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quinta-feira, 8 de junho de 2017

One For My Baby


It's quarter to three, there's no one in the place, except Frank and me. Frank vem ao longe com seu andar lento e às vezes quase parado. Vejo-o pela janela. À medida que se aproxima do prédio torna-se menor, mais curvado. Talvez um efeito do abatimento psicológico que tornar à casa vazia provoca. Sente que algo pesa sobre seus ombros. Meu olhar. Olha para cima e eu aceno para ele. Peço que venha até o meu apartamento para conversarmos.
Frank caminha bastante, mas não vai a lugar nenhum. Quem mora sozinho, quando sai de casa, não vai especificamente a lugar algum, sai apenas. Sai da casa, do vazio, da incomunicabilidade. Sai e compra qualquer coisa, só para pedi-la e depois dizer obrigado, e saber que existe e que sua existência altera a vida de outras pessoas porque é preciso desviar-se dele nas ruas, etc. Conheço todos os mecanismos de defesa contra a solidão.
Frank bate à porta, entra e senta-se num velho sofá que já é seu. Traz sob o braço sua garrafa de uísque. Frank, como eu, é um tanto quanto desajustado, e costumamos passar longas horas juntos em torno da música e da bebida. Nunca contei a ele sobre Luiza, mas sei que desconfia de algo. Estranhamente não me pediu para pegar o violão. Sempre pede. A vida é curta e, sem arte, é tediosa.
Pergunto se está tudo bem, e ele me conta que anda pensando demasiado em uma mulher. Uma garçonete que vive dentro de uma de suas garrafas de Jack Daniel’s. Conta-me uma história longa e louca, e depois me explica que sempre foi apenas cantor, que jamais compôs uma música. I'm feeling so bad, wish you'd make the music pretty and sad. Assim, precisa que eu componha algo para ela. Feito isso, eu tocarei e ele cantará. Concordo imediatamente em fazê-lo. Enchemos nossos copos com mais uísque e brindamos o novo projeto. Súbito me olha e diz: e você? Eu? Set the drinks up. I've got a little story, you ought to know.
Também ando pensando demasiado em uma mulher. Luiza vive dentro da TV e todos os dias vem visitar-me. Seus lábios não têm cor, ou melhor, são de uma cor indescritível. Tudo quanto é belo é menos belo que os lábios dela. Às vezes pálidos, às vezes de um vermelho que inferniza minhas noites. Pergunto se ele quer vê-la. Responde que sim. Ligo a televisão e lá está ela: Linda. A TV não entende os homens. Ficamos ambos olhando Luiza mover-se dentro da caixa de insanidades. Caminha pela galeria abarrotada de gente e vitrines que só ganham sentido quando ela passa. Todos os outdoors refletem sua imagem, todas as ruas têm seu nome e todas as lojas existem somente para satisfazer-lhe os desejos. Ela nem liga. Flui entre os comerciais, a novela, os noticiários. Frank me pergunta o que sei sobre ela. Nada. Não sei absolutamente nada. Exceto que é linda. Não sei onde vive, aonde vai, que noites infindas enfeita com seu sorriso, suas pulseiras, seus anéis, nada sei.
Desligo a TV, pego o violão e começo a tocar. Frank canta. Tem a mais bela voz que já ouvi, moldada pelo cigarro, pelas drogas, pelas noitadas e pelo Jack Daniel’s. Pergunta-me o que estou escrevendo. Se é uma nova canção. Respondo que é uma pequena carta para Luiza. Pede para ler e, ao final, sorri com aprovação. Quer saber se já mostrei a ela. Digo que não, mas que falei sobre o assunto e perguntei se podia escrever, se podia usar seu nome, e ela me disse que sim, e que iria adorar. Explico que não pude entregar-lhe a carta porque não consigo entrar na televisão. Preciso encontrá-la. Frank resolve então que devemos sair imediatamente e procurar Luiza.
Chove uma chuva fina e fria, molha menos o corpo que a alma. Um homem nos pede fogo. Tenho fósforos. Procuro nos bolsos do paletó, da calça e nada. O homem sorri de forma compreensiva, mas demonstra desejo de prosseguir seu caminho. Ele é magro e tem grandes olhos verdes. Um pouco tímido. A chuva parece não incomodá-lo e ele me olha fixamente enquanto a água escorre por seu rosto. Conheço-o de algum lugar que não me lembro. Frank pergunta seu nome e ouve em resposta: Francisco. Novamente procuro os fósforos em todos os bolsos e encontro no fundo do paletó, entre chaves e uma estranha imagem de Luiza que não sei explicar de onde veio. O homem chamado Francisco pergunta algo sobre a mulher na foto. Depois de ouvir meu relato informa que a viu caminhando próximo de onde estávamos. Aponta-nos a direção e segue seu caminho.
Eu e Frank seguimos na direção indicada, mas nosso caminhar é lento, pois vamos parando de bar em bar. Sentamos em todos, tomamos nossa dose de uísque, tocamos uma ou duas músicas e prosseguimos. Fomos assim de rua em rua, de bar em bar, de esquina em esquina. Quando já não acreditávamos mais encontrá-la percebi na cidade um brilho estranho e intenso, como o brilho da imagem de Luiza na tela de TV. Lá estava ela. Sigo sua sombra através das vitrines. É tão bonita quanto a Vitória de Samotrácia, quanto O Quarto em Arles, quanto Os Demônios de Dostoievski, quanto o gosto amargo do uísque, quanto o imenso mar azul de Santorini. Cerco sua passagem e sem muitas palavras entrego a carta. Meio confusa ela toma o papel em suas mãos. Não quero incomodá-la. Frank me aguarda um pouco afastado. Como sempre, decidimos que o melhor seria ir até o próximo bar, tocar mais algumas músicas e tomar mais algumas doses. Andamos assim por toda a noite até que no dia seguinte Frank viajou.
A parede branca me olha com indiferença. Delimita a pequena área da vida. Quisera, eu tivesse essa resistência fria da parede; indiferente ao amor, ao ódio, à poesia, a tudo. Uma resistência humilhante que me deixa ainda mais frágil e metafísico. As paredes, se alma tivessem, viveriam tranqüilas. Talvez não. É a alma a grande responsável por todo sofrimento. É inerente a ela uma metade triste que, no meu caso, ocupa quase todos os espaços. Preciso sair. Preciso sair porque Luíza me espera. Me espera desde a primeira vez que nos vimos e eu senti raiva porque percebi que precisaria dela para o resto da vida.
Agora que consegui sair de casa sinto que jamais precisarei novamente da televisão. Sentado num bar peço meu uísque. Estou livre pela primeira vez. O homem próximo a mim acompanha algum programa no rádio. De repente, peço que aumente o volume. Não sei como se deu e mal posso acreditar. Como ela fez isso? Ouvi a voz de Luiza. Sim, é ela. É ela. Persegue-me e, numa incrível prova de amor, mudou-se para dentro do rádio. Estou confuso. Peço outro Jack Daniel’s. Frank está em Las Vegas, temos um contrato como músicos em um grande cassino. Preciso encontrá-lo para contar-lhe esta incrível história. O garçom espera que eu solicite outra dose. So… make it one for my baby and one more for the road. A long, long road.

2 comentários:

Denise Maeda disse...

Muito, muito, muito bom!

Lena disse...

Que lindo! Eu amei!

Bjs