Páginas

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O Quarto em Arles

O Quarto em Arles - Van Gogh
Van Gogh olha mais uma vez o quarto. O dia é infinitamente azul, de uma melancolia doce que poderia até ser confundida com felicidade. O pintor não está em casa, está no hospício de Saint-Rémy-de-Provence. Pinta a lembrança de um lugar. A tela ainda repousa completamente limpa sobre o cavalete. A pintura vai surgindo em lascas de cores atormentadas. O azul inunda paredes, portas, camisas e os jarros sobre a mesa. Dentro do quadro, um, dois, três, quatro, cinco quadros. Dois, estranhamente claros, dois retratos, uma paisagem com algo que parece uma árvore em destaque. O holandês ainda o pintaria mais duas vezes numa inexplicável insatisfação. O Quarto em Arles se joga para frente escorrendo sobre o observador.
No Van Gogh Museum, em Amsterdam, fico parado diante do quadro por um tempo que não sei descrever. O filho pequeno me puxa pelo braço e interrompe a viagem pelo tempo. Naquele quarto, sem que Van Gogh soubesse, dormi infinitas vezes nos meus tormentos de adolescente e nas minhas bebedeiras de adulto.

Osias Canuto e João




3 comentários:

Maurício Neto disse...

Obrigado pelo texto! Gosto muito de Van Gogh e desse quadro!

ELIAS disse...

Parabéns pelo blog e pelos textos:
muito bons.
Elias
http://eliasguara.blogspot.com

Anne disse...

Excelente texto, Osias! Sensibilidade impecável pra descrever Van Gogh.
Tem horas usar apenas os olhos para repousar sobre o Quarto em Arles não é suficiente.