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quinta-feira, 6 de julho de 2017

O Grande Livro das Drogas


A porta estava trancada e movia-se numa dança frenética, enquanto mulheres lindas tentavam puxar os rapazes de volta ao centro do turbilhão. Led Zeppelin a todo volume. “Since I've been loving you, I'm about to lose my worried mind”. O pequeno apartamento estava lotado. A suprema trilogia: Sexo, Drogas e Rock and Roll. Era uma espécie de Woodstock indoor. Entre os presentes, Sid Vicious, Ornella Muti, Angelina Jolie e Jimmy Page, que nesta época estava morando em Lençois, na Chapada da Diamantina - Bahia. Mas, ao mesmo tempo em que a agitação aumentava, as evidências de que algo daria errado também se mostravam maiores. Os anfitriões, por fim, conseguiram livrar-se do assédio sexual das lindas mulheres presentes e saíram de bicicleta. Mal começaram a pedalar e já se depararam com o teatrólogo Shakespeare.
- Você está certo disso?
- Sim. É ele. Conheço Shakespeare e toda sua obra.
Não havia dúvida, era ele: Shakespeare. Mas o que estaria Shakespeare fazendo num domingo à tarde na 408 Sul?
Na época era moda o famoso título “O Grande Livro”. Existia de todo tipo: O Grande Livro das Aves, O Grande Livro dos Carros, O Grande Livro do Futebol, etc. Dispostos a ficar milionários, ou ao menos mais alucinados do que já eram, decidiram os dois amigos escrever O Grande Livro das Drogas. Decisão tomada, mãos à obra.
Em um pequeno espaço de tempo fizeram uso de uma série de produtos mais ou menos lícitos, e outros tantos absolutamente ilícitos. Para finalizar, um comprimido de Neosaldina e uma dose de Biotônico Fontoura. Após a ingestão destes ingredientes literários e alucinógenos perceberam que as paredes do pequeno apartamento começaram a movimentar-se. Mulheres nuas executando a dança do acasalamento. A festa estava começando e os convidados apareciam de todas as partes. Entravam pela janela, subiam pelo ralo da pia, emergiam do vaso sanitário.
Os vizinhos já estavam acostumados com as eternas confusões daqueles dois. É mesmo provável que alguns deles morressem de inveja e desejassem participar, mas, desta vez, a coisa parecia fora de controle. Tanto era assim, que os amigos pegaram suas bicicletas e fugiram imediatamente. Foi neste momento que se depararam com Shakespeare. Aproximaram-se e perguntaram o que ele estava fazendo ali na 408 Sul. Para surpresa de ambos, o genial autor respondeu que estava encenando a primeira peça do Grande Livro das Drogas. Incrível!!! O livro mal começara a ser escrito e já estava sendo usado por ninguém menos que Shakespeare. Os amigos se abraçaram emocionados com o sucesso imediato e a possibilidade clara de incontáveis lucros. Vários artistas circulavam pela quadra agindo sob as ordens do genial autor. Uma confusão descomunal. Novamente os dois rapazes foram obrigados a fugir.
Pedalaram pelas quadras da Asa Sul atravessando desertos e pântanos, até que se depararam com um grande rio que tinha inundado a avenida W3. Carros e corpos passavam diante de seus olhos sendo arrastados pela correnteza. Ficaram por um tempo em estado letárgico vendo o rio correr, até que um deles lembrou-se da bíblica travessia do Mar Vermelho e resolveu tentar algo semelhante. Deu certo. Atravessaram a avenida contando, dizendo e maldizendo os corpos que passavam carregados pelas águas. Naquele domingo, no distante mundo de uma Brasília já perdida, seguiram os dois amigos pedalando e vivendo aventuras inenarráveis e irrecuperáveis pela memória deste que vos escreve. Lembro apenas que, esgotados por tantas aventuras, pararam na Pizzaria Dom Bosco e se alimentaram fartamente enquanto aguardavam que o mar secasse.
De volta a 408 Sul, Shakespeare tinha ido embora com toda sua trupe, e O Grande Livro das Drogas ficaria para sempre interrompido no primeiro, único e maravilhoso capítulo. Até porque, convenhamos, é pouco provável que os autores sobrevivessem a um segundo episódio desse estrondoso sucesso da indústria narco-literária.
A vida é realmente bela!

6 comentários:

Paulo disse...

lisérgico...(depois de 5 tentativas, consegui digitar a palavra corretamente)

Rafael disse...

Muito bom!

histórias da juventude...

Anônimo disse...

Aquela maré ainda não baixou, mas faz tanto tempo que a gente acostuma com os sapatos molhados

Lena disse...

Bons tempos para recordar...

Bjs

Raul Benevides disse...

Pena que eu não participei dessa fantástica tentativa de escrever esse livro!!!

Camarões disse...

Fico Feliz que tenho muitas lágrimas para derramar.