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sexta-feira, 19 de junho de 2015

Zort - Último Ato

A moça loira desce do carro e tentar acordar o sujeito que ela atropelou. É ruivo e de nariz achatado como os boxeadores. Talvez já o tenha visto em algum lugar, mas supõe que ele está morto e foge. No dia seguinte consulta os jornais buscando a morte e nada encontra. Decide ir até o hospital mais próximo do acidente e lá encontra o ruivo. Fica sabendo que ele não tem família e precisa de cuidados especiais. A moça resolve que cuidará dele no hospital. Fará isso tirando aproveito das regalias que tem, pois o local pertence ao seu irmão, com quem mora numa enorme e cinematográfica mansão. Vai diariamente ao hospital e cuida do ruivo limpando as feridas de seu rosto e corpo com algodão. Mas sabe que de nada adianta. Em poucos dias Zort estará morto. A moça loira não suporta o peso dessa morte.
Zort acorda num novo dia e vê os olhos da moça refletidos no teto. Parece estar deitada na mesma posição que ele. Olha para mim e pergunta o que está acontecendo. Por que a moça está ali deitada e imóvel como ele?
A moça loira permaneceu por dois anos indo diariamente ao hospital acompanhar Zort. Chega sempre à tarde e lá fica até altas horas. Certo dia, depois de longa noite em claro ao lado de Zort, volta para casa em alta velocidade. O Ruivo, como sempre, segue a moça loira. Curvas e mais curvas até que perde o controle do carro e capota várias vezes. O Ruivo corre em seu auxílio. Parece morta. É levada ao hospital mais próximo.
Quando começa um novo dia? Zort não sabe. Todos os dias parecem ser o mesmo. Não fossem minhas aventuras, seria impossível distinguir os dias.
Hoje a moça estava triste quando fitou os olhos. Algo como um pedido de desculpas parecia estar sendo insinuado. Zort não se lembra se ela esteve desde sempre, mas todas as lembranças remontam a ela. Agora não pode mais cuidar de Zort. Precisa de cuidado. Zort está morto.
O Ruivo vem todos os dias e sorri. A moça loira não sorri nunca. Acompanha o movimento dele com os olhos. Só os olhos possuem movimento em seu corpo. Se é que existe um corpo. A moça não tem certeza, nem eu. Mas é possível que haja, do contrário o Ruivo não viria todos os dias, nem perderia tanto tempo ao lado dela. Parece que limpa cuidadosamente alguma coisa. Um corpo, talvez. Só é possível vê-lo quando passa na pequena área que os olhos cobrem. O mundo se reduz a um teto branco, um fundo branco onde ocorrem aparições de um rosto. Mãos também aparecem e desaparecem. Mãos que pertencem ao rosto, ao Ruivo. Transportam algodão em pequenos pedaços. O algodão chega branco como o teto, e volta numa cor meio amarelada, às vezes vermelha. Sei que as mãos são carinhosas porque tocam o rosto com carinho. O mais que tocam quando estão aqui, também pertence aos olhos. Deve pertencer, ou então o Ruivo não sorriria para os olhos enquanto trabalha. Esse raciocínio satisfaz a moça loira. Talvez seja seu corpo.

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