vinho, do ambiente discreto, da simpatia dos garçons e da conversa amiga de Bilotti. John Gotti não deseja nada disso. Está no limite entre o céu e o inferno. Ordena o crime. Uma chuva de balas clareia ainda mais a cidade. Big Paul está morto, antes mesmo que entrasse para jantar. A suprema crueldade. A negação de um prato de comida, de um último prazer. A ousadia e perversidade de John Gotti lhe garantiram a ascensão ao posto de chefia da família Gambino, enquanto a Sparks Steak House tornava-se subitamente famosa.
Terminado o meu almoço, na saída estive parado na porta, desafiador e esperando os tiros provindos de algum veículo sombriamente estacionado. Como Joe Pesci, na famosa cena de Jimmy Hollywood, em que abandona o cinema com um revolver descarregado e troca tiros com a polícia, apalpei meu corpo. Nada. Estava intacto. Nenhuma perfuração de bala. Senti a presença de Castellano ao meu lado e pus-lhe a mão sobre o ombro a fim de consolá-lo. Trocamos algumas palavras sobre a ousadia e grandeza dos seus inimigos e a mediocridade e frouxidão dos meus. Acenei para o Táxi e fui embora pensando em Big Paul. Um morto de barriga vazia, sem recheio. Um cão velho de vitrine, sarnento e faminto, sonhando com a carne da Sparks.
A vida é realmente bela!

4 comentários:

Marcelo Barbosa disse...

Parceiro, vc tem consciência de que és completamente desequilibrado né? Que bom....

KKKKKKKK!!!!

Grande abraço meu amigo. Saudades.

Marcos Canelas disse...

Depois de ler esta história, quando eu for para NY, já está anotado como obrigatório um almoço na Sparks. Abraços.

Walter Figueiredo disse...

Osias, de passagem por NY fui ao Sparks só por causa dessa sua crônica. Devo dizer que não consegui comer sem ficar pensando o tempo todo em Big Paul. Texto perfeito o seu. Muito Obrigado. Comida maravilhosa.

Carlos Praxedes disse...

Que texto espetacular Osias!! Tava procurando sobre a Sparks e aprendi, de graça, a história oculta. Agora é que eu vou mesmo. Mas ouvi dizer que é bastante caro!