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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Zort - II

Agora ela pára diante do salão e desce abandonando o carro aberto. Como um animal pertencente ao topo da cadeia alimentar, não tem o que temer. O homem resolve esperar por sua volta. Após algumas horas uma loira entra no carro da mulher de cabelos negros. É também muito bonita. O homem fica indeciso, mas resolve segui-la como se ela fosse a mesma pessoa que estava esperando. Aliás, pelas características do corpo e do rosto, o homem tem certeza de que se trata da mesma pessoa.
O automóvel segue em direção ao bairro mais nobre da cidade, e só agora o homem percebe que está seguindo um carro inacessível à maioria dos mortais. A loira segue fazendo curvas em alta velocidade, não porque saiba que está sendo seguida, mas porque gosta de correr. De repente, alguma coisa faz com que ela dê uma freada brusca. O homem, que devido ao seu cabelo vermelho vamos chamar daqui em diante de "Ruivo", reduz a velocidade até parar. A loira desce do carro, está assustada. O Ruivo estica o pescoço para tentar observar melhor o que se passa. Vê que a loira atropelou um homem e está ajoelhada ao lado dele examinando o corpo imóvel. Levanta-se e olha em todas as direções, parecendo querer certificar-se de que ninguém viu o acidente. Depois entra no carro e foge em disparada.
Zort me olha meio decepcionado quando interrompo a narrativa. Estou com sono. Hoje o dia foi cansativo para os olhos, a moça não apareceu e isso provoca uma sensação desagradável de desamparo. Sempre que ela não vem, o dia fica infinitamente mais longo. Pobre Zort, não é fácil a vida reduzida a permanente imagem de uma tela quase sempre em branco. Se a moça soubesse o quanto é importante nunca deixaria de vir.
A moça loira supõe que ninguém viu o acidente e foge. Foge para casa. Entra mais assustada e pálida do que o normal. Os empregados, no entanto, nada percebem, estão acostumados com seu comportamento estranho.
Abre a porta do quarto quase vazio devido ao seu tamanho descomunal, e corre para uma réplica de Salvador Dalí. Retira-o do local, parece procurar algo que para seu desespero não se encontra ali. Inicia uma busca frenética por todo o ambiente. Revira almofadas, livros, outros quadros, tudo. Só depois de bastante procurar, lembra-se da própria bolsa. Desfaz um pequeno embrulho de plástico contendo um pó branco. Derrama o conteúdo em cima do vidro que cobre um dos quadros e, com o auxílio de um cartão de banco, separa tudo em seis pequenas carreiras. Fica olhando as linhas brancas por um tempo. Derrama tudo no chão e sai novamente.
O Ruivo segue o carro da moça loira mais uma vez. Ela volta ao shopping e ao cafezinho do qual é a dona. O Ruivo não consegue estabelecer a relação entre ser proprietária de um café num shopping e possuir uma mansão. Certamente não era do café que vinha o dinheiro para a vida abastada que a moça levava. Talvez fosse casada. Talvez o marido fosse muito rico e apenas montara aquele café para que ela tivesse uma distração. O Ruivo aproximou-se e pediu um café. Pela primeira vez a moça demonstrou conhecê-lo como cliente assíduo. Sorriu, também pela primeira vez. Devia estar nervosa pelo atropelamento e agora tentava ser simpática com todos, pois se sente culpada e precisando da compreensão de cada um que encontra. Entrega a ficha do café ao Ruivo e novamente apresenta o olhar distante dos cegos.
Zort está gostando da história, mas sente-se um tanto cansado. A moça continua sumida. Pode ter se metido em alguma situação difícil que esteja impedindo sua presença. Zort precisa descobrir e ajudá-la. Continua......

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