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quinta-feira, 4 de maio de 2017

Retrato de Lázaro em 5 Mortes Inúteis

I - Uma bala arrebenta o vidro da janela, e os estilhaços, chuva cortante e fina, ferem os olhos do menino que, num canto da sala, não demonstra susto com o barulho dos tiros vindos da rua. A mãe aperta contra o peito a criança predestinada a sucessivas mortes. Não chora. Não tem lágrimas. Lázaro Dias, que então contava três anos de idade, fica cego de um olho e morre pela primeira vez.

II - Amanhece e o caminhão que traz alimento e remédio para a população aponta na curva ao longe. Há muito, sede e fome tornaram-se parte do dia-a-dia. Cerca de trinta pessoas aglomeram-se a beira da estrada. O caminhão aproxima-se e pára à distância de dez metros. A multidão corre em sua direção. De dentro dele saltam seis homens armados de metralhadora, e trazem a morte ao invés do socorro. Um adolescente, que aprendeu a enxergar com um único olho, corre por entre as árvores como se tivesse fôlego e visão de sete homens. Pára depois de muito tempo. Escuta. Silêncio. Tem o braço esquerdo devorado por uma rajada de metralhadora. Aos quinze anos, Lázaro Dias morre pela segunda vez.

III - Os dois rapazes seguem em silêncio, quase sem pisar o chão. O da frente, embora cego de um olho e com apenas um braço, é um dos guerrilheiros mais experientes. Homem de muitas mortes. Todas necessárias e a contragosto. A guerra é uma miséria que mata iguais pela honra e glória de poucos. Conduz o companheiro por uma região que também lhe é estranha. Depois de muito caminhar param para um breve descanso. O que tem um único braço afasta-se um pouco. Seus ouvidos estão habituados ao inaudível. O chão é todo coberto de folhas. Morde lhe violentamente uma das pernas. O amigo corre em auxílio, mas a armadilha é de força tamanha que não pode ser aberta. A perna vai ser amputada. Aos vinte e seis anos, Lázaro Dias morre pela terceira vez.

IV - O homem com cara de bobo pede para falar com o comandante e é encaminhado à sua presença. Apoiado numa muleta, o comandante levanta-se para ouvir o estranho. Dois guerrilheiros fazem guarda bem próximos. O homem bobo sorri e fala coisas sem sentido. Informações que nada informam. O calor é intenso. Abana-se, coça a cabeça, põe a mão sob a camisa. O comandante, desconfiado, se joga ao chão. O homem estranho consegue atirar apenas uma vez. Os dois guerrilheiros o fuzilam. O comandante Lázaro Dias, aos cinqüenta e seis anos, tem o maxilar estraçalhado pela bala, e morre pela quarta vez.

V - A paisagem na janela é suave. O homem recebe a brisa que vem de longe, de lugares que nunca foi. Os dois netos brincam em paz no jardim. A guerra civil que maltratou o país por décadas, agora é só lembrança. O homem sente uma suave dormência percorrer lhe a espinha. Anda em direção ao sofá apoiado na muleta. Ao deitar-se, sente chegar o sono mais calmo de toda sua difícil vida. Ainda toma um último gole de vinho. Aos noventa e três anos, o herói de guerra Lázaro Dias sobe aos céus nos braços de um anjo.

2 comentários:

João Carlos disse...

Texto maravilhoso. Muito bem escrito cada um dos parágrafos. De onde você tira tanta criatividade? Parabéns!

Anônimo disse...

Maravilhoso! Parabéns! Bj