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segunda-feira, 24 de abril de 2017

Tristão e Isolda


Diz a lenda que Manuel Maria Barbosa du Bocage, poeta português, certa vez recebeu de autor desconhecido um soneto. O pretenso artista solicitava a Bocage que revisasse a obra. Bocage, após leitura do referido, considerou-o tão ruim que nada anotou, e para justificar-se emitiu a famosa sentença: “a emenda sairia pior que o soneto”.
Algumas idéias são tão imbecis que estão fadadas ao fracasso logo ao nascer, e jamais deveria ser permitida a hipótese de testá-las.
O amigo estava apaixonado por uma moça chamada Isolda. Inspirado pela história de amor e morte vivida pelo cavaleiro cornualho e pela princesa irlandesa teve ele a brilhante idéia de dizer à moça, por quem andava morto de amores: “ Isolda, você já encontrou seu Tristão? ” Péssimo. Terrível. Alertei-o acerca da burrice intrínseca neste questionamento.
– Não faça isso. É muito arriscado. Se os pais lhe deram o nome Isolda é porque são sabedores e admiradores da obra. Ninguém batiza uma filha com tal alcunha sem que tenha no batismo um mistério literário. Certamente já contaram a ela a história de seu nome, e ela mesma já leu a história. Se tem em torno de vinte anos é provável que já tenha ouvido essa gracinha ao menos umas duzentas vezes.
Percebi que minha advertência tinha sido inútil. Meu amigo tinha o olhar do assassino que não pode evitar o crime, por mais fadado ao fracasso que ele seja. No dia seguinte já tinha cometido o equívoco amoroso.
– E então?
– Ela deu um sorriso amarelo e disse que eu era idiorepetício. Não sei o que significa.
– Também não sei. Talvez nem exista tal palavra e ela a criou em sua homenagem ou detrimento. Mas imagino que seja o nome dado ao sujeito que comete uma idiotice já antes cometida por outros iguais a ele. Eu avisei!
– Eu sei. Vou me matar.
– Não faça isso. Se você se matar estará tentando a salvação pela reprodução parcial do final da obra literária. A emenda sairá pior que o soneto. Ela irá desprezá-lo além túmulo.
Separamo-nos e depois de uns dias encontro novamente o amigo com a mesma cara apaixonada.
– E então?
- Estou apaixonado.
– Como se chama?
– Julieta. Estive pensando em dizer a ela....
– Não diga. Desta vez apenas se mate.
A vida é realmente bela!

5 comentários:

Anônimo disse...

O que fazer quando tudo é quase nada e quando descobrimos que é comum a pedra que extraimos da mais profunda mina? Nesses casos estamos condenados a repetir o óbvio, pela completa submissão da razão ao instinto.

Lena disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk Muito bom!

Bjs

Neto Geraldes disse...

Ótimo texto.

Anne disse...

Hahahahhahaha genial

Rafael Monteiro disse...

kkkkkk Pobre coitado!!