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terça-feira, 9 de agosto de 2016

Zort - I

Dentro de poucos dias Zort estará morto. Preciso visitá-lo. A moça vem todos os dias e sorri. Zort não sorri nunca. Acompanha o movimento dela com os olhos. Só os olhos possuem movimento em seu corpo. Se é que existe um corpo. Zort não tem certeza, nem eu. Mas é possível que haja, do contrário a moça não viria todos os dias, nem perderia tanto tempo ao lado dele. Parece que limpa cuidadosamente alguma coisa. Um corpo, talvez. Só é possível vê-la quando passa na pequena área que os olhos cobrem. O mundo se reduz a um teto branco, um fundo branco onde ocorrem aparições de um rosto. Mãos também aparecem e desaparecem. Mãos que pertencem ao rosto, à moça. Transportam algodão em pequenos pedaços. O algodão chega branco como o teto, e volta numa cor meio amarelada, às vezes vermelha. Sei que as mãos são carinhosas porque tocam o rosto com carinho. O mais que tocam quando estão aqui, também pertence aos olhos. Deve pertencer, ou então a moça não sorriria para os olhos enquanto trabalha. Esse raciocínio satisfaz Zort. Talvez seja seu corpo. Zort não sabe, mas eu sei para que serve um corpo. Serve para tudo. Não é possível desprezá-lo. Foi necessário que ele estivesse desde sempre para que um dia eu fosse esta consciência. Não existo antes dele e não existirei depois.
Preciso sair agora, e embora Zort nunca possa me acompanhar, gosta quando saio. Gosta que eu lhe conte tudo o que fiz durante o dia. Espera pacientemente que eu termine minha narrativa e depois diz que sou louco, que nada do que lhe contei ocorreu de fato. Creio que ele me vê como um apêndice absurdo de si mesmo. Único vínculo com um mundo inacessível.
Voltei, como já vinha voltando há certo tempo. Um mês, dois, um ano. Não me lembro. Sei apenas que fiquei alguns dias afastado e me achei extremamente lúcido e sensato. Não valia à pena. Não daria certo. Minha vida sempre fora uma sucessão de erros, mas a maldita esperança de que não se pode fracassar sempre me fez voltar. A prova definitiva da minha idiotice.
A moça me olhou todo o tempo em que estive mexendo em meu bolso à procura do dinheiro. Talvez ela gostasse de mim, mas fosse tímida, e se aproveitava daquele momento em que eu me encontrava indefeso para me olhar detalhadamente. Olhava meus cabelos avermelhados, meu nariz achatado, minha boca diminuta quase sem lábios, minhas orelhas de abano, meus olhos castanhos. Talvez sonhasse comigo durante a noite. Talvez no sonho eu viesse correndo, porque eu parecia estar sempre apressado. Mas ela não se importava com isso. Achava até bom. Achava que andando daquele modo eu assumia um ar esquivo que me tornava diferente dos outros homens. Por alguns instantes acreditei nisso, depois mudei de idéia. Possivelmente ela me odiava e não estava me olhando enquanto eu procurava o dinheiro. Apenas olhava um ponto qualquer, e achava irritante as pessoas que enfiam as notas de qualquer jeito no bolso e depois não conseguem encontrar as que necessitam.
Achei. Olhei-a nos olhos enquanto lhe estendia a mão com o dinheiro. Não me odiava. Não tinha o olhar de quem me odiava, mas também não tinha olhar nenhum. Tinha apenas uns olhos que olhavam sem olhar, como o dos cegos. Talvez fosse cega e tivesse aprendido a reconhecer o valor das notas pelo tato. Agora era eu quem a analisava enquanto ela manipulava as teclas da máquina registradora. Os cabelos loiros mostravam uma raiz de cor preta, denunciando a pintura. Tentei imaginá-la de cabelos negros dirigindo o automóvel em direção ao salão. Um homem no veículo ao lado acha que ela é bonita. Gosta dos cabelos pretos, que contrastam com a pele branca, gosta do rosto de feições delicadas. Pode segui-la tranquilamente, pois a maioria das mulheres usa o retrovisor voltado para si mesma. Continua.......

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