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segunda-feira, 13 de março de 2017

O Trapacista Degolante



Durante boa parte de minha vida me diverti cortando cabeças. Cortava com uma precisão milimétrica. Desenvolvi técnicas sutis que não permitiam qualquer reação da vítima. Chegava por vezes a eliminá-las por inteiro da paisagem, mas elas só se davam conta que estavam sem cabeça, ou sem corpo, tempos depois. Certamente me odiavam por isso. Era linda a minha arte.
As máquinas digitais vieram para destruir meu trabalho. Tornaram as recordações de viagem muito chatas. Era bem mais divertido quando o indivíduo, ao revelar a foto, percebia que tinha sido degolado ou, simplesmente, não existia. O sucesso da foto podia ser medido pelo ódio do fotografado ao ver a revelação.
Chega ao trabalho todo satisfeito com o pacote de fotografias nas mãos, louco para mostrar a todos sua superioridade viajante e eis que, bem diante do Coliseu, do Pathernon, do Metropolitan ou do Opera House, nada. Nada. O colega, com toda maldade, mesmo reconhecendo aquela camisa laranja com listras verdes, sentencia:
- Esse não é você, é?
– Sou eu sim. Olha a camisa!
– Não me lembro dela.
- Então olhe o sapato!
– Ei!!! Não ouse tirar este sapato!! Você veio com ele a semana toda.
– Não sabia que você reparava no meu sapato. Isso é coisa de mulherzinha.
– O que você está insinuando?
– Não estou insinuando nada. Só disse que é coisa de mulherzinha ficar reparando na roupa dos outros.
E lá vinha eu caminhando calmamente quando vi a máquina fotográfica nas mãos de um deles, e outros cinco ou seis prontos para a foto histórica diante da enorme placa de cimento da Advocacia-Geral da União. Lembrei-me de todas as minhas aventuras e odiei as máquinas digitais, mas ao me aproximar percebi que havia uma chance de tratar-se de máquina analógica.
O sujeito me pediu para fotografá-los. Não queria ficar de fora do registro histórico. Recém aprovados no concurso de Advogado da União queriam uma imagem diante da placa. Quando peguei a máquina em minhas mãos, não acreditei: era analógica. O passado correu filme veloz em minha mente. Ouvi com bastante atenção as recomendações:
- Você enquadra de forma que apareçamos todos nós e também o nome na placa.
– Claro. Fique tranquilo. Sou um profissional!
Posicionaram-se fingindo que eram bonitos, ricos e inteligentes. CLIC!!!
Entreguei-lhe o registro ainda secreto da placa e de algumas pernas. Não me agradeceu. Nem me importei.
A vida é realmente bela!

3 comentários:

Andrey de Matos disse...

Muito bom! Nessa grande jornada tive a oportunidade de presenciar seu nobre talento de fotógrafo! Já tinha me esquecido disso rs.

Anônimo disse...

Você é mesmo um artista! Sempre que leio seus escritos volto à minha infância. É divertido e triste ao mesmo tempo. Não sinto saudades daquela época.
Bjs, Elisa.

Anônimo disse...

Ainda bem que vc jamais tirou uma foto minha kkkk
Bjs, Lena