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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Carlinha Seis Ursinhos


Do narrador aos seus leitores: Na qualidade de sobrevivente aos fatos eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, narro a vocês, curta, a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Quem poesia espera, não leia.
Nascida Carla das Luzes Albuquerque Vieira, Carlinha Seis Ursinhos nunca deu muita conversa às companheiras de prisão. Silêncio quase de uma morta. Olhos de camaleão que todos os ângulos observam. Sobre a prateleira improvisada da cela, o retrato da irmã morta é quase a imagem de uma santa para todas as presas. Todas conhecem a história do crime e da vingança. Acendem vela, rezam, pedem perdão, proteção e tudo o mais que se costuma pedir aos santos.
A irmã de Carlinha foi morta aos dezesseis anos por dois promotores. Morreu com um tiro na cabeça após sofrer tortura e estupro. Impunes, sorridentes, durante todo o processo foram menos culpados que estrelas. A justiça é diferente aos julgados pelos iguais. E os iguais deram um jeito de tornar a pena o mais branda possível. A morta foi encontrada com uma arma na mão. Mas, para todo mal, duas justiças possíveis. E a melhor é a que é feita com muita dor. Os assassinos esqueceram já na primeira noite o corpo da morta. A irmã lembrou sempre e cresceu com o gosto do sangue enchendo a boca todos os dias. Uma, interrompida, e a outra, crescendo, o tempo cuidou de fazer da mesma idade existente e existida. Dezesseis anos. A morta nada mais podia. A viva decidiu vingança.
Uma menina não deve planejar morte sozinha. O mendigo Apocalipse já tinha perdido há muito o sentido do certo e do errado, do possível e do impossível, do real e do imaginário. Esta última característica era a que o tornava útil a Carlinha. Morava num ponto de ônibus e a menina o conhecia desde pequena. Crescera ouvindo falar de suas loucuras e alertada de que deveria manter distância dele. Muitos vizinhos afirmavam que já o tinham visto transformado num cachorro. Grande e forte, seguidas vezes se metia em confusão com outros mendigos. Carlinha, sem nenhum medo aproximou-se, explicou e pediu ajuda. Apocalipse sorriu e aceitou. Mas deixou claro que no retorno de Jesus eles teriam que prestar contas.
Carlinha Seis Ursinhos e o desajustado tornaram-se inseparáveis e infindáveis nas conversas. Ele sabia exorcizar por métodos dolorosos e contou a ela histórias sem fim de suas vidas passadas. Apocalipse, entre outros conhecimentos como alquimia, magia e astronomia, era também dotado da visão do fogo e do enxofre. Contou a Carlinha sobre a Santa Caverna, na igreja de Agia Anna, na Ilha de Patmos, onde São João ditou a seu discípulo Prochoros o Apocalipse. As imagens muito impressionaram a menina. Sua mãe ficava desesperada com aquela amizade, e de tudo fez para encerrá-la. Contra todas as investidas da mãe, cada vez mais se tornavam amigos. E assim se passaram dois anos, até que a mãe desistiu e ninguém mais na vizinhança se importou com aqueles dois lunáticos que viravam dia e noite em diálogo sem fim.
Durante esse tempo os dois seguiram de perto os promotores assassinos. Ela, vestida de mendiga e ele, dizem, no formato de um cão. Casa, trabalho, bar, boate, tudo o que era possível a uma menor e um mendigo conhecer sobre a vida de dois homens de classe abastada eles conheceram.
Chegado o momento e a idade certa, dezoito anos, Carlinha Seis Ursinhos, linda como sua irmã fora um dia, deu um jeito de aproximar-se dos Promotores. Um pouco mais de três encontros e logo eles levaram a conversa para onde ela queria. Ela, fria matemática e lógica deixou-se seduzir. Os dois mergulharam em encanto e desejo. A menina abriu as portas para o encontro a três, no apartamento de um deles. No grande dia trazia seis ursinhos coloridos, de plástico duro e cores variadas, pouco menos de dez centímetros cada. Brinquedos de infância da irmã morta.
Carlinha era uma graça. Os olhos verdes cravados na pele morena. Procurou não criar muitos empecilhos. Com todo nojo, que soube disfarçar, deixou-se beijar e acariciar por ambos. Tudo tinha que dar certo e, para isso, ela já estava preparada para o que teria que agüentar. Sentiu medo ao propor amarrá-los. Pela primeira vez se dava conta do absurdo que estava propondo. Era muito primário. Nenhum homem cometeria tamanha estupidez. Cometeram. Os dois deixaram-se atar à cama, que de burrice nunca é plena a cabeça de homem apaixonado. Era só uma menina franzina de dezoito anos. O que poderia acontecer demais? Aconteceu.
A menina saiu do quarto prometendo uma surpresa ao retornar. Abriu a porta do apartamento e fez entrar Apocalipse. Quase não o reconheceu. Estava belo e medonho como a própria imagem do demônio, que ela um dia ouviu descrita pela boca do mendigo. Trazia no rosto a seriedade e gravidade que o momento exigia. O carrasco adentrou a sala de torturas e abriu uma pasta de onde retirou alguns recortes de jornal com o rosto da irmã de Carlinha. Aproximou cada um deles do rosto dos magistrados de forma que pudessem reconhecer e lembrar. Os promotores sentiram um estranho frio que só se deve sentir na hora da morte. Apocalipse foi tomado por um misto de nojo e decepção ao ver o pavor estampado na cara dos dois merdas. Por um instante descontrolou-se e desferiu vários socos em seus rostos. Foi preciso que Carlinha interviesse para que ele não acabasse com tudo ali mesmo. Ela pediu paciência. A morte deveria ser sofrida como a de sua irmã. Era isso que tinham combinado tantas vezes.
Todo o processo se daria tendo como referência as imagens narradas por São João.
“E foi assim que eu vi os cavalos e os que os montavam: estes últimos eram couraçados de uma chama sulfurosa azul. Os cavalos tinham crina como uma juba de leão e de suas narinas saíam fogo, fumaça e enxofre.” (São João, Apocalipse 9,17)

Em alusão aos cascos dos cavalos apocalípticos pegaram dois pedaços de pau e bateram o quanto puderam no corpo dos advogados. Após a surra, fizeram queimaduras em suas narinas com pontas de cigarro. Apocalipse também derramou em seus olhos um liquido que tinha preparado especialmente para aquele momento. Queimava como ácido. E não faltou repertório de maldades vinculadas ao texto bíblico, até que Carlinha saiu do quarto e retornou logo após com os seis ursinhos. Apocalipse não gostou. Seis ursinhos? O que era aquilo? O carrasco argumentou que aqueles ursinhos poderiam desmoralizar todo o processo. Não havia qualquer referência de São João a imagem de ursinhos apocalípticos. Carlinha falou que não abria mão dos bonequinhos. Tinha sonhado com eles e, no mais, pertenciam à infância de sua irmã, portanto, estavam plenamente inseridos no contexto. A menina fez uma pequena demonstração do poder dos ursinhos. Pegou dois deles, passou um pouco de vaselina e bastante vidro moído quase como sal. Introduziu vagarosamente na “rede de esgoto” dos advogados que, a esta altura das perversidades, eram dois farrapos de gente. A cada gemido Apocalipse socava os merdas com desprezo. Estava decepcionado com a frouxidão dos Data Venia. Não combinava com a grande luta entre Deus e o Diabo por ele imaginada.
Plenamente introduzidos os dois primeiros ursinhos, Carlinha pegou mais dois e, desta vez, foi Apocalipse quem fez o serviço. Os dois ursinhos que restaram foram para a testa, para marcar o lugar do tiro que viria. Apocalipse fez então a grande fala que finalizaria com a sentença. Foi um discurso longo, de quase vinte minutos, acompanhado com bastante atenção e seriedade pela menina. Os promotores nada ouviram, pois a dor provocada pelos ursinhos introduzidos no ânus era insuportável. Remexiam-se o quanto era possível fazendo escorrer o sangue no lençol branco. Apocalipse explicou que nem ele, nem Carlinha, nem ninguém podia contra aquele tipo de justiça, portanto não cabia ali nenhuma espécie de recurso. A sentença seria cumprida imediatamente. Carlinha Seis Ursinhos pegou o revólver e meteu uma bala na cabeça de cabeça de cada um dos Promotores. Simples assim. Como jamais tinha atirado em sua vida, para não correr risco de errar, atirou com a arma colada a testa dos advogados. Isso fez um estrago sem tamanho, e o sangue, juntamente com pedaços de crânio e miolos, voou em todas as direções. A menina descobriu tardiamente que o louco não era assim chamado ao acaso. O louco é louco mesmo. Apocalipse, possuído subitamente por visões de cavalos e cavaleiros em chamas, derramou gasolina em todo o quarto e ateou fogo. A menina, assustada e impressionada com o que via, desmaiou. Apocalipse ergueu-a em seus braços com o carinho e cuidado de um pai. Se alguém pode conceber um cenário pavoroso para o fim dos tempos, este estava naquele quarto. O que os dois cúmplices fizeram era de dar medo ao próprio demônio.
Carlinha e o mendigo deixaram o apartamento e caminharam em silêncio. Não tinham receio de polícia, cadeia ou justiça dos homens. Isso tudo era bobagem. O certo era irreversível e estava feito.
A menina foi presa dois dias depois enquanto jantava com a mãe. A prisão de Apocalipse não ocorreu e tornou-se envolta em mistério. Os policiais encarregados de prendê-lo, para evitar a humilhação, informaram que ele não fora encontrado. Porém, a história real, narrada por várias testemunhas, dá conta de que o mendigo, ao ser cercado no ponto de ônibus onde morava, desapareceu numa nuvem de fumaça e enxofre.
Do narrador aos seus leitores: Eu, Manoel Sidônio das Cruzes, ou como queiram, Apocalipse, encerro aqui a medonha história de Carlinha Seis Ursinhos. Nem santa, nem monstro, apenas uma menina.
“Os tíbios, os infiéis, os depravados, os homicidas, os impuros, os maléficos, os idólatras e todos os mentirosos terão como quinhão o tanque ardente de fogo e enxofre, a segunda morte.” (São João, Apocalipse 21,8)

7 comentários:

Anônimo disse...

MARAVILHOSO !!! ESPETACULAR !!!. MUITO BOM MESMO !!! COISA DE GENTE GRANDE !!!

Muito, muitíssimo acima dos outros dois primeiros (na minha santa ignorância, e leiguice, daria, de 1 a 10, 6,5 para o primeiro e 5 para o segundo e, pelo menos, 20 prá este último).

Muito bom, muito bem trabalhado, cheio de conteúdo (olha eu aqui, querendo dar uma de entendido, de crítico. Só falta-me eu estar dizendo "muito denso").

A maneira precisa e direta em que vai descrevendo a estória, criando os mistérios e subindo até o topo de montanha (deve ter um nome próprio na literatura. Não é prólogo, pois vai além do início) é precisa, impecável e irretocável. Você deve tê-la revisto no mínimo umas 20 vezes. A descida da montanha, quando já revela um punhado de fatos, cria a estratégia da vingança bem como a execução desta, também achei ótima. O final, prá mim, também é excelente.

Acho que este deverá ser o primeiro conto do livro.

Vamos ver na próxima semana

Matador Ferreira disse...

Indiscutivelmente perfeito!!! Acho que pode estar surgindo um grande contista.

Anônimo disse...

Me contaram uma neste domingo... mais uma do Zé (esse zé mesmo que vc está pensando, que deixou a vida ordinária para viver o extraordinário e blá, blá, blá).

Pois então, perguntaram pro Zé porque ele não tinha carro. Isso mesmo, o Zé vive em busca do miraculoso, do inconcebível, mas não tem carro.

A resposta foi simples: não preciso movimentar 1 tonelada de ferro para me deslocar, vou a pé ou de bicicleta.

Quantas toneladas tem uma casa? Quando se tem que ficar em casa, pra casa não ficar sozinha?

Outra boa: quando se fica em casa, pra casa não ficar sozinha, quem fica, fica sozinho?

Rodrigo Tochio disse...

Osias, você é o cara!

lena disse...

Acho que o escritor da novela das 21h andou lendo o que você escreveu e tentou fazer algo parecido. Mas... não conseguiu!

Bjs

Anne disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anne disse...

Incrível Osias, excelente texto!
"Crescera ouvindo falar de suas loucuras e alertada de que deveria manter distância dele" - Esse trecho me fez lembrar da minha pré-adolescência, passava horas a fio estudando Apocalipse e Escatologia hehehe
Sou fã do teu blog.