Páginas

quinta-feira, 30 de março de 2017

O Canalha


Canalha!!! E não era. O que aconteceu de fato foi que a vizinha, moça de caráter a um passo da honestidade, solicitou ajuda no reparo da pia do banheiro. Ele, um banana, acudiu. Acudiu e foi pego pelo marido, sem camisa, no banheiro todo molhado. Afeito às armas de fogo e ao escândalo, o marido cuidou de divulgar a versão na qual teria enxotado o banana sob ameaça de morte.
Canalha!!! O insulto soprou-lhe o rosto como o mais desejado dos afagos. Na rua os amigos o cumprimentavam com inveja. Sorria um sorriso de canto de boca, típico dos canalhas. Chegou a pensar em andar com um palito entre os dentes, direito que só os canalhas possuem. Ele estava exultante. Pela primeira vez, em quase vinte anos de casamento, era chamado de canalha. Sorria numa felicidade quase hemorrágica. A vida toda tinha sido visto e tratado como um banana e, agora, enfim, era reconhecido como um canalha.
Ninguém sabia, mas ele estava adorando a alcunha e desde muito antes se imaginara, em segredo, canalha. Chegou mesmo a comprar um par de sapatos de couro com estampa de crocodilo. Estampa de crocodilo. Como todos sabemos, um sujeito que usa sapatos de couro com estampa de crocodilo é canalha. Descobriu também que o desvelar de sua canalhice passara a lhe render crédito com as mulheres. Elas adoravam o canalha. Passou a ser cobiçado nas rodas de bares, nas festas e onde mais pudesse desfiar suas aventuras, que as contava, fantasiava e inventava com toda força de sua imaginação. Assim, transmutou-se de corpo e alma no novo personagem. Com isso, salvou o casamento e ainda conseguiu a admiração pública.
Deu-se, porém, que o marido da vizinha quase honesta ficou sabendo de indivíduo que freqüentava seu lar enquanto ele estava fora. Óbvio, todas as línguas, suspeitas e certezas deram conta que o dito cujo era o banana, recém alçado a canalha. Não teve dúvidas o marido ultrajado, matou o canalha; neste caso, o banana. Algo saíra errado e denunciara o segredo do morto. Faltou-lhe uma das principais características do canalha: Canalhas não são afeitos a demonstrações de coragem. Tem forte instinto de preservação e imaginam sempre que devem sobreviver para prosseguir com a canalhice. Assim, ele não poderia ter morrido. Se canalha fosse, teria derramado lágrimas de arrependimento com soluços de covardia, teria se ajoelhado e pedido desculpas ao marido, ou mesmo se escondido no banheiro. Um verdadeiro canalha sempre se esconde no banheiro e deixa que seu resfolegar apavorado saia por baixo da porta e acalme os ímpetos do matador. Não fez nada disso. Foi um banana. Ficou olhando com cara de banana para o marido, esperando o tiro.
Desmascarado, ninguém foi ao enterro. O falso canalha era agora odiado por destruir as fantasias que ele mesmo colocou na cabeça de amigos e mulheres. Nem a viúva, que desta vez se sentiu traída, foi dar-lhe o último adeus. Afinal, ela era a mulher de um canalha e, agora, era apenas a viúva de um banana. Foi enterrado sob a chuva monótona de uma tarde sem graça. Um dos coveiros comentou antes de lacrar o caixão: “Que patifaria! Sapatos de couro com estampa de crocodilo! Canalha!!!”
A vida é realmente bela!

5 comentários:

Mauro Loureiro disse...

Texto perfeito! Lembra Nelson Rodrigues!

Anônimo disse...

Canalha banana!

Neto Geraldes disse...

muito bom!

Carlos Alberto Maia disse...

Texto sensacional! Você é um mestre!

Michelle Loretto disse...

Muito legal. É isso. Exatamente assim.