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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Fila Night Run


Conta a lenda, que no ano de 490 a.C., soldados gregos deixaram Atenas rumo à planície de Marathónas a fim travar guerra contra os persas. Estes últimos haviam jurado que, vencida a batalha, iriam até a capital grega para violar as mulheres e matar as crianças. Assustados, os atenienses ordenaram a suas esposas que se no espaço de um dia não chegasse notícia de sua vitória, matassem seus filhos e, em seguida, se suicidassem. Os gregos conseguiram a vitória, mas a luta durou mais tempo que o previsto e eles ficaram com medo que elas dessem conta do combinado. Preocupado, o general Milcíades ordenou ao soldado Filípides que corresse os 42 km até Atenas para dar a boa notícia. Filípides cumpriu a ordem, mas ao chegar disse apenas "vencemos", e caiu morto.
A corrida Fila Night Run é realmente um espetáculo. Minha esposa, com sua profunda sabedoria e desconfiança, não permite que eu compareça sozinho ao local. Moças e senhoras muito bonitas e distintas, todas devidamente maquiadas, completam a prova de 5 Km no assombroso tempo de 50 e muitos minutos, ou seja, tempo suficiente para dar duas voltas ao mundo. Fico me perguntando o que estas elegantes criaturas fazem durante o percurso? Quem saberá?
Vamos aos fatos. Chegando lá já encontro um amigo de infância.
– Ainda não parei de fumar. Tá complicado. Hoje só vim para passear e ver as mulheres. Será que você não pode me conduzir para que eu faça os 5 km em 30 minutos?
Considerando o número enorme de atletas que tem a prova decido que não é uma má idéia ajudá-lo em tal propósito.
– Ok. Eu dito o ritmo.
E lá vamos nós. Tudo muito lento. É uma quantidade infinita de gente que pretende largar e chegar sem estragar o cabelo ou a pintura. Não posso atrapalhá-los. Ninguém tem obrigação de se inscrever numa corrida para correr.
Meu colega parece satisfeito com o ritmo. Olha para um lado e para o outro resfolegando e admirando a paisagem. Na altura do segundo quilômetro o primeiro posto de água. Meu amigo está muito cansado. Arrastando-se no deserto clama por água. Digo-lhe que continue correndo, andando, sei lá, e pego um copo para ele. Antes que eu possa alertar que deve apenas molhar a boca ele toma tudo e vejo que seus olhos pedem mais. Porém, diante do posto de água travava-se uma verdadeira batalha. Todos avançam como se fora um oásis no Saara. Corpos se movem em flagelo implorando o líquido precioso que irá salvá-los. A maioria pega mais de um copo. Vendo aquela luta desesperada após apenas dois quilômetros de corrida lembro-me da história das maratonas. Naquele instante, dezenas de Filípides já ameaçavam cair mortos em pleno deserto da Esplanada. Apesar dos tênis de alta performance e dos modelos adequados de shorts e blusas, se dependesse destes guerreiros e guerreiras teria ocorrido uma tragédia em Atenas. Felizmente tratava-se apenas de uma corrida de final de semana, e todos estávamos ali somente por diversão.
Prosseguindo, nos deparamos com novo obstáculo. Lá vinha uma senhora correndo com seu cachorrinho. Corretíssimo. Uma corrida de rua é perfeita para que você leve seu cachorro. Ainda mais se ele for minúsculo. A madame estava desesperada tentando que ninguém pisasse o animal. Não sei se conseguiu o feito, pois me deparei com ela no quilômetro três. Um encontro nada agradável. A coleira do ultrajado cão enganchou-se nas pernas do meu amigo, não o levou ao chão, mas o derrubou. Tentou usar o acontecido como um pretexto para desistir. Não permiti. Enfim, entre trancos e barrancos apontei a ele as luzes da reta final. Terminamos o desfile dentro do tempo planejado.
Superado o estranhamento e já imbuído do espírito da prova planejo para o próximo ano executar a corrida de uma forma mais apropriada. Talvez eu corra de costas ou num pé só.
A vida é realmente bela!

3 comentários:

Anônimo disse...

excelente crônica! Parabéns também pela corrida :)
At. Marcelo Fenoll.

Welisson Melo disse...

És uma figura rara ! Atrevo-me a qualifica-lo e compara-lo ( com a devida permissão do grande matemático grego, Euclides-360aC ) com o número 2 por ser o único número par e primo, eis aí a unicidade de ambos !!!(rsrs).

Welisson Melo

Marcão disse...

Você é uma figuraça!!!! kkkkkk Imagino as beldades mais preocupadas em não estragar a maquiagem do que em correr.