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quinta-feira, 23 de março de 2017

Octávio Brás

Quando o delegado perguntou o motivo pelo qual eu matara tantos homens, não soube responder. Sinceramente, nunca parei para pensar sobre isso. Que graça pode ter a vida para alguém que nunca matou um homem? É preciso cometer um assassinato ao menos uma vez na vida. É a única maneira de ajudar os homens. Já que são covardes para matar-se, é preciso matá-los. Mas depois, pensando melhor, descobri que meu objetivo, não admitido, é aparecer na televisão, nos jornais, nas revistas. Eu me considero um sujeito digno de ser observado e admirado em minha grandeza.
Octávio Brás o meu nome, ou simplesmente OB, como as mulheres gostam de me chamar. Tenho um metro e vinte centímetros de altura. Sou anão, e daí? Foda-se. O que interessa é que sou muito poderoso. Único irmão do maior traficante de drogas do país. Maior também em altura. Tem dois metros e doze centímetros. Como é possível?! Muito simples, o pai dele me pegou para criar quando eu tinha apenas cinco anos. Pegou mesmo, porque ninguém autorizou. O velho estava passeando lá pela favela, que de vez em quando ele gostava de ver pessoalmente como andavam os negócios e, por acaso, tropeçou em mim. Ele não enxergava quase nada, e eu estava ali deitado, meio sem fazer porra nenhuma.
- Que foi isso? - perguntou.
- Sei lá! - o guarda-costas já respondeu me dando um chute na bunda. Soltei um pequeno grito. O velho voltou a indagar:
- É uma criança?
- É uma criança, um marciano, não sei. Some daqui coisa escrôta! - me deu outro chute, dessa vez na cabeça.
Deixaram-me ali e prosseguiram caminho. Mas o inesperado e o sem razão andam siameses. Não chegaram a dar nem dez passos e a laje de uma pequena loja desabou diante deles. O velho levou um susto enorme. Foi preciso que o guarda-costas o segurasse, pois estava prestes a desmaiar. Houve um pequeno tumulto no local, mas ninguém se feriu. Algumas pessoas se acercaram do traficante para saber se ele estava bem. Nada de grave, apenas um susto. O medo é senhor de conexões lógicas sem fundamento. O velho cismou que não morreu graças ao fato de eu estar ali atravessado em seu caminho, pois, não fora isso, e ele estaria passando debaixo da laje no exato momento em que ela desabou. Retrocedeu à minha procura. A sorte era agora minha inseparável. Eu continuava caído no mesmo lugar, ainda um pouco tonto pelo efeito do chute, e também porque eu já era preguiçoso desde essa época.
- De quem é isso? - perguntou o traficante, apontando para mim.
- É da Dona Augusta - as pessoas responderam quase ao mesmo tempo - Não presta para nada!! Tá sempre deitado pelo meio da rua com essa cara de vazio.
- Vou levá-lo comigo, ele me deu sorte. Avisem a essa tal de Augusta que depois eu lhe mando uns presentes.
A partir daí comecei a levar essa vida de rei que tenho hoje. Continuei não fazendo nada, só que não fazia nada deitado em sofás luxuosos, ao invés de ficar pelo chão.
O delegado voltou à carga:
- Você é acusado de ter matado cerca de quarenta pessoas. O que tem a dizer sobre isso?
Miseráveis! Como podem me acusar de ter matado apenas quarenta pessoas. Racistas e preconceituosos. Na certa não computaram os negros e os asiáticos. E os homossexuais, água em toda bica, será que foram esquecidos? E as mulheres, quem garante que algumas delas não estavam por mais um? Preconceito, preconceito. Me odeiam porque sou anão. Como se não bastasse o complexo que sinto por não conseguir mijar sozinho em banheiro público. Tenho que pedir sempre a um dos meus seguranças que me levante para eu alcançar o mictório. Isso é vergonhoso para um sujeito poderoso como eu. É um reduzir o diminuto. Fica tudo que é homem olhando aquela situação medonha. Outro dia não suportei o riso de desprezo de um deles e mandei amarrar e deitar. Mijei na cara do espertalhão.
Mas, voltando às mortes, certa vez dei fim a um grupo de vinte turistas japoneses. Matei os japas após convidá-los para um almoço na favela. Foram todos sorridentes, com suas máquinas fotográficas. Turistas japoneses estão sempre rindo, até no formato dos olhos. E todos sabemos que o riso permanente tem cara de desentendimento ou traição. Rindo do quê? Que porra é essa de andar sempre rindo? Qual motivo pra graça? Morreram todos. Gostam de feijoada. Mas, feijoada e bala de fuzil na barriga descombinam em alimento que leva aos sete palmos de terra.
Também tem os três turistas italianos que encomendei diálogo com o demo, parelha do malfeito e do malfeitor. Filhos da puta. Vieram ao Brasil para um turismo sexual e se foderam na minha pequenina mão. Plantei armadilha. Cinco meninas da favela, entre doze e quinze anos. Cercaram em Copacabana, sentaram no colo, beijinho na boca e o trazer pro morro com promessa de mais. Paguei às meninas cem reais por cada um deles. Preço bom. Mandei currar três dias e matar. Morte vistosa. Pendurados de cabeça para baixo em postes na favela e sangrando por um corte no pescoço.
- Senhor delegado, fazendo uma breve retrospectiva da minha vida posso lhe garantir que matei no mínimo oitenta elementos, que é como vocês gostam de falar. Mas sou modesto, considero o todo de minha obra apenas razoável e creio que posso melhorar, assim que sair daqui.
- Santo Deus!! - exclamou o delegado - Estou diante de um monstro.
- Chega! - gritei - Vamos deixar de falso moralismo. Este é um mundo de merda, o senhor é um delegado de merda, os mortos são uns merdas. A única coisa digna de consideração aqui sou eu. Concordei em permanecer nesta cadeia por três dias, apenas porque sou curioso. Todo mundo sabe que amanhã meu irmão entra aqui distribuindo uns poucos dólares e tudo se transforma. As evidências transformam-se em dúvidas, o moralismo se prostitui, tudo muito simples, só eu sou complexo. Agora vou me retirar que estou cansado dessa conversa idiota. Por favor, só me chame se chegar alguém da imprensa querendo uma entrevista, uma foto, talvez material para uma biografia.
Saí da sala em direção à minha cela e deixei o delegado só, reduzido à sua vida de merda. De passagem dei uma cabeçada nos testículos do carcereiro e mordi sua coxa arrancando um pedaço. Talvez, com a chegada da imprensa, ele conquistasse um instante de celebridade falando sobre a minha agressão. Creio ter percebido em seus olhos, além da dor é óbvio, um brilho de agradecimento pela possibilidade de ser famoso. De qualquer forma, muito menos famoso que eu, Octávio Brás, o anão gigante, o verdadeiro gênio da raça.

3 comentários:

Jorge Jóia disse...

Grande matador! Ficou interessante o blog. Pelo que vejo todos os contos falaram de matadores. No início achei que seria um homenagem ao primeiro posta.
O negócio está muito bom. Vou poder ler vários toda semana. Este é muito bom. Gosto da arrogância dos principais personagens dos seus contos.
Um grande abraço. Tudo de bom.

Matador Ferreira disse...

Indiscutivelmente perfeito!!! Acho que pode estar surgindo um grande contista.

Rafa disse...

Amigo Osias, esse seu conto é primoroso!