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terça-feira, 13 de junho de 2017

O Homem Cansado


Chamam-me José Feliciano Bezerra. Nunca alguém chamado José Feliciano Bezerra conseguiu ser algo na vida. Minha mãe vai morrer. É a culpada disso. É culpada também por eu ter metade da cara deformada por uma mordida de cachorro. Queria não precisar matá-la, mas não tem jeito, vai ter que morrer. Sou um homem justo.
Ontem fiz vinte e oito anos. Não consigo ver isso no espelho. Não consigo ver nada no espelho. Não reconheço esse rosto deformado e não gosto que fiquem me olhando. Poderia ter matado inúmeras pessoas apenas porque ficaram me olhando. Mesmo as mulheres bonitas, poderia ter matado todas. Olham-me e sentem nojo, e quando encontram seus maridos correm para abraçá-los e vêem seus rostos perfeitos, podem acariciá-los e sentem-se felizes, pois viram um homem com um rosto horrível e tinham medo que eles também pudessem ter aquele rosto, mas já passou, foi só um pesadelo. Foi só um pesadelo. Ainda deixo um bonitão desses com a cara em pior estado que a minha. Na vida existem duas coisas que me irritam profundamente: uma é a vida, a outra não sei o que é.
Todo José Feliciano Bezerra é nordestino, pobre e tem uma peixeira escondida sob a camisa. Não sou exceção.
Durante todo o dia vaguei pela cidade, sem destino, apenas alimentando meu ódio. Quando veio a noite dirigi-me até um bairro do subúrbio, freqüentado por prostitutas, viciados, mendigos e todo tipo de miseráveis. Fazia algum tempo que sentia vontade de visitar o homem que previa o futuro. Meus amigos deixavam lá muito dinheiro e voltavam cheios de esperança. Da minha parte, queria apenas confirmar que o tal vidente era na verdade um charlatão.
O sujeito me recebeu cheio de salamaleques, disse-me que não estava mais atendendo naquele dia, mas que abriria uma exceção. Pareceu-me demasiado delicado. Pior para ele. Sou um homem sério.
Sentei-me diante dele numa mesa redonda onde havia uma bola de cristal. Embora estivéssemos bem próximos, quase não conseguia distinguir seu rosto na pequena sala mal iluminada, mas, por baixo da mesa, suas pernas tocavam as minhas a todo instante. Desagradável. Ele não tinha noção do perigo que corria. Tudo me deixava bastante irritado, eu não via a hora de sair dali.
A criatura fez um pequeno discurso sobre o meu passado. Falou em pobreza e sofrimento. Nenhuma novidade. O presente foi a mesma história. Então, veio o futuro, e ele teve o descaramento de dizer que eu seria muito feliz. Dizia isso com naturalidade, como se fosse algo realmente possível. Meu ódio acumulado começou a borbulhar. Perguntei se eu teria bastante dinheiro, se poderia comprar casas, carros, se teria mulheres bonitas como as que eu via nas ruas, nas revistas, na televisão, e hoje estaria com uma e amanhã com outra, porque eu serei rico e rico faz o que quer, e manda prender e arrebentar, manda tomar no cu, manda trazer outro whisky, manda passar mais tarde que no momento ele está ocupado, manda qualquer coisa, porque quer que se foda tudo. A todas as perguntas ele respondia entusiasmado que sim. Era a gota d'água, a grande prova da farsa. Explodi. Saquei a peixeira e enfiei-a num golpe violento, de baixo para cima, por trás do queixo do ordinário. A lâmina penetrou fria e cega, devorando tudo. Só parou quando topou a parte superior do crânio, puxei-a de volta. Por um momento fiquei olhando o corpo ensangüentado caído sobre a mesa, depois limpei a faca numa cortina e saí meio enojado, com vertigens e ânsias de vômito. Sou um homem sensível.
Quando deixei o prédio onde morava o vidente, era quase meia noite. Fiquei algum tempo parado na calçada diante do edifício, imaginando o que fazer, e resolvi ir até uma boate. Era preciso tomar alguma coisa para poder raciocinar com mais calma. Ao menos enquanto durasse a escuridão eu permaneceria seguro. A noite sabe guardar segredos sobre crimes e romances que só são passíveis de serem descobertos ao amanhecer.
Caminhei calmamente pela rua em direção à boate. Não estava longe. Na porta, o leão-de-chácara olhou-me submisso. Já reparei que a minha cara deformada me deixa com um aspecto meio sinistro, aspecto de assassino ou coisa parecida. Novamente, tinha eu mergulhado num ambiente sombrio. Gosto disso.
O lugar era pequeno e estava vazio. Doze mesas cercavam uma pequena pista de dança que também servia de palco para shows de strip-tease, que não demoraram a começar. Uma mulher entrou na pista e iniciou uma dança desajeitada, que ela pretendia ser sensual. Logo em seguida, ao lado dela, surgiu um anão executando um número de malabarismo. A pequena criatura movia-se com agilidade em torno da dançarina, procurando chamar-lhe a atenção, e ela, fingindo-se seduzida, jogava-lhe em cima as peças de roupa que ia retirando. Os dois eram horríveis, mas simpatizei com ambos. Cheguei mesmo a sentir atração física pela mulher. Ela percebeu, pois se insinuava dançando bem próxima à minha mesa. Tão logo terminou o show, veio em minha direção e pediu para sentar-se comigo. Tinha uns olhos tristes. O resto do corpo não importa, era nos olhos que guardava todo mistério. Juntos, tomamos um litro de cachaça e nos divertimos conversando coisas agradáveis. Em meio a vários assuntos íamos desfiando confissões acerca de nossas vidas. Enquanto ela falava, eu ia brincando com sua mão, com os anéis, pulseiras, as unhas pintadas. A brincadeira foi me incendiando de desejos e logo a convidei para dançar. Durante três músicas suaves, que tocaram uma seguida da outra, estivemos abraçados. Sussurrei-lhe ao ouvido que eu não estava me concentrando direito porque a música era americana. Podia ser que nós estivéssemos ali, carinhosamente entrelaçados, e o cantor estivesse dizendo que nós éramos dois merdas que não entendiam inglês, mas ficávamos dançando enquanto ele nos xingava. Ela sorriu e disse que eu não deveria pensar nisso. Enfim, acabei cedendo, e apertei-a um pouco mais contra o peito. O suave perfume que subia do seu pescoço me fez esquecer tudo.
Pressenti que a noite terminaria em sexo, e isso logo se confirmou. Disse-me que quase não conseguia fregueses porque era feia. Concordei. Aceitou ir para a cama comigo sem que eu lhe pagasse nada. No quarto que alugava, logo acima da boate, fizemos um amor violento e intenso. Quando terminamos, fiquei analisando-a deitada de bruços. Era realmente muito feia. Pensei no quanto deveria ser triste para ela ser tão desprezada. Carinhosamente beijei todo seu corpo, e por longo tempo fiquei a afagar seus cabelos. Confessou-me que nunca havia sido tratada com tanto carinho, e que apesar de me considerar feio, estava satisfeita ao meu lado. Fiquei feliz. Com cuidado, para não assustá-la, peguei a peixeira que estava ao lado da cama e docemente fiz com que penetrasse em suas costas macias. Seu corpinho frágil estremeceu num suspiro. Naquela noite o amor lhe dava a recompensa por tantos anos de submissa dedicação. Sou um homem romântico.
Ganhei a rua já perto do dia clarear. Só então me dei conta de que ainda não havia me alimentado desde o almoço. Era hora de voltar para casa.
Longamente caminhei pela cidade vazia. Acho que eu seria feliz se fosse um homem rico. Não sei se é verdade. Vai ver que todo pobre pensa que seria feliz se fosse rico. Foi perdido nesses pensamentos que cheguei em casa. Agora me encontro diante de minha mãe que toma seu café lentamente. Esperarei com paciência que acabe de comer para depois matá-la. Penso na prostituta. Como era mesmo o nome dela? Não me lembro, mas isso não importa. Vejo-a correndo em minha direção. Vem sorrindo e vai me abraçar, e tem um sorriso triste, e braços tristes, e pernas tristes, e todo seu corpo combina com seus olhos tristes. O vidente também corre em minha direção e quer me pedir alguma coisa, e pede desculpa por ter enganado tanta gente, por ter inventado tanta mentira, e quer que eu ajude os mentirosos, quer que eu os mate. Explico-lhe que não tenho condições de fazer isso, que eles são muitos, e eu apenas um. Ele me olha desapontado e desaparece. Sinto-me impotente. Diante de mim o rosto de minha mãe multiplica-se e torna a ser um, e novamente multiplica-se e torna-se um, num vaivém infinito. Sorrio. Minhas pálpebras têm encontro cada vez mais prolongado. Sou um homem cansado.

7 comentários:

El Matador disse...

E começou a história... Valeu a estréia com esse conto "daporra" (acho que já tinha tido o privilégio de lê-lo antes), escuro e com sotaque brasileiro e, se me permite, um toque buñuelístico (esse anãzinho...) .
Abração véi.
Xepa.

Zé das Mortes disse...

Excelente o seu conto. Vamos matar mais gente!!!

Jorge Jóia disse...

Grande contista.
Faz tempo que não leio nada seu. Por isso foi um prazer degustar essa estória.
Sempre me comove. Sou um amigo comovido.

Um grande abraço e vou continuar seguindo.

Jorge Jóia

Anônimo disse...

Gostei de todos mas "O Homem Cansado" é genial!
A idéia do blog foi ótima, assim posso voltar a ler seus contos.
Bjs.
Elisa

Garrincha disse...

li comendo pão com mortadela e queijo minas, sou um homem satisfeiro

Lena disse...

Gostei muito. Vc é genial em qualquer
composição literária ou musical.
Parabéns!

Bjs

Danilo disse...

O que se pode dizer sobre um texto destes? É simplesmente fantástico.