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domingo, 9 de março de 2014

Domingo, Pé de Cachimbo


"Hoje é domingo, pé de cachimbo." Se você não estranhou a frase anterior é um ótimo sinal. Você teve uma infância maravilhosa. Não estou aqui para destruir as boas lembranças de ninguém, mas, pense bem: você já viu um pé de cachimbo? Nem eu, mas procurei durante toda a minha infância. Vivia perseguido pelo tal pé, que buscava em todos os quintais sem jamais encontrá-lo. Os quintais insistiam em me desmoralizar e me fazer mentiroso. Neles eu encontrava pé de tudo quanto é coisa: de caju, de banana, de jambo, mas nunca o mais valioso de todos: o sonhado pé de cachimbo.
Cresci com a memória da minha incompetência em achar um pé de cachimbo. Vivi feliz com ela até o exato momento em que um amigo me revelou o que para mim seria uma tragédia: “Hoje é domingo, pede cachimbo”. Pede? Como assim? Maldito domingo. Maldito domingo que pede cachimbo. Que pede o sentar-se descansadamente com o aparato de madeira, osso ou sei lá o que mais entre os lábios. Pede, do verbo pedir, presente do indicativo, terceira pessoa do singular. O domingo pede cachimbo. Pede cachimbo. Por que, domingo? Não podias ter pedido um cigarro? Um suco gástrico? Um chinelo? Por que me traíste? Eu que te amava tanto. Que em tuas manhãs e tardes fazia nada e procurava pés de cachimbo pelos quintais, enquanto o mundo, lá longe, muito longe, se acaba nas insuportáveis intrigas de adultos. Por que me traíste pedindo? Pedindo o miserável cachimbo? Desculpe-me amigo leitor se você agora também se sente enganado, mas não vou carregar sozinho o peso de tamanha desgraça.
Essa história toda provocou em mim violenta reação: retornei indignado e com toda força da minha insanidade, tantas vezes comprovada, à busca frenética do pé de cachimbo. Se alguém achar antes de mim, me avise.
Para mim, hoje ainda é “domingo, PÉ de cachimbo”. E que se dane o outro domingo, o domingo infeliz, que com sua falta de criatividade se arrasta pedindo coisas e destruindo memórias.
A vida é realmente bela!

7 comentários:

Lara Weber disse...

Olá!!! Eu acabei de passar por isso! Escrevi "pé de cachimbo" e minha amiga me corrigiu! Meu mundo caiu!!! Mas depois eu ri muito!!! E veja que irônico hoje é domingo! Não não, o domingo não terá seu cachimbo jamais!!! Domingo, mal!!!

Osias Canuto disse...

Mas agora que você já sabe, não corrija ninguém. Assim, sem ter a quem pedir cachimbo, talvez o domingo pare de fumar e volte a ser o domingo com "pé de cachimbo".

Leila Miccolis disse...

Osias, que texto delicioso. Tenho um portal cultural - Blocos Online -, você autoriza divulgá-lo nele?
Leila Míccolis

Osias Canuto disse...

Fique à vontade Leila. Obrigado pelo comentário.

Lena disse...

Facilitaria a vida de algumas pessoas um "pé de cachimbo"...

Bjs

Guilherme disse...

Bem, minha mãe acaba de esclarecer: pé de cachimbo é referente ao tubo do cachimbo, ou seja, o pé DO cachimbo... E agora José, para onde?

Jacqueline Daltro de Carvalho disse...

Olá, Osias

Hoje é domingo de sol lindíssimo e eu estou às voltas com estudos do mestrado sobre literatura infantil. Fiquei, então, emocionada com seu texto. Lembrei de minha infância e de minha mãe que já se foi. Como "são belos os dias do despontar da infância/ respira a alma inocência, como perfume a flor".
Quem foi o louco que usurpou o pé de cachimbo? Provavelmente alguém que nasceu de um ovo no meio do deserto, sem infância e que depois chega, tentando destruir a dos outros.
"Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir, tenho tanto pra contar, dizer que aprendi" que não há nada mais maravilhoso que um domingo com pé de cachimbo. Um pé que nos conforta e sustenta com sua copa frondosa e raízes firmes por toda nossa vida.
Jacqueline Carvalho